A realidade por trás de O Poderoso Chefão

A construção da imagem da máfia na história e no cinema

Por Vanessa Cristina Chucailo* | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Foi durante seu trabalho como jornalista, em meados de 1960, que Mario Puzo ouviu diversas histórias sobre a máfia. Um fenômeno inegavelmente intrigante e misterioso. O resultado de tantas histórias veio em 1969 com a obra The Godfather (br: O Poderoso Chefão; pt: O Padrinho). Puzo havia publicado anteriormente outros dois romances, The Dark Arena (1955) e The Fortunate Pilgrim (1965), porém nenhum dos dois livros atingiu o tão sonhado sucesso financeiro, embora tenham recebidos boas críticas.

The Godfather permaneceu na lista dos best-sellers do The New York Times por 67 semanas consecutivas. Além de tornar seu escritor em uma celebridade literária, a obra se tornou um clássico no que diz respeito à literatura escrita sobre o tema.

Nenhum outro romance retratou tão bem o que foi (talvez até o que é) essa organização criminosa – a máfia. Mas o que ela é? Do que se trata? Vamos ver um pouco mais sobre esse intrigante fenômeno social, que inspirou clássicos da literatura e do cinema.

 

As origens da máfia moderna

Desde 1890, a máfia já era uma organização secreta e criminal, com ligações políticas e alcance internacional. Houve, porém, até quem negasse a sua existência. A verdade é que por muito tempo o problema mafioso foi subestimado pelas autoridades. Essa existência “suspeita” só fez favorecer o seu desenvolvimento. A máfia aprendeu a ocultar-se nas entranhas do Estado, sobrevivendo como um poder paralelo a ele.

 

 

 

Hoje é difícil perceber o quanto não se sabia sobre o fenômeno mafioso antes das confissões dos pentiti, os “arrependidos”, delatores da máfia. Foram com as confissões de Joe Valachi (1962), com as memórias de Nick Gentile (1963), as declarações de Leonardo Vitale (1974) e, principalmente de Tommaso Buscetta que a máfia acabou revelada como organização criminosa secreta e, como tal, seria levada ao tribunal e condenada.

Mais do que imaginar o que poderia ser a máfia, escrever e investigar sobre a sua história passou a fazer parte de um movimento intenso para compreender e combater o perigo que um crime organizado representa para a sociedade.

 

O fenômeno mafioso

Mais que um fenômeno de natureza violenta, a máfia como um todo pode ser vista como um complexo de redes sociais, em prática conjunta com os tradicionais laços de honra, parentesco e uma amizade intimamente forjada dentro das condições da Omertà, a lei do silêncio.

 

 

As responsabilidades assumidas por um indivíduo ao fazer parte da máfia se estendem muito além de um ritual ou um juramento de segredo, fidelidade, discrição e honra. Ser mafioso significa assumir uma nova identidade, adentrando em um universo moral completamente diferente. São valores e compromissos que ligam diretamente o mafioso a sua “família” mafiosa.

A “família” é uma espécie de grupo de afinidade, a qual o mafioso deve se dirigir sempre que necessário. Nada tem a ver com os laços familiares de sangue, embora seja comum que parentes pertençam à mesma organização criminosa. Em geral, cada família controla uma porção de território, e funciona como uma célula base da organização como um todo. A força e o poder de uma família mafiosa é medida tanto pelo número de componentes quanto pelas amizades de importância social que o seu chefe conseguiu estabelecer. Quanto maiores e mais qualificadas forem essas relações, maior será a consideração e o respeito conquistado pelos adeptos dessa família.

 

 

A estrutura hierárquica de uma família mafiosa é claramente piramidal. No topo, temos o chefe da família, o capo famiglia, ou apenas don. Ele é quem toma as grandes decisões e comanda a organização, resolvendo problemas interno e mantendo tudo sempre em ordem. Deve sempre estar livre do contato ou vínculos com a base da pirâmide.

Abaixo dele, encontra-se o vic-capo, espécie de subchefe da família. É o responsável pela execução das decisões tomadas pelo don, transmitindo aos subordinados as ordens e trabalhos a serem executados. Existe também o consigliere, ou, conselheiro. Sua função é o de aconselhamento do don. Cabe a ele legitimar as decisões tomadas pelo seu superior, assegurando que elas sejam justas.

Em seguida, temos o capo decina, ou chefe de dezena, espécie de gerente que comanda um grupo de dez subordinados. Cada capo decina controla uma atividade ilegal dentro da família. São responsáveis pelos resultados dentro das suas áreas.

 

 

Quase na base da pirâmide se encontram os uomini d’onore, ou os “homens de honra”, os soldados. Cabe a eles fazerem todos os trabalhos sujos, sem jamais envolver o nome dos seus superiores em suas ações. Todos os mafiosos ingressam na carreira começando nessa categoria.

Ao final da estrutura piramidal da família mafiosa, encontramos os “associados”, as parcerias. Aquelas pessoas que participam indiretamente dos benefícios. São políticos, empresários, juízes, sindicatos, e uma série de parcerias que podem prestar algum tipo de serviço ou manter negócios que beneficiam a máfia, mas sem pertencer diretamente à organização.

Entender o modo de pensar da máfia é compreender as regras morais, misturadas ao logro calculado e uma selvageria na mente de cada um dos seus membros, expressos na linguagem da honra, e sempre subordinados aos interesses da organização. Tudo em troca de dinheiro, demonstração de poder e domínio territorial, tendo como marca registrada a intimidação.

 

 

A velha tradição

The Godfather traz, em si, regras e costumes intrincados à antiga mentalidade mafiosa, consagrada na figura do personagem central criado por Mario Puzo: don Vito Corleone – que se eternizou como a representação do que era ser um chefe mafioso. Um homem sábio, capaz de assumir responsabilidades e de comandar grandes negócios, um verdadeiro “homem de honra”, mas que, no fim das contas, como qualquer outro mafioso, permaneceu à margem da sociedade. Afinal, don Vito Corleone é um bandido, um mafioso. Sentimental, individualista e cruel flagelo dentro de uma organização criminosa bem estruturada. Seus valores são de um conservadorismo burguês, e suas atividades ilícitas espalham corrupção e violência.

 

 

Mas parece que esses valores pouco influenciamos leitores, uma vez que Puzo constrói toda uma trama que, no fim das contas, transforma o bandido em herói. Mesmo a máfia sendo uma organização criminosa, que visa obter um rápido acúmulo de capital por métodos ilícitos e desonestos, don Vito Corleone aparece como o bom padrinho, sábio, honrado e poderoso, a quem todos poderiam recorrer. Em troca, Don Corleone aceitava que a própria pessoa proclamasse sua amizade. Compreendia que, por questões de cortesia, o indivíduo estava em dívida para com ele. E que tinha o direito de convocar a pessoa a qualquer momento, para saldar a dívida por meio de algum pequeno serviço.

Puzo constrói em cima do personagem Don Corleone nada mais do que a realidade do que deveria ser um mafioso fortemente influenciado pela antiga mentalidade tradicional do homem de honra, de uma cultura de pertencimento e de valores fundamentais. Em um mundo em que se perdem os pontos de referência, os mafiosos tendem a conservar sua identidade. A vida do homem de honra deve ser condicionada por seus valores, como, por exemplo, comportar-se dignamente.

Nesse contexto, Don Corleone é representado com perfeição por Puzo, afinal, dentro da trama, o poderoso Corleone se mantém fiel às antigas tradições, demonstrando respeito, erudição, e toda uma moral mafiosa que um verdadeiro líder precisa ter. O mafioso de antigamente não devia fazer alarde de armas, ou exibi-las. Não precisa ser prepotente nem mostrar que era um mafioso, mas fazer sentir no ar que podia sê-lo.

 

 

Em uma passagem do livro de Enzo Biagi, O Chefão Está Só (1987), em entrevista realizada com Tommaso Buscetta (mafioso preso pela polícia italiana, e que vai se tornar o principal fornecedor de informações a respeito da máfia, em troca de proteção), Biagi pergunta ao mafioso se ele leu O Poderoso Chefão. A resposta de Buscetta é rápida: “Sim, é tudo verdade, com exceção do beija-mão, e da cabeça de cavalo decepada, por que a máfia faz coisas piores.”

Em seguida, Biagi questiona sobre o que deve fazer um padrinho. Buscetta responde que ele, no futuro, deve dar ao novo membro da família mafiosa todos os ensinamentos de que deve a ele mais devoção que aos outros. Ou seja, a lealdade que o mafioso tem para com o seu chefe e sua família é o ensinamento mais precioso que se possa transmitir. Don Vito Corleone é a representação perfeita dessas características, o que faz dele um verdadeiro padrinho.

 

Da obra para o cinema

Em 1972, em uma parceria com o diretor Francis Ford Coppola, Mario Puzo adaptou um roteiro da obra para o cinema, com direito a duas sequencias: The Godfather Part II (1974) e The Godfather Part III (1990). The Godfather foi indicado ao Oscar em diferentes categorias, vencendo como melhor filme e melhor roteiro adaptado, além de outros prêmios.

 

 

A adaptação buscou contar a história da família Corleone, diretamente ligada à trajetória e luta de Don Corleone com os outros chefes das grandes famílias de Nova Iorque. O roteiro traz todas as dificuldades, negócios, funcionamento e valores familiares transferidos de uma geração a outra.

E foi com a frase “vou fazer uma proposta que ele não vai recusar” que o ator Marlon Brando eternizou brilhantemente na tela dos cinemas a figura do mafioso don Vito Corleone, nosso “poderoso chefão”. Desde então, todas as representações sobre mafiosos buscaram se inspirar em sua figura; e como a vida imita a arte, até mesmo os mafiosos de verdade aprenderiam com o estilo do personagem de Puzo.

 

*Vanessa Cristina Chucailo é mestranda em História na Unicentro.

Adaptado do texto “O Padrinho Perfeito”

Fotos: Revista Leituras da História Ed. 68