A repressão da ditadura argentina

Escondido entre as pessoas que se encontravam na praça em frente à sede do governo, em Buenos Aires, Argentina, um rapaz escutava Estela de Carlotto, presidente da organização Avós da Praça de Maio, contar sua própria história...

Por Rose Mercatelli | Foto: Daniel Garcia/Abuelas Plaza de Mayo | Adaptação web Caroline Svitras

O neto 106

Pablo Javier Gaona Miranda, o jovem que recuperou a sua identidade | Foto: Reprodução/www.pagina12.com.ar

Pablo Javier sempre soube de sua adoção e não tinha motivos para não acreditar quando lhe contaram que foi trazido da Província de Missiones, perto da fronteira com o Brasil. Mas a dúvida surgiu quando, em 2001, com 23 anos, ao assistir um programa de televisão sobre crianças desaparecidas na época do regime militar, começou a desconfiar que detalhes sobre sua história não se encaixavam como deveriam.

 

Entretanto, levou 11 anos para tomar coragem e se aproximar das Avós da Praça de Maio e colocar para fora suas dúvidas. O exame de DNA, realizado pela Comissão Nacional pelo Direito à Identidade (Conadi), em julho de 2012, confirmou que ele era filho de um jovem casal de militantes desaparecidos nos tempos da Guerra Suja, como ficou conhecido o período do regime militar implantado na Argentina entre 1976 e 1983.

 

Filho do paraguaio Ricardo Gaona Paiva e de María Rosa Miranda, argentina da Província de Tucumán, Pablo nasceu no Hospital Rivadavia, em Buenos Aires, em 13 de abril de 1978. Um mês depois, em 14 de maio, seus pais o levaram à casa de seus avós paternos para uma festa familiar. Ao voltar, o casal e o bebê foram sequestrados e ninguém teve mais notícias deles, contou Estela de Carlotto na entrevista coletiva que revelou a história do 106º neto perdido e encontrado pelas Avós da Praça de Maio.

 

O mal pela raiz

Durante o Processo de Reorganização Nacional – nome pomposo dado à ditadura pela Junta Militar que governou o país –, desapareceram, aproximadamente, 30 mil pessoas suspeitas de serem associadas a movimentos de esquerda. Para justificar a guerra contra o comunismo e seus “terroristas subversivos”, o primeiro líder da junta, o general Jorge Rafael Videla, declarou que “terrorista não era apenas aquele que instala bombas, mas tem ideias contrárias à civilização cristã ocidental”. Então, na opinião da Junta Militar, o melhor mesmo seria cortar o mal pela raiz, prendendo, torturando e matando ativistas de movimentos de esquerda como o Exército Revolucionário do Povo (ERP), no qual militavam os pais de Pablo.

 

Paul, tio paterno de Pablo, mostra fotos de Ricardo Gaona e María Rosa | Foto: FMGENS

 

As forças de segurança cumpriam à risca as ordens recebidas e não raro extrapolavam seus deveres, condenando à morte perseguidos políticos, sem se importar se estavam ligados ou não a atos de terrorismo. Esse foi o caso, por exemplo, de 60 estudantes secundaristas do Colégio Manuel Belgrano, em Buenos Aires, que desapareceram só porque ingressaram no conselho estudantil da escola que não tinha vínculo algum com grupos de guerrilha ou com organizações estudantis banidas pelo governo militar.

 

A Justiça espanhola condenou o ex-capitão da marinha argentina, Scilingo, a 640 anos de prisão. É o primeiro caso em que uma pessoa presente a seu próprio julgamento é condenada por crimes contra a humanidade em um país estrangeiro | Foto: AFP

Marguerite Feitlowitz, na época, professora em Harvard, em seu estudo pioneiro, A Lexicon of Terror: Argentina and the Legacies of Torture, dá uma dimensão dos anos negros da ditadura argentina. Cerca de 30% dos desaparecidos eram mulheres e 3 % eram grávidas mantidas vivas até darem à luz. Muitas foram presas com os filhos pequenos ou engravidaram na prisão, por conta de estupros cometidos por guardas e torturadores. Muitas conseguiram amamentar seus recém-nascidos por alguns dias até que seus bebês lhes fossem tomados antes de serem “transferidas”, eufemismo usado para informar que seriam mortas.

 

Os voos da morte

A repressão promovida pelo Estado foi infinitamente maior do que a ação da oposição. A chamada Guerra Sucia impôs um verdadeiro genocídio ao povo argentino. Nenhum acontecimento, entretanto, causou mais espanto do que o revelado pelo ex-capitão da Marinha Adolfo Francisco Scilingo. Ao ser entrevistado para o jornal Página 12, em março de 1995, confirmou o que todos já imaginavam, mas não tinham certeza: a ditadura militar fez quase uma centena de “voos da morte”. Arrependido de sua participação nessa estratégia, Scilingo revelou que 4.400 pessoas foram assassinadas ao serem arremessadas no Rio da Prata e no mar pelos aviões da Marinha. Condenado a 640 anos de prisão pelos tribunais da Espanha por crimes contra a humanidade, o ex-capitão sustentou que os voos da morte não eram um procedimento circunstancial, mas parte de um plano para eliminar os corpos dos desaparecidos.

 

Aeronave da Prefeitura, Shorts SC-7 Skyvan, utilizada para os voos da morte | Foto: J-P Kärnä

 

Os passageiros ficavam presos na Escola de Mecânica da Armada (Esma) e eram levados do centro de tortura em grupos de 15 a 20 de cada vez, sempre às quintas-feiras. Antes de serem jogados ao mar, relatou o ex-capitão em seu julgamento, os prisioneiros eram drogados com o soro da verdade (pantotal sódico), para que não pudessem ver o seu triste fim.

 

Identidade trocada

Segundo entidades que lutam pelos direitos dos desaparecidos políticos, como a Associação de Familiares de Desaparecidos e Presos por Razões Políticas e as Avós da Praça de Maio, pelo menos 500 recém-nascidos e crianças pequenas foram separados de pais desaparecidos, tiveram suas verdadeiras identidades suprimidas e foram dados em adoção para casais de policiais e militares sem filhos e outros favorecidos pelo regime. Pablo Javier Gaona, por exemplo, foi entregue à família que o adotou por um coronel reformado, primo de seu pai adotivo.

 

Estela de Carlotto, presidente da associação das Avós da Praça de Maio| Foto: Fernando Gens/Télam/ef

De acordo com as Avós da Praça de Maio, organização que tem por objetivo localizar e retornar às suas famílias legítimas todas as crianças desaparecidas, os sequestros de bebês e jovens grávidas, o funcionamento de maternidades clandestinas, como a montada na Escuela de Mecánica de la Armada, a existência de listas de espera para adoção e as declarações de militares que participaram da Guerra Suja demonstram a existência de um plano arquitetado não apenas para suprimir adultos, mas também para privar os filhos de militantes de esquerda de suas verdadeiras identidades.

 

O historiador e escritor argentino Carlos De Nápoli, autor de vários livros sobre o nazismo, afirma que a estratégia da ditadura portenha ao sequestrar crianças utilizou um método idealizado pelo nazismo executado pelo Escritório Principal para a Raça e o Reassentamento (Rusha). Essa organização alemã pretendia, entre outros objetivos, assassinar as minorias consideradas impuras e indesejáveis. No caso da Argentina, essas minorias eram representadas pelos “terroristas perigosos” definidos pelo general Videla.

 

“As ideias nazistas permearam a ditadura argentina. A decisão de eliminar os adversários é a mesma da “solução final” de Adolf Hitler. A estratégia consta de um documento assinado pelo primeiro ditador, Jorge Rafael Videla. No documento, os militares se propunham adotar ou doar os filhos de militantes políticos com o objetivo claro de criá-los com outra ideologia, a deles. Para que isso acontecesse, permitiam que as mulheres tivessem seus bebês, para serem mortas logo em seguida. A existência das listas para a adoção prova que os bebês não eram indesejáveis. Os pais, sim, eram, não interessavam ao governo, tanto é que foram sumariamente assassinados”, conta à revista Leituras da História o jornalista e escritor Samarone Lima.

Revista Leituras da História Ed. 62

Adaptado do texto “Os órfãos da ditadura”