A tensa relação de Vargas e Monteiro Lobato

A ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas perseguiu o escritor que defendeu a exploração do petróleo pelo capital nacional. Visionário, o futuro se encarregou de ratificar suas ideias que tiveram “por consequência” a criação da Petrobrás

Por Luiz Muricy Cardoso | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

Quantas vezes aqueles que defendem um ponto de vista justo são tratados como vilões. Principalmente em nosso país, aqueles que lutam pela soberania nacional, pela afirmação de nossa identidade de brasileiros e pelos interesses de nosso povo foram, em diversos momentos da História, vilipendiados, maltratados, perseguidos e humilhados, muitas vezes caluniados e tachados de inimigos do Brasil.

 

De maneira mais particular, é em nações como a nossa, em que os interesses dos estrangeiros prevalecem, que quem se atreve a fazer oposição à hegemonia do capital internacional, muitas vezes, é perseguido, censurado, preso. Foi o caso de Monteiro Lobato. O escritor, que se notabilizou, principalmente pela sua atuação na literatura infantil, teve trabalho censurado pela ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas. A obra O Escândalo do Petróleo, de 1936, denunciou funcionários estrangeiros do Departamento Nacional de Produção Mineral pela revelação de segredos do subsolo a empresas estrangeiras, remunerados que foram por elas. A obra fez muito sucesso e esgotou três edições já no mês de lançamento.

 

Washington Luís | Foto: Palácio do Planalto

Tendo sido liberado só em 1945, com o fim do governo de Getúlio, o livro foi o primeiro incentivo para o movimento nacionalista que, defendendo a exploração do mineral pelo capital brasileiro, levou à implantação da Petrobrás. Monteiro Lobato, tendo sido reconhecido em 1927 pelo presidente Washington Luís como legítimo representante dos interesses nacionais, foi por ele nomeado adido comercial nos Estados Unidos. Naquele país, o escritor ficou a par das novas conquistas tecnológicas e industriais ligadas à exploração do petróleo e do ferro e ao desenvolvimento do setor de transportes. Assim, Lobato sugeriu que o Brasil adotasse políticas relacionadas a essas atividades semelhantes às americanas.

 

Em 1928, tendo visitado a fábrica da General Motors, começou a organizar uma empresa de produção de aço em nosso país. Investiu, então, na bolsa de valores para levantar capital para a companhia que pretendia fundar para a produção da liga metálica. Logo, com a crise econômica de 1929, quebrou financeiramente, perdendo todo seu investimento.

 

Antipatia recíproca

Monteiro Lobato e o governo Getúlio Vargas se antipatizaram mutuamente desde o começo. Em 1930, o escritor apoiou Júlio Prestes para a sucessão de Washington Luís. Assim, enviou uma carta ao possível sucessor em apoio, declarando sua simpatia a ele convencido de que Prestes, continuísta, era a alterativa mais conveniente para as políticas energéticas brasileiras. Eleito Júlio Prestes, não chegou ele, todavia, a tomar posse. A Revolução de 30, liderada por Vargas, derrotado naquela eleição, tomou o poder à força de armas e estabeleceu um governo discricionário. Lobato estava, então, em Nova Iorque. Retornando ao Brasil no ano seguinte, começou a encabeçar uma campanha em defesa do investimento de capital nacional em petróleo, ferro e estradas de rodagem e ferrovias com a intenção de promover o desenvolvimento de nosso país.

 

Naquele ano, Monteiro Lobato criou a Companhia Petróleos do Brasil, privada, de capital aberto, que, tendo se constituído num sucesso, vendeu no primeiro mês mais de 50 por cento de suas ações. A empresa começou a explorar petróleo no campo de Araquá, em São Paulo, onde hoje é a cidade de São Pedro. Posteriormente, o escritor criou a Companhia de Petróleo Cruzeiro do Sul e a Companhia Mato grossense de Petróleo. Apesar dos indícios de que havia petróleo naquele estado – pois fora encontrado o mineral na Bolívia, próximo à fronteira – o governo Vargas continuava afirmando que não o havia em nosso território. Diziam que se houvesse petróleo em nossas terras, os americanos já o haveriam descoberto. Assim, o Brasil seguia comprando o óleo dos gringos que, de acordo com a suspeita de Monteiro Lobato, já tinham mapeado áreas no Brasil onde havia petróleo e se preparavam para explorá-lo.

 

Entreguismo getulista

Enquanto isso, a empresa fundada por Lobato era vítima de perseguições e intervenções pelo governo na tentativa de demovê-lo de fazer face aos estrangeiros na exploração de minério de ferro e na prospecção de petróleo, caso viesse a ficar comprovada sua existência no Brasil. Então, o escritor enviou uma carta a Vargas na qual denunciava que as jazidas de ferro mais valiosas já estavam nas mãos dos estrangeiros e as prováveis jazidas oleíferas caminhavam para o mesmo destino. Na correspondência, Lobato afirmava, também, que possuía uma carta do chefe dos serviços geológicos da Standard, empresa americana, em que o funcionário declarava sua intenção e de seus compatriotas de “manter o Brasil em estado de ‘escravização petrolífera’”.

 

O entreguismo getulista prosseguia com o governo insistindo em afirmar que não havia petróleo no Brasil. Parece que os americanos iam protelando a descoberta e o anúncio da existência do mineral biológico em nosso país enquanto realizavam pesquisas com a intenção de que, uma vez confirmada, eles pudessem levar a termo seus intentos – chamados imperialistas – de monopolizar a prospecção e exploração do óleo em terras brasileiras.

 

Fábrica da General Motor, 1928

 

Por aquela época não se conhecia jazida alguma de petróleo ou gás por aqui. O país, com efeito, não dispunha de tecnologia nem conhecimento científico adequado para promover as pesquisas e consequente exploração do ouro negro. A companhia que Lobato havia fundado tinha, por sua vez, como funcionários alguns técnicos norte-americanos experientes na atividade; mas, sabotada pelos getulistas e sofrendo seguidas intervenções por motivos injustificáveis, acabou interditada como foi o caso em 1936, quando uma das sondas teve sua atividade proibida. Antes disso, o escritor já denunciara ao governo que a Standard Oil Company (mais tarde chamada Exxon – Esso) estava corrompendo prepostos do Serviço Geológico Nacional através de sua filial argentina no Brasil. Acusava ele que as melhores jazidas minerais do país estavam sob domínio gringo e seguiam planos norte-americanos para se assenhorearem também das terras onde pudesse haver petróleo.

 

Ameaça comunista?

Tendo feito pouco caso de suas denúncias, Monteiro Lobato escreveu A Luta Pelo Petróleo, que desmascarava o Serviço Geológico Nacional e acusava os funcionários do governo de, ao mesmo tempo em que se omitiam da exploração do petróleo, não permitir que alguém a levasse a termo. Após o episódio da interdição da sonda, o escritor encontrou gás natural de petróleo a 250 metros de profundidade em Alagoas, na localidade de Riacho Doce – após levantar o respectivo capital financeiro.

 

Foi ainda em 1936 que O Escândalo do Petróleo foi publicado e, censurado nesse mesmo ano, seguiu-se a ele a obra O Poço do Visconde – Uma Aula de Geologia Para Crianças. A publicação desse opúsculo lhe valeu a acusação de estar fazendo propaganda comunista para meninos. Lobato não era, porém, um comunista. No livro Georgismo e Comunismo, de 1948, o escritor faz uma análise das ideias econômicas do pensador norte-americano Henry George, investiga e comenta os postulados propostos pelo economista para enfrentar a “ameaça comunista” representada pelo crescimento da influência da União Soviética após a vitória dos aliados na 2ª Guerra Mundial. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) nesse conflito estava aliada, como sabemos, aos Estados Unidos, seu oponente, contra o inimigo comum, os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), de ideologia nazifascista expansionista.

 

Além de Monteiro Lobato ser o precursor da literatura infantil no Brasil, também era um grande nacionalista | Foto: Creative Commons/Wikipedia

 

Também a China, que só iria passar pelo processo revolucionário que implantou lá o regime o socialista em 1949 estava, como muitíssimos outros países – inclusive o Brasil –, entre os aliados. A China, ao contrário da União Soviética e seus aliados, como eram os países da Europa oriental (que retornaram nos dias atuais ao sistema capitalista), persiste até hoje com o sistema político econômico esquerdista estatizante, socialista, contrário à chamada “economia de mercado”, característica dos países de direita, ou capitalistas, que são maioria no mundo. O comunismo chinês é, entretanto, uma espécie de neossocialismo, uma mistura de economia estatizada e privada, que se denominou “capitalismo de Estado” ou “socialismo de mercado”.

 

Reportando-nos a 1938, foi naquele ano que o governo brasileiro, cedendo à ideia de Monteiro Lobato de que havia petróleo em nosso território, resolveu fazer perfurações na Bahia, na localidade posteriormente denominada Lobato, em homenagem ao pioneiro. Foi constatada a existência do óleo mineral. Assim, em 1939, criou-se o Conselho Nacional do Petróleo (CNP). Esse órgão foi a primeira moção no sentido de regulamentar a exploração em nosso país. Naquela época, prevalecia a contenda entre empresários – representados por Monteiro Lobato e companhias estrangeiras – e o governo, que, defendendo ideais nacionalistas, pretendia restringir a si o direito de explorar petróleo no Brasil.

 

Vargas estabeleceu por decreto uma lei que tornava patrimônio exclusivo da União todas as jazidas em nosso território, incluindo aquelas ainda não descobertas. Apesar da motivação nacionalista da atitude getulista, o escritor, não satisfeito com as políticas governistas, envia uma carta ao presidente na qual fazia críticas veementes a elas. Por esse motivo, o General Horto Barbosa o prendeu. Monteiro Lobato, condenado a seis meses de prisão, acabou recebendo indulto de Vargas e, após três meses, saiu da cadeia. Ao sair da detenção, confessava, muito desanimado, sua decepção e disse: “…morri um bom pedaço na alma”. O romancista passou, com efeito, três meses de muita amargura na cela, na companhia de assassinos e ladrões, como ele mesmo revelou depois.

 

“O Petróleo é Nosso”
Getúlio Vargas | Foto: Palácio do Planalto

A criação da Petrobrás foi iniciativa popular que, contrariamente às intenções do presidente Dutra – sucessor de Getúlio –, defendeu a monopolização da exploração petrolífera. A Petrobrás é, assim, uma empresa estatal – e a maior parte de suas ações pertence ao Estado, que tem, então, o controle acionário. Isso, porque entende-se que não seria conveniente que o petróleo, como bem estratégico importante, estivesse na mão de particulares, leia-se: gringos (uma vez que são eles que têm o dinheiro), no caso extremo de uma guerra, por exemplo. Nesse ponto, posteriormente à criação da empresa, passou a haver um consenso entre direitistas, partidários da iniciativa privada e esquerdistas, ambos concordes com a tese de manutenção da Petrobrás como empresa estatal. Dutra desejava que a exploração petrolífera fosse tarefa do capital privado. Para isso, enviou ao Congresso um projeto de lei que foi chamado “Estatuto do Petróleo”. Foi em 1948. Em resposta os defensores do interesse nacional, promoveram a campanha “O Petróleo é Nosso”. É interessante o fato de que o General Barbosa, aquele que havia encarcerado Lobato, tornou-se depois, o líder dessa campanha nacionalista de defesa da exploração estatal do mineral orgânico.

 

Antes, em 1946, havia sido descoberto o primeiro poço que reunia condições para exploração comercial. Foi em candeias, na Bahia. A defesa da exploração por parte dos estrangeiros estava baseada, principalmente, no fato de que o Brasil não possuía tecnologia capaz de levar a termo a prospecção, um problema que não demoraria a ser solucionado.

 

José Bento Monteiro Lobato persistiu na defesa dos interesses nacionais até sua morte, aos 66 anos, em 4 de julho de 1948, vítima de um espasmo cerebral. Tendo se constituído num dos mais relevantes escritores brasileiros do século 20, trabalhou também como tradutor de importantes obras. Escreveu crônicas, contos, críticas, cartas, artigos e prefácios, além do romance O Presidente Negro. É mais conhecido, todavia, pela produção de livros infantis. São de sua autoria os títulos Reinações de Narizinho, de 1931, Emília no País da Gramática, Caçadas de Pedrinho, e O Picapau Amarelo, de 1930. Carregando uma dose de amargura e desiludido com a política brasileira, Monteiro Lobato, quando morreu, estava empobrecido financeiramente. Investiu quase todo o dinheiro que ganhou com a literatura em sua empresa de exploração petrolífera e teve, afinal, grande prejuízo com isso.

 

Pirlimpimpim

A prisão de Monteiro Lobato evidenciou a injustiça de um regime de exceção arbitrário e violento e a empáfia do ditador Getúlio Vargas. Admirado ainda hoje por muitos, o presidente que recebeu o epíteto de “Pai dos Pobres”, é chamado em contrapartida “A Mãe dos Ricos” por seus adversários. Há entretanto, quem veja uma manobra da providência na detenção de Lobato. Esses, crentes na infalível justiça divina e baseados na ideia de que “Deus escreve certo por linhas tortas” viram no episódio do encarceramento do escritor tão somente uma jogada justa – embora tortuosa – do destino, inexorável, porém correta. Isso, devido ao fato de que Lobato, em sua obra infantil, se não estava, como seus detratores disseram, fazendo propaganda ateísta. Divulgava, entretanto, o uso de drogas entre as crianças.

 

Na verdade, parece que nunca se afirmou que Monteiro Lobato fizesse uso de drogas psicoativas. Mas em suas obras que relatam as aventuras do menino Pedrinho, da garota Narizinho (nome sugestivo), da boneca Emília, do visconde de Sabugosa, de Dona Benta e Anastácia figura um elemento cuja evidência é mais do que notória de ser uma referência à cocaína: ora, para as “viagens” que as crianças faziam nos reinos da fantasia, o escritor relata o uso do “pó de pirlimpimpim”, uma substância branca que, inalada por meio de um canudo, tinha efeitos “sobrenaturais”. O que pode então ser o pó senão cocaína ou outra droga parecida? A evidência é inegável.

 

Sabe-se que, por aquela época, o uso da cocaína andou muito difundido. Sigmund Freud a usou, chegando mesmo a receitá-la para seus pacientes. Mário de Andrade, o famoso escritor (Cartas a Murilo Miranda, Paulicéia Desvairada), chegou a declarar que, embora não tenha se viciado, usou o pó durante uma semana no carnaval de 1920. O filme Eternamente Pagu, de Norma Benguell (1988), mostra cenas do uso da droga. A fita faz uma abordagem dos acontecimentos de 1922, durante aquela que ficou conhecida como “A Semana de 22”. Foi um importante evento marcado pela realização de exposições de obras de arte, saraus de poesia e música, além de outras vertentes artísticas que apresentava para o Brasil e o mundo o movimento cultural e artístico denominado Antropofagia.

 

Campanha “O petróleo é nosso”, criado pelo governo

 

O Movimento Antropofágico, com seu nome, no mínimo, bizarro, pretendia realizar a regurgitação intelectual da cultura brasileira e a consequente transformação da manifestação artística num resultado cultural nacionalista tupiniquim sugerindo uma estética toda nova e – por meio de uma feição algo chocante, muitas vezes, contundente – rompendo com os padrões conservadores dos artistas anteriores como Antônio de Castro Alves, com sua estética “Condoreirista” em que o romantismo, muitas vezes, meloso contrastava com a irreverência e a crueza da nova abordagem. Muitos artistas brasileiros foram representantes do movimento antropofágico ou influenciados por ele, como Oswald de Andrade, Plínio Salgado, Carlos Drummond de Andrade e Monteiro Lobato que, sob uma certa inspiração dessa corrente, escreveu Ideias de Jeca Tatu, uma crítica a diatribes sociais e políticas do Brasil de sua época.

 

A série infantil Sítio do Picapau Amarelo, que começou a ser exibida pela Rede Globo em 1977, suprimiu o pó de pirlimpimpim justamente por sua identificação com a cocaína. O pó mágico também deu nome a um disco e uma música do cantor baiano Moraes Moreira que flerta com o uso da droga.

 

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