A vida de José de Anchieta

A partir do dia 3 de abril de 2014, depois de madre Paulina e frei Galvão, o Brasil passou a ter um terceiro santo canonizado: José de Anchieta, cuja vida traz consigo diversos questionamentos, muitas vezes desconhecidos do público geral

Por Lidice Meyer Pinto Ribeiro* | Foto: bernardinai.lt | Adaptação web Caroline Svitras

 

Nossos livros escolares de história sempre trazem uma versão oficial da vida desse padre como catequizador e educador dos povos indígenas brasileiros. Mas, basta uma pesquisa um pouco mais profunda nos livros de grandes historiadores brasileiros para se descobrir o lado “B” dessa história.

 

José de Anchieta nasceu em 1534, na Espanha, e tendo ingressado na ordem Jesuíta da Companhia de Jesus, chega ao Brasil aos 19 anos de idade, pouco tempo depois de padre Manuel da Nóbrega que havia vindo com a comitiva do primeiro governador-geral, Tomé de Souza.

 

O primeiro governador-geral, Tomé de Souza | Foto: pt.wikipedia

Já no Brasil, Anchieta segue o projeto jesuítico de colonização proposto por Nóbrega em 1558. Esse projeto permitia a escravização dos indígenas e impunha às tribos “pacificadas” práticas como a de andarem vestidos, terem apenas uma mulher, fazerem-se cristãos e colaborarem com os portugueses nas guerras contra seus inimigos. Esse projeto deu autoridade ao então governador Mem de Sá para atacar e destruir cerca de 300 aldeias da costa brasileira no século 16.

 

Anchieta, em sua “informação dos primeiros aldeamentos”, registra que a população indígena dos arredores da Bahia foi reduzida de 80 mil pessoas a menos de 10 mil. É também de Anchieta os 2 mil versos de louvor a Mem de Sá, no poema De Gestis Mendi de Saa, escritos em 1560: “Quem poderá contar os gestos heroicos do Chefe à frente dos soldados, na imensa mata: Cento e sessenta as aldeias incendiadas; Mil casas arruinadas pela chama devoradora; Assolados os campos, com suas riquezas; Passado tudo ao fio da espada”.

 

 

Missionário pecador

À frente de uma missão em que haviam juntado, à revelia, índios oriundos de tribos diversas, separando as crianças dos pais com o intuito de educá-las na santa fé católica, Anchieta servia também como arregimentador de tropas indígenas a serviço da Coroa portuguesa.

 

Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro, registra um episódio ocorrido em Peruíbe, quando Anchieta, fazendo-se passar por um pai milagroso, corria de um lado para outro incentivando os índios a lutarem pelos portugueses, atribuindo-se a Anchieta, nessa ocasião, ter salvo São Paulo e a própria colonização portuguesa.

 

Tomé de Sousa colaborando na construção de Salvador | Foto: pt.wikipedia

Após anos e anos, os Jesuítas chegam à conclusão de que não haviam conseguido salvar as almas e nem as vidas dos índios, ceifados pelas guerras, pela escravidão e por doenças, muitas das quais trazidas involuntariamente pelos próprios padres.

 

Por fim, resta-nos relatar o episódio em que Anchieta, ao assistir ao enforcamento do calvinista Jean Jacques Le Balleur, um dos huguenotes sentenciados por Villegaignon após terem celebrado a primeira Santa Ceia protestante em território brasileiro, teria se apressado a colaborar com o carrasco no cumprimento de seu dever.

 

Conta o frei Vicente do Salvador, que testemunhou o episódio: “Vendo ser o algoz pouco destro em seu ofício, e que se detinha em dar a morte ao réu e com isso o angustiava e punha em perigo de renegar a verdade que já tinha confessada, repreendeu o algoz e o industriou para que fizesse com presteza o seu ofício.”

 

São esses alguns dos fatos que nos induzem a repensar o que leva alguém a ser considerado um santo. Anchieta está mais para um homem como todos nós, com seus dilemas, suas falhas, e não se pode esquecer: agindo dentro de um contexto histórico-cultural do século 16, envolvido em questões políticas diferenciadas e tentando se relacionar com um povo indígena, do qual pouco se entendia e a quem muitas vezes foi negada a posse de uma alma humana.

 

 

*Lidice Meyer Pinto Ribeiro é doutora em Antropologia Social, pós-doutoranda em Antropologia e História; e docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Mackenzie.

Adaptado do texto “O lado ‘B’ do santo”

Revista Leituras da História Ed. 72