A violência das guerras

A importância de se contar a História

Por Daniel Medeiros | Foto: EFE | Adaptação web Caroline Svitras

 

A primeira guerra mundial foi há cem anos. Começou em 1914 e encerrou-se em 1918. “Encerrou-se” no sentido de concluir um ciclo de tempo contínuo pois que, como sabemos, o ano de 1914 foi o pontapé de um processo de violência entre nações que só esgotou suas energias no final do século 20 – embora não se possa ser totalmente otimista essa afirmação. Muito se falou sobre as decorrências da Guerra: falta de propósitos claros, dos milhões de mortos, feridos, da ascensão econômica dos EUA, da frustração e ódio na Alemanha, germe do nazismo, do início do desequilíbrio político no Oriente Médio etc.

 

Soldado na trincheira durante a Batalha de Courcelette (França), em 1916. Ele apresenta sinais de neurose de guerra, uma reação ao trauma da batalha | Foto: Creative Commons

Gostaria de falar de um outro fenômeno da Guerra, lembrado pela primeira vez pelo pensador alemão Walter Benjamin, em texto de 1936, chamado O Narrador. Benjamin afirma que a Guerra foi responsável por destituir uma geração inteira da capacidade de trocar experiências por meio de narrativas. Disse o filósofo: “No final da Guerra, observou-se que os combatentes voltavam mudos dos campos de batalha. Não mais ricos e sim mais pobres em experiências comunicáveis.”

 

O homem da terra – o camponês e o viajante; o marinheiro e o mercador – são as fontes principais das histórias que compõem o repertório de comunicação entre as pessoas e, por meio desse repertório vão se fixando e passando, de geração em geração, os modos de agir e as regras de interdição que caracterizam o que chamamos de cultura ou autorreferência. Essa é a razão – ou deveria ser! – de contarmos histórias para as crianças.

 

A Guerra emasculou uma geração inteira de jovens, privando-os do lugar necessário e do tempo fundamental para a troca de experiências por meio das narrativas. A vivência nas trincheiras foi uma não experiência; o medo diário e asfixiante não deixava espaço para registrar variantes, inversões de expectativas e desfechos surpreendentes típicos de qualquer boa história. Não é à toa que o mais conhecido romance da Primeira Guerra, do alemão Erich Maria Remarque, descrevendo a rotina de horrores e sofrimentos da guerra, chamou-se Nada de novo no front.

 

Primo Levi, sobrevivente da Segunda Guerra mundial, e também Jorge Semprun, tentaram relatar a violência desumanizadora a qual foram submetidos. Em É isto um Homem?, Levi busca dar contornos capazes de serem identificados pelos que não experienciaram aquela realidade inacreditável dos campos de concentração. No entanto, o título de seu livro é um sinal da dificuldade de descrever, de maneira crível, o que se passou. Semprun, no livro A escrita ou a vida, diz: “Vem-me uma dúvida sobre a possibilidade de contar. Não que a experiência vivida seja indizível. Ela foi invivível, o que é outra coisa(…) Outra coisa que não se refere à forma de um relato possível, mas à sua substância. Não à sua articulação, mas à sua densidade.(…)”

 

Hoje, como sabemos, as guerras continuam. Não em um sentido formal de “guerras mundiais”, com trincheiras ou bombas atômicas, mas a violência nas fronteiras, nos territórios ocupados, nos exercícios fundamentalistas, nas lutas de traficantes, no trânsito, na insensibilidade policial, na violência doméstica ou, simplesmente, ditada pela miséria e pelo descaso. Da mesma forma, a não vivência desses fatos tornam pouco críveis seus relatos. As tentativas feitas pelos jornais e programas de televisão, acabam promovendo uma anestesia, uma banalização, um menoscabo que exaspera as vítimas e reforça a invisibilidade dos algozes.

 

Erich Maria Remarque | Foto: Creative Commons

Se com Benjamin aprendemos que o narrador retira da experiência o que ele conta. Sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas às experiências de seus ouvintes, é Jorge Semprun quem afirma uma saída: só alcançarão essa substância, essa densidade transparente os que souberem fazer de seu testemunho um objeto artístico, um espaço de criação. Ou de recriação. Só o artifício de um relato que se possa controlar conseguirá transmitir parcialmente a verdade do testemunho.(…)

 

As guerras e a violência extática que elas proporcionam podem ser enfrentadas pela formação de novas sensibilidades. E só as criações narrativas têm o condão dessa formação. Se a violência é a marca secular de nossa humanidade desenraizada, a capacidade de sensibilizar os outros – principalmente as crianças e os jovens – com a riqueza artística de um relato pode ser a maior bandeira de paz e de um futuro menos sombrio.

 

 

*Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica pela UFPR e professor do Curso Positivo.

Revista Leituras da História Ed. 93