Amores proibidos da história do Brasil

Para ficarem juntos, eles precisaram lutar contra a polícia, brigar com exércitos imperiais, tomar parte de fugas espetaculares. Entretanto, o maior inimigo desses casais apaixonados foi o preconceito da sociedade

Por Rose Mercatelli | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

A história é mais do que descobrimentos, guerras e heróis. Ela também é feita por pessoas capazes de odiar, amar, ter raiva ou inveja e até se envolverem em paixões ilícitas, repudiadas pela sociedade de seu tempo. E nem sempre o final é feliz.

 

Amores proibidos nunca foram fáceis. Por algum mecanismo insensato da psiquê humana, as paixões se tornam ainda mais atraentes quando há algum impedimento para que se realizem”, escreve o jornalista Maurício de Oliveira em Amores Proibidos da História do Brasil.

 

Em seu livro, o pesquisador relata a história de sete casais famosos que viveram histórias de amor permeadas por brigas, traições, desconfianças, separações, mas também por companheirismo, romance e desejo. “Um dos objetivos do livro é mostrar que grandes personagens da história são, antes de tudo, gente como a gente, sujeita a erros e acertos, certezas e dúvidas. Enfim, são feitos de carne e osso e não apenas personagens dos livros de história”, revela Maurício Oliveira.

 

 

Muito além das convenções

Ele era branco, rico, culto, solteiro, cheio de títulos da pequena nobreza. Ela nasceu mulata, escrava e analfabeta, amante e mãe de um filho de uma das figuras mais importantes do Arraial do Tejuco, hoje distrito de Diamantina, MG. A distância entre duas realidades tão distintas não impediu que João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes e o homem mais poderoso da sociedade mineradora do século 18, vivesse uma apaixonada história com Francisca da Silva, a Chica, durante 17 anos.

 

A união estável, não de papel passado, entre os dois aconteceu entre 1753 e 1770. Mas este não foi um caso isolado na sociedade colonial brasileira. Em 1774, das 511 residências no Tejuco, 229 casas (44,8%) estavam sob o comando de mulheres livres ou forras, sendo que 197 (86%) eram negras ou mulatas, ex-escravas que compraram sua alforria ou  a receberam pelo testamento de seus donos. Muitas tiveram filhos mestiços com seus senhores, ficaram ricas, frequentavam a igreja e associações religiosas, reproduzindo o modo de vida das mulheres brancas. Como afirma a historiadora Júnia Ferreira Furtado, a única maneira de serem aceitas pela sociedade e transmitirem aos seus filhos um passado sem o estigma da cor e da escravidão era passar por um processo de “embranquecimento”.

 

 

Retrato infiel

O primeiro a escrever sobre Chica foi Joaquim Felício dos Santos. O advogado, na metade do século 19, escreveu o livro Memórias do Distrito Diamantino, no qual descreve Chica como uma “negra boçal e careca”. Não existe registro de sua aparência, mas ela deveria ser bonita, já que chamou a atenção do homem mais rico das Minas Gerais na época.

 

Nascida entre 1731 e 1735 em um arraial perto do Tejuco, era filha de pai branco, Antônio Caetano de Sá e de Maria da Costa, vinda da Costa da Mina, na África. Adolescente, foi comprada pelo português Manuel Pires Sardinha, então com 60 anos, pai do seu primeiro filho, nascido em 1751. Dois anos depois, o médico a vendeu para o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, e com ele teve 13 filhos, todos reconhecidos. João nunca colocou em dúvida a paternidade de seus herdeiros, o que derruba o mito de Chica ser uma devoradora de homens. “Houve um exagero de erotismo  na história dos dois, como se João tivesse se deixado conquistar apenas pelo sexo. Parece ser difícil aceitar que ele se apaixonou realmente por ela”, relata Maurício Oliveira.

 

 

Um homem brilhante

Brasileiro, filho de um português com o mesmo nome e com a carioca Maria Inês de Souza, João Fernandes de Oliveira, nascido em 1727, ficou rico quando seu pai conquistou o primeiro contrato junto ao governo de Lisboa para explorar diamantes em Minas Gerais, em 1739. Advogado formado na Universidade de Coimbra, aos 25 anos, recebeu o título de desembargador. De volta ao Brasil, seguiu para o Tejuco para assumir os negócios do pai como responsável por controlar o fluxo de diamantes da região e pelo pagamento das taxas à Coroa portuguesa.

 

Aos 26 anos, encantou-se com Chica, na época, com idade entre 18 e 22 anos e mãe de um menino. João Fernandes teve de enfrentar Sardinha, que também era juiz em Tejuco e não admitia vender sua predileta. Depois de uma sutil pressão do vigário local, devido ao fato de Sardinha viver com duas mulheres, sem escapatória, o médico-juiz acabou cedendo.

 

Meses depois, o contratador alforriou sua escrava e a transformou em uma dama da sociedade. Viveram juntos até 1770, quando João Fernandes voltou a Portugal para brigar por sua herança, levando seus quatro filhos homens para educá-los em Coimbra. E nunca mais conseguiu voltar. Em 1779, João morreu aos 52 anos, fiel ao seu amor até o último minuto. “João Fernandes precisou de firmeza e coragem para assumir seu amor por Chica e subverter os padrões vigentes”, diz o jornalista Maurício Oliveira.

 

 

Juntos no amor e na guerra

Giuseppe Garibaldi (1807-1882), general, guerrilheiro, condottieri, revolucionário no Brasil, no Uruguai e na Itália, nasceu para se aventurar pelo mundo. Em vez de estudar, Giuseppe preferiu ser marinheiro e passou dez anos de sua vida como tripulante de navios mercantes até chegar a capitão.

 

Giuseppe Garibaldi

 

Em 1833, entrou para a sociedade secreta Jovem Itália. Republicano ferrenho, esperava unificar sua pátria por meio de um levante popular. Como sua primeira tentativa em Gênova fracassou, foi condenado à morte, mas fugiu para Marselha, e de lá para o Rio de Janeiro, onde chegou em 1835. Com 28 anos, curtia seu primeiro exílio.

 

Foi no Rio que Giuseppe conheceu Bento Gonçalves, o líder da Revolução Farroupilha, no Rio grande do Sul, e se engajou na causa. Três anos depois, Garibaldi já era capitão de um navio corsário a serviço da República Rio-Grandense.

 

À bordo da embarcação “Itaparica”, tomada do inimigo, em julho de 1839, o italiano Garibaldi, de 32 anos, observava a barra de Laguna quando viu um rosto em um grupo de moças que chamou sua atenção. Era Ana Maria de Jesus Ribeiro, conhecida depois como Anita Garibaldi. Com 14 anos, casou-se com Manuel Duarte de Aguiar, mas, depois de três anos, o marido se alistou no Exército imperial, abandonando a jovem esposa. Garibaldi relata em suas memórias o encontro dos dois: “Era Anita! A mãe de meus filhos! A companhia de minha vida, na boa e na má fortuna. A mulher cuja coragem desejei tantas vezes”.

 

Anita Garibaldi

 

Em 20 de outubro de 1839, Anita subiu a bordo do navio de Garibaldi para nunca mais deixá-lo. A moça provou sua valentia na famosa batalha naval de Laguna quando, a bordo de uma pequena lancha, Anita fez diversas vezes a travessia entre o navio corsário e a terra firme para buscar e levar munição em meio à maior batalha.

 

Anita foi presa em 12 de janeiro de 1840, durante a batalha dos Curitibanos, grávida de seu primeiro filho. Mas, ao receber a notícia que Garibaldi estava morto, entrou em desespero. Em um instante de distração dos guardas, ela roubou um cavalo e fugiu e, para despistar seus perseguidores, jogou-se com o animal no Rio Canoas. Oito dias depois encontrou Garibaldi em Vacaria (RS).

 

Monumento à Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul

 

Quando a situação nos pampas se tornou insustentável, o casal, já com um filho, fugiu para o Uruguai, onde se casaram em 1842. Os outros três filhos deles nasceram em terras uruguaias até que, em janeiro de 1848, Anita partiu com as crianças para Nice, cidade natal do marido, onde ficou aguardando a sua chegada. Quando Giuseppe regressou à sua pátria, Anita deixou seus filhos aos cuidados da sogra para, novamente, acompanhar o marido nas batalhas pela unificação da Itália. Um ano depois, perseguidos pelas tropas austríacas, Anita e Giuseppe fogem para San Marino, em 1849.

 

Grávida do seu quinto filho, ferida, com febre tifoide, Anita morreu no parto, juntamente com a criança, em 4 de agosto de 1849. Garibaldi ainda viveria por mais 31 anos: foi ao encontro de Anita em junho de 1882.

 

 

Bonnie e Clyde do sertão

Aperreado com a perda do seu bando na investida frustrada contra a cidade de Mossoró (RN), Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, com 31 anos na época, deu chá de sumiço por dois anos até que, em 1930, parou em um vilarejo perto do Raso da Catarina (BA), e conheceu Maria Gomes de Oliveira. Baixinha, roliça, dona de um tipo bem brasileiro, Maria Bonita,como ficou conhecida, logo chamou a atenção de Lampião.

 

Foi amor à primeira vista. Um ano depois, o temido cangaceiro a convidou para seguir o bando e ela não pensou duas vezes. Enrolou o colchão, deu adeus a um incrédulo marido, o sapateiro Zé Neném, e se embrenhou sertão adentro com Virgulino. Ela foi a primeira mulher a fazer parte do Cangaço. Depois dela, outras vieram para dar apoio moral aos seus companheiros.

 

 

Nem por um minuto Maria Bonita se arrependeu por se aventurar pelo agreste seco, dormindo ao deus-dará, sem saber o que viria no dia seguinte. Até porque a vida nômade tinha lá suas vantagens. Maria não lavava, nem cozinhava e sequer pegava em armas. O papel que lhe cabia era o de fazer companhia ao seu homem. O casal teve uma filha, Expedita, nascida em 1932, que foi dada a uma família amiga do cangaceiro. Até morrer, seis anos depois, o casal viu a menina em apenas três ocasiões.

 

 

Nem a morte os separou

Madrugada de 28 de julho de 1938. Os 35 cangaceiros abrigados na Grota do Angico, na margem sergipana do Rio São Francisco, acordaram assustados com os tiros. Depois de uma longa noite de tocaia, 48 soldados da polícia de Alagoas avançaram sobre eles. Pegos de surpresa, os bandidos não tiveram chance. O combate durou apenas 15 minutos.

 

Cangaceiros

 

Entre os 11 mortos, estava Virgulino, o mais temido cangaceiro que assombrou o Nordeste nos anos 20 e 30. Junto dele continuava Maria Bonita, depois de oito anos de andanças e companheirismo. Ferida no ventre e nas costas, manteve-se consciente até o último tiro. Conta a lenda que foi degolada viva, mas até o seu fim continuou gritando e esbravejando contra os soldados da volante.

 

 

Abre alas que o amor quer passar!

A família de José Basileu Gonzaga, militar de carreira e pai de Chiquinha Gonzaga, nascida em 17 de outubro de 1847, era rica e se opunha terminantemente ao casamento dele com a moça negra e pobre Rosa Maria de Lima. Mas, mesmo assim, os dois se casaram. Desde pequena, Chiquinha foi educada para se tornar uma sinhazinha aristocrática. Mas o que ela gostava mesmo era de música. Ganhou seu primeiro piano do pai, aos 15 anos, quando se casou com Jacinto Ribeiro do Amaral. Entretanto seu comportamento independente e sua dedicação ao piano provocavam frequentes brigas entre os dois.

 

Depois de muito sofrimento e brigas, Chiquinha resolveu romper o casamento. Sozinha, sem o apoio da família e sem sua filha criada por seus pais, Chiquinha começa a dar aulas de piano para sustentar a si e aos dois filhos, o mais velho e o mais novo.

 

Chiquinha Gonzaga

 

A pianista ainda fez mais uma tentativa de ser feliz ao casar-se pela segunda vez com o engenheiro João Batista de Carvalho, com quem teve uma filha: Alice Maria. Até que, depois de anos, não suportou suas traições e separou-se pela segunda vez, perdendo a guarda da segunda filha para o pai.

 

Dedicando-se exclusivamente à música, lutou desesperadamente para mão perder também seu primogênito, o único que ficou junto dela. Com o tempo, tornou- se famosa como compositora e maestrina quando, aos 52 anos, conheceu João Batista Fernandes Lage, um adolescente de 16 anos que também se apaixonou perdidamente por ela. Temendo o preconceito, fingiu adotá-lo como filho e os dois se mudaram para Lisboa, em Portugal, e foram viver felizes, longe dos falatórios do Rio de Janeiro. O romance só foi descoberto após a sua morte por meio das cartas e fotos do casal. Ela morreu em 1935, com 88 anos, ao lado de João Batista Lage, seu grande amigo, parceiro e companheiro fiel por mais de três décadas.

 

João Batista Lage

 

Adaptado do texto “Até que a morte os separe”

Fotos: Revista Leituras da História Ed. 54