Animais também eram mumificados no Egito

Os egípcios acreditavam que a alma, separada do corpo pela morte, voltaria mais tarde a ocupá-lo de modo permanente. Então, desenvolveram apurada técnica de conservação de cadáveres, tendo milhares de múmias chegado até nossos dias

Da Redação | Foto: Museu Britânico | Adaptação web Caroline Svitras

As múmias mais bem preservadas são as dos faraós e seus parentes. Isso porque, devido à importância dessas pessoas, o processo de embalsamento era feito com muito mais cuidado e rigor técnico. As múmias que resistiram à passagem do tempo permitiram que os cientistas desvendassem mistérios da civilização egípcia. O estudo das múmias – e de todos os objetos encontrados junto delas – fez com que pesquisadores, ao longo das últimas décadas, traçassem um panorama de como viveu e morreu a civilização do fascinante Antigo Egito.

 

Engana-se quem pensa que somente os seres humanos – particularmente os faraós e os de destaque na sociedade egípcia – eram mumificados. A descoberta das tumbas mostrou que animais, como gatos, macacos e outros, também mereceram esse cuidado. Fato, porém, nem sempre muito conhecido.

 

Crocodilo e ave de rapina mumificados | Foto: Manchester Museum

Os egiptólogos – especialistas na civilização egípcia – ignoraram o hábito de se mumificar os animais durante muito tempo. Um século atrás, no entanto, um mundo novo se desvelou aos olhos dos estudiosos. Uma equipe do Museu do Cairo, na atual capital do Egito, começou a desenrolar e identificar um conjunto de múmias que lá havia. Tudo indica que os animais mumificados eram usados como oferenda aos deuses. E eles eram colocados na tumba para que pudessem ser vistos e identificados como um presente. Os estudos feitos revelaram as mais variadas espécies de animais mumificadas.

 

As mais comuns são as de animais domésticos, como gatos, cachorros e até vacas e ovelhas. Mas também já se encontraram falcões, crocodilos, peixes, escorpiões e cobras mumificadas. Um dos exemplares mais curiosos encontrados até hoje pelos pesquisadores são ovos de pássaros e répteis. Atualmente, uma equipe do Museu do Cairo se dedica ao chamado The Animal Mummy Project, cujo objetivo é entender cada vez mais profundamente os hábitos e crenças do Antigo Egito. Os cientistas acreditam que a identificação de um número cada vez maior de animais mumificados ajudará a responder algumas questões que ainda permanecem sem resposta. Técnicas de raio X têm permitido que os cientistas identifiquem as pequenas múmias, que antes eram confundidas com as de crianças. Ao identificar qual é o animal mumificado, pode-se descobrir a espécie “adotada” por um determinado faraó e quais as espécies existentes naquela época.

 

Todas as espécies de animais mumificados pelos antigos egípcios eram consideradas como tendo estreitas associações com deuses | Foto: Manchester Museum

 

Os estudos dos animais mumificados também podem ajudar os pesquisadores a descobrirem como esses animais morriam no Antigo Egito. Eles seriam mortos para serem enterrados com seus donos? Em caso afirmativo, como se dava essa morte? E a respeito das técnicas veterinárias da época? O que pode ser descoberto por meio da análise dos animais mumificados? No Museu Britânico, na capital inglesa, exames de raio X revelaram que alguns gatos eram mortos por estrangulamento e mumificados para serem oferecidos aos deuses. Os cientistas do Museu do Cairo querem descobrir ainda se as técnicas usadas para pequenos mamíferos se repetiam com pássaros e répteis. Pode ser bastante interessante descobrir, por exemplo, como o crocodilo era morto antes da mumificação.

 

O dia a dia dos pesquisadores do Museu do Cairo inclui um incansável trabalho de catalogação e análise de dezenas de múmias que compõem o acervo da instituição. O objetivo maior é identificar essas múmias coletando uma série de dados referentes à espécie do animal, à maneira como morreu, seu estado de preservação etc. O mais importante, porém, é que todo esse trabalho deve ser feito sem que a múmia seja danificada, ou seja, o estudo do animal é realizado sem que a múmia seja desfeita, desenrolada. Para conseguir esta proeza, os cientistas contam com equipamentos sofisticados, como laboratórios de raio X, por meio dos quais é possível descobrir as características da múmia sem nenhuma intervenção.

 

Os chacais, associados a Anubis | Foto: Manchester Museum

 

Parece estranho. Como estudar uma múmia sem retirar os panos que encobrem corpo? Há diversas maneiras de levantar dados sobre as múmias sem destruí-las. A observação é uma delas, já que muitos animais eram mumificados de modo que partes do seu corpo ficassem à mostra. Além disso, medições e exames sofisticados permitem que certas características sejam desvendadas, de forma que a múmia seja totalmente preservada. As pequenas descobertas vão se somando a outras já feitas, ajudando a montar esse enigmático quebra-cabeça que é o antigo Egito. Por que, afinal, um povo tão sofisticado, como o egípcio, se dava ao trabalho de mumificar animais? Simplesmente porque eles tinham verdadeira adoração por alguns deles, que eram alvo também de superstições. Entre os prediletos, estavam os gatos. E quando os cientistas começaram as escavações arqueológicas na região do Nilo, muitas múmias preservadas de gatos foram encontradas. Ao contrário de ideias supersticiosas propaladas séculos depois, o gato, no Antigo Egito, não era considerado um mau agouro nem presença demoníaca. Muito pelo contrário! Essa falsa crença só veio a se disseminar muito tempo depois.

 

Revista Leituras da História Ed. 102

Adaptado do texto “À espera da alma”