Aparições da Virgem Maria na História

Ela é a mãe do personagem mais intrigante da história humana e carrega consigo alguns dos “incontestáveis” dogmas da Igreja Católica

Por Ávany França | Foto: Museu de São Roque | Adaptação web Caroline Svitras

Alguns historiadores consideram essa figura feminina uma das mulheres mais influentes no mundo desde os primórdios da Era Cristã. Para seus fiéis devotos, ela já deveria ter sido incorporada à Santíssima Trindade e fazer jus ao seu nome, Maria Santíssima. “Nas horas mais dramáticas do mundo e da Igreja, ela se faz presente em pessoa ou através de seus servos… Parece ter chegado o momento em que Deus decide mandar sua Mãe para buscar convencer os filhos a fazer tudo aquilo que Ele lhes disser…” (Dom Manoel Pestana Filho, no prefácio do livro Tratado da Verdadeira Devoção A Santíssima Virgem Maria, edição 2002).

 

É inevitável não considerar a importância da Virgem Maria em toda a trajetória cristã. O termo “Mãe de Deus”, um dos quatro dogmas marianos, foi declarado no Concílio de Éfeso, ainda no ano 431. Desde então, a descrição carismática da Virgem Santíssima é tida com apreço, sendo ela considerada a mãe da Igreja e de todos os cristãos. O historiador português Carlos Lopez Amorim ressalta a importância de Maria também no século 6º, quando a imagem feminina passa a ser personagem central nos cultos celtas e na adoração de suas deusas, que posteriormente foram absorvidas pela figura da Virgem Maria. Na Idade Média, período de grande complexidade e mudanças no prisma europeu, a mulher começa a despontar em áreas distintas da sociedade. Ela passa a circular em ambientes de trabalho e algumas chegam a ocupar cargos de maior relevância. No âmbito religioso, a figura de Maria assume mais uma vez seu papel de modelo feminino, configurando, assim, uma importante e positiva perspectiva para a sociedade feminina que se moldava diante das transformações da época.

 

Joe Coleman: alertas de catástrofes naturais por meio de visões | Foto: Reprodução/www.belfasttelegraph.co.uk

Na atual conjuntura, alguns sociólogos acreditam que o novo boom da devoção a Maria seria apenas uma reafirmação do poder feminino. Já para as linhas de estudos centrados nos fenômenos religiosos, o argumento é de uma transformação natural da Igreja Católica, na qual os valores femininos da espiritualidade ganharão cada vez mais atenção. O movimento da Renovação Carismática, iniciado nos Estados Unidos no fim da década de 60, também representa um elemento importante na devoção à mãe do criador, uma vez que enfatiza a veneração à santa. Os mais fervorosos acreditam que a devoção mariana nasce da necessidade emergente de respostas e a possibilidade de contato com o divino, afinal, Maria é vista como intercessora e intermediadora, aquela que após a ressurreição foi incumbida pelo próprio filho, Jesus Cristo, de levar a boa nova aos demais. Há ainda quem aposte em um movimento intencional da Igreja Católica para promover as aparições marianas, na busca de resgatar a fé dos milhares de fiés desgarrados – só no Brasil, o número ultrapassou 1,7 milhão na última década, segundo dados do último censo brasileiro.

 

Embora os estudos arqueológicos tenham encontrado divergências entre a data da construção e o período em que a mãe de Jesus teria supostamente vivido no local, em 1896, a casa foi declarada local de peregrinação cristã pelo papa Leão 13, sendo visitada também pelos papas Paulo VI, João Paulo II e Bento 16.

 

Na trilha das aparições

Em janeiro de 2012, na pequena comunidade de Carmo da Cachoeira, localizada ao Sul de Minas, mais de 1500 pessoas foram atraídas por relatos de uma suposta aparição de Nossa Senhora. No mesmo ano, uma imagem com silhueta similar ao ícone da Virgem Imaculada despertou o olhar de centenas de pessoas na direção do hospital Sime Darby, próximo à Kuala Lumpur, capital da Malásia. Dois anos mais cedo, na região oeste da Irlanda, na cidade de Knock, Joe Coleman, conhecido por relatar suas visões da Virgem, alertava sobre catástrofes envolvendo tsunamis e outros acidentes naturais tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, informações que, segundo ele, foram-lhe passadas por meio de mensagens da Virgem. Esses são apenas alguns dos muitos casos registrados em diferentes partes do globo.

 

Imagem que católicos acreditam ser da Virgem Maria na janela de hospital em Subang Jaya | Foto: Lai Seng Sin/AP

Seria esse fenômeno o fruto da histeria provocada pela necessidade de apoiar-se em algo espiritual em tempos tão difíceis ou seria o indício de uma mudança natural na estrutura da comunidade cristã? As respostas para essas questões são dúbias. Para os maristas, um dos grupos mais expressivos dentro da estrutura católica do século, as aparições são avisos de que é preciso se preparar para a segunda vinda de Jesus Cristo à terra. Para antropólogos, sociólogos e historiadores, esse seria apenas mais um capítulo das transformações naturais da Igreja Católica, em que se destaca a valorização dos elementos femininos, tendo a Santíssima Virgem como personagem central. É possível que o apóstolo Tiago tenha se sentido um privilegiado com a aparição da Virgem Maria. A visão aconteceu no ano 15, enquanto o apóstolo pregava a fé cristã em Zaragoza, na Espanha. Na aparição, Maria teria solicitado a construção de uma igreja dedicada a ela naquele lugar. A Basílica de Nossa Senhora do Pilar existe desde então, atraindo cristãos de todo o mundo. De lá para cá, os relatos das aparições da Virgem se tornaram frequentes em diferentes momentos da história da Igreja Cristã, ganhando maior repercussão nas últimas três décadas.

 

Segundo os estudos do padre e teólogo René Laurentin, que se dedica há mais de 40 anos às aparições marianas, o número de visões reportadas no mundo ultrapassa 2.400 (dois mil e quatrocentas). As mais importantes entre as reconhencidas pela Igreja são: Guadalupe, no México, em 1531; Rue du Bac, em Paris, em 1830; La Salette, na França, em 1846; Lourdes, na França, em 1858; Fátima, em Portugal, em 1917; Banneux, na Bélgica, em 1933; Amsterdã, na Holanda, em 1945; Akita, no Japão, em 1973; Kibeho, em Ruanda, em 1981.

 

Revista Leituras da História Ed. 76

Adaptado do texto “A mulher mais sublime da Terra”