Arte e fé na Idade Média

Em “Arte e Beleza na Estética Medieval”, o autor e medievalista italiano Umberto Eco quer revelar a importância capital da Idade Média para o advento do Renascimento

Por Átila Soares da Costa Filho* | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

 

Na contramão, sua “Arte e Beleza…” confirma, por exemplo, que ao movimento da Renascença coube, tão-somente, recusar algumas de suas filosofias, como a da estética, pois “falta à Idade Média uma teoria das belas-artes, uma noção de arte como a concebemos hoje, como produção de obras que têm por objetivo primeiro a fruição estética, com toda a dignidade que esta destinação comporta”. A arte, para o medievo, era conhecimento de regras, onde se produziam coisas. Eco já definira muito bem essa virtude: “…capacidade de fazer algo, e, portanto, uma virtus operativa, virtude do intelecto prático. A arte inscreve-se no domínio do fazer, não do agir (…) a teoria da arte é, antes de mais nada, uma teoria da profissão.” À época, as artes estavam divididas entre nobres e manuais. Ainda que funcional e reproduzindo a natureza, a arte não poderia dar vida às coisas e, por isto, ficava atrás da alquimia, que poderia transmutar a matéria. “Sinal de que (…) agitavam-se já as exigências da ciência e da filosofia natural do Renascimento”. O artista medieval se diferenciava, assim, daquele da Renascença, que estamparia o orgulho de sua individualidade em qualquer coisa que surgisse de suas mãos.

 

Idade Média: uma longa “noite de mil anos”

A passagem da Idade Média para o Renascimento não é feita de forma abrupta, e aquele período se vê tão agarrado ao pensamento da Igreja que, na concepção filosófica da Beleza – diferentemente dos questionamentos sobre a Natureza –, praticamente nada restará a ser discutido além da esfera intelectual de Roma. Entretanto, o próprio Homem vai tomando consciência de sua legítima filiação divina por excelência, o “coroamento da Criação”. É aí que se insere a figura de Giotto (1267-1337), que o reconstrói como medida de todas as coisas – seu corpo, também expressão do belo. Lembremo-nos também da Oratio de Hominis Dignitate de Picco della Mirandola (1463-1494).

 

Para Eco, o que tal problemática causaria sobre este “novo” homem da Renascença era a impressão da Idade Média ter sido uma longa “noite de mil anos”, onde nos cita como exemplos mais dramáticos a destruição da biblioteca de Alexandria, vítima de “uma série de destruições nos finais do século 4 perpetradas pelo zelo fanático dos cristãos contra as instituições e os símbolos da cultura pagã”, e o encerramento da Academia de Platão no mesmo ano em que havia sido fundada a Ordem dos Beneditinos, “a primeira grande ordem religiosa”.

 

Cabe observar que, sobre o primeiro exemplo, tal afirmação, entretanto, é digna de controvérsia: a ideia de que os cristãos tenham sido os responsáveis pela destruição da biblioteca de Alexandria. O que se aceita, hoje em dia, é que tais destruições teriam sido parciais. A própria biblioteca parece ser uma lenda; entretanto, se verdadeira, suas obras poderiam ter sido pilhadas ou levadas a outras bibliotecas nas mesquitas do Cairo. Quanto ao saber clássico, provavelmente foram os próprios monges a perpetuar e impedi-lo de desaparecer…

 

Este panorama é facilmente compreendido quando lembramos que, no Ocidente, o declínio do sistema educacional da antiguidade clássica que se segue à queda do Império Romano só começaria a alterar-se no Natal do ano 800, quando o Papa Leão III coroa Carlos Magno – o início do renascimento carolíngio. Carlos Magno reinava sobre o caos. Para restaurar e firmar a unidade de seu vasto império necessitava com urgência o apoio da Igreja – única instituição sobrevivente do Império Romano. A Igreja, além de ter os únicos letrados da época, ainda guardava boa parte das áreas cultiváveis da Europa ocidental, a maior riqueza.

 

São Tomás de Aquino, um dos padres-doutores: luz como metáfora da realidade das coisas invisíveis

 

Para este ressurgimento, o monarca deveria ainda modelar uma classe dirigente e se cercar de funcionários letrados. A saída, então, foi encarregar a Igreja de educar os povos bárbaros do Império. Escolas foram abertas em mosteiros, conventos e abadias – presididas pelo scholasticus.

 

Determinaram-se, como disciplinas curriculares, as “artes liberais” – o trivium (Lógica, Gramática e Retórica) e o quadrivium (Astrologia, Aritmética, Geometria e Música). Carlos Magno ainda fundaria a Escola Palatina, o gérmen das universidades que começariam a surgir na Europa a partir do século 12, como Bolonha, Sorbone, Salamanca e Coimbra.

 

A “beleza”vinha de Deus

Assim, na estética medieval, beleza era um atributo divino. A obra construída por mãos humanas, então, era tida como imitação da realidade criadora de Deus, não deixando espaço para o processo criativo; ou seja, a arte era espelho da natureza. A Beleza, por vir de Deus, está em todos os cantos, e é sinônimo do “Bem”, o que dá uma ideia da síntese construída onde se unificariam beleza física e virtude. E, tomando-se da Antiguidade o conceito de proporção, onde pesa uma apreciação pela exatidão dos números, procurou-se uma espécie de estrutura para que se pudesse entendê-la (a Beleza) em qualquer dimensão ou profundidade – por exemplo, sendo o macro e o micro igualmente frutos do Criador, há alguma correspondência entre os mesmos.

 

Esta escolha também tocaria na adequação da forma a sua função, como o corpo humano e as demais expressões do mundo natural. A relutância medieval em separar o fator formal e o funcional – arte e técnica – acaba trazendo a estética para tudo na vida: mesmo os princípios da Ciência são entrelaçados com os estudos sobre a Beleza. E vai ser a matemática musical de Pitágoras o objeto sobre o qual estudiosos buscariam compreender o Universo e as coisas por meio da proporção. Na Arquitetura, as rosáceas góticas têm a proporção ideal: esse princípio representa a dualidade belo-divino, pois permite a passagem de luz (o divino) e cores, vida, onde antes era o soturno. Notar que estes elementos passariam a ser chave para o entendimento da beleza qualitativa, resultado de uma reação espontânea, contrária à numérica ou proporcional.

 

A Biblioteca de Alexandria foi vítima de uma série de destruições nos finais do século 4

E foi também durante este período que, sob os pensamentos do Pseudo-Dionísio, de Suger, Grosseteste, São Boaventura e de São Tomás de Aquino – talvez, dentre os padres-doutores, o maior mentor de Eco –, a luz espelha a ideia dogmática-teológica, por ser metáfora da realidade das coisas invisíveis. As artes em geral querem exaltar a luz. A cultura cromática simplifica as representações: nas pinturas as cores não se misturam, e nem existem degradés ou sfumati. As cores também cobririam roupas e armas (sim, o mundo medieval era colorido!). E, com a declaração do filósofo inglês Roger Bacon (1214-1294) sobre a Ótica como uma nova ciência, sua estética avançava unida ao pensamento científico e à tecnologia. Vale lembrar aqui as observações de Witelo, que indicam mais um importante fator na percepção do belo, para além de luzes e cores – aquelas anotações sobre a relação sujeito-objeto.

 

O filósofo e bispo Santo Agostinho (354-430) seria o primeiro a estipular a teoria do signo, no início da Idade Média. “Ele afirma com energia que o signo é toda coisa que faz vir à mente alguma coisa além da impressão que a própria coisa causa a nossos sentidos”. Toda a produção literária, a partir daí, se deteria sobre os conhecimentos real e fantástico; ela trabalha, na maior parte, com os símbolos contidos nas Sagradas Escrituras.

 

O pensamento medieval, no intuito de ajustar uma ordem ao mundo – peguemos como exemplo as iluminuras teutônicas, o Codex Manesse (século XIII) –, acaba produzindo uma cultura da arte de tal singularidade que obriga hoje os historiadores a procurarem desembaraçar os tantos significados contidos nas linhas, cores, e em gestos de personagens representados, magistralmente construídos e ali encerrados. Crê-se que esta tradicional forma de arte tivesse sido calcada no prestígio da nobreza, vindo da formação dos ambientes mais elevados na nova sociedade.

 

Para Umberto Eco, o Renascimento ainda iria conciliar as contradições e os opostos – tão estranho à ideia de harmonia e ordem –, o que viria a ser um golpe de morte no pensamento escolástico. Nicolau de Cusa (1401-1464), filósofo, cardeal e cientista, desenvolveu o conceito da polidimensionalidade do real, enfatizando o ato criativo quando finca o homem ao lado de Deus como co-autor das coisas. Logo, com o período das Descobertas e dos avanços científicos, o homem iria se superar até reconhecer-se como elemento fundamental no drama religioso.

 

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*ÁTILA SOARES DA COSTA FILHO é palestrante e professor de Artes Visuais e de História da Arte, bacharel em Desenho Industrial pela PUC-Rio, especialista em História da Arte pela Universidade Geraldo Di Biase (Volta Redonda) e pós-graduado em Filosofia e Sociologia pela FACEL (Volta Redonda).

Leituras da História Ed. 49