As bombas de Hiroshima e Nagasaki

Da Redação | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Doze membros da marinha estavam a bordo, certificando que a mais cara missão secreta de toda a guerra alcançaria o seu destino. Para que o projeto pudesse transcorrer com sucesso, todo o interior do super bombardeiro Enola Gay foi modificado e adequado para a nova arma militar. Durante todo o percurso o avião foi escoltado por mais dois bombardeiros, cuja missão era filmar todo o momento do impacto.

A mais nova arma secreta também foi apelidada “Little Boy”. Sob a responsabilidade do capitão William S. Parson a arma começou a ser ativada. Ao ser acionada, os três aviões rumaram diretamente para a cidade escolhida. A cidade de Hiroshima foi escolhida por causa da sua localização geográfica e de seu importante porto militar. Constituída de uma população de 350 mil habitantes, sendo que grande parte dos moradores vivia e trabalhava ao redor da cidade. Ironicamente, a decisão final de lançar a primeira bomba nuclear em Hiroshima, fundamentou em argumentos políticos e econômicos. A maioria dos membros do Estado Maior de guerra dos Estados Unidos e o próprio presidente Truman defendia a ideia que a cidade de Tóquio tinha que ser o primeiro alvo nuclear. A única pessoa que defendia a preservação da cidade de Tóquio foi o secretario de guerra, Henry L. Stimson, argumentando que gostou da cidade de Tóquio quando estava desfrutando as primeiras semanas de lua de mel, quando era jovem.

 

Hiroshima após a queda da bomba.

Na manhã de 6 de agosto de 1945, às 08h16min, o céu de Hiroshima estava claro. O bombardeiro Enola Gay abriu a comporta e lançou a poderosa bomba nuclear de uma tonelada. A bomba foi lançada a uma altura de 1.900 metros e o seu alvo principal era a ponte Aioi. O sargento George Caron descreve o que viu: “…Uma nuvem em forma de um cogumelo crescia rapidamente. Uma massa de fumaça de cores roxo e cinza cobria o céu. Parecia que toda a cidade foi coberta por uma densa larva”. Cerca de 70% da cidade de Hiroshima ficou destruída com a explosão. Noventa mil prédios ficaram seriamente danificados. Prédios próximos ao alvo da bomba foram totalmente derretidos. As estruturas dos edifícios, composta de metal e pedra, derreteram em segundos. Setenta mil pessoas desapareceram nos primeiros minutos da explosão e outras duzentos mil morreram de radiação nos primeiros cinco anos após a detonação da bomba. Atualmente, as cidades de Hiroshima e Nagasaki continuam trazendo transtorno para a população. Entre 1950 e 1990 praticamente 10% da população contraiu câncer.

 

Naquele mesmo dia o presidente dos Estados Unidos, Trumam, comentou em rádio nacional o uso da bomba nuclear em território japonês. Em seu discurso extremamente jubilante e orgulhoso, Trumam relatou resumidamente os últimos acontecimentos na guerra no Pacífico. Ao povo americano, Trumam alegou que todas as formas diplomáticas foram usadas para obter uma rendição, mas os japoneses insistiam em manter o conflito. O uso da bomba teria sido a última alternativa encontrada pelo governo americano para terminar a guerra e trazer os soldados de volta para casa.

 

A cidade de Nagasaki passaria a ser o novo alvo americano. A indústria naval e o pujante centro comercial eram as principais fontes econômicas da cidade. Durante quase toda a guerra a cidade foi bombardeada poucas vezes. Os seus habitantes, temerosos com os possíveis ataques aéreos, passaram a se refugiar nas montanhas e florestas próximas da cidade. Principalmente as escolas foram transferidas para áreas rurais. O norte da cidade de Nagasaki possuía um enorme campo de prisioneiros de guerra, no qual eram obrigados a trabalhar em minas de carvão e na construção naval.

 

Hiroshima após a queda da bomba.

Na manhã de 9 de agosto 1945 o bombardeiro B-29 apelidado de Bockscar, comandado pelo capitão Charles W. Sweeney, partiu para uma importante missão militar. Charles e seus tripulantes carregavam uma nova bomba atômica de impacto bem maior do que foi lançando em Hiroshima. Apelidada de “Fat Man”, era composta por plutônio 239. Inicialmente seu alvo era cidade de Kokura, a quarta cidade mais importante do Japão. Por causa das péssimas condições climáticas, com intensas nuvens e chuviscos, os três aviões foram obrigados a circular sobre a cidade durante horas. Ao perceberem que as condições climáticas não iriam melhorar e devido ao pouco combustível, optaram em lançar a bomba na cidade de Nagasaki. Se houvesse qualquer dificuldade técnica ou climática em lançar a bomba em Nagasaki, o capitão Charles poderia trazer de volta a bomba para base militar ou lançar no Oceano Pacífico. Charles e seus tripulantes decidiram manter a missão e aguardar pela melhora do tempo em Nagasaki.

 

 

Relatos de sobreviventes

Yosaku Mikami estava com 32 anos de idade quando foi exposta à bomba. Ele era bombeiro e tinha feito um plantão de 24 horas. Na manhã de 6 de agosto ele estava voltando para casa depois de uma noite trabalho. Ao término do dia ele se despediu dos seus colegas do corpo de bombeiros e esperou o próximo transporte público.

 

“…Estive aguardando o novo transporte público por 10 minutos. Ao pegar o ônibus avistei pela janela um imenso brilho azul e ao mesmo tempo uma forte fumaça cobriu todo o automóvel. Saí do veículo e notei que tudo estava queimando. O céu estava nublado e coberto por uma pesada nuvem. Decidi voltar para o meu posto de trabalho e salvar as milhares de pessoas que gritavam e imploravam por ajuda. Parecia que todos os prédios e casas estavam queimando deliberadamente. O calor era insustentável, vestimos a nossa capa contra o fogo, mas mesmo assim sentíamos muito calor.

Entre as pontes Miyuki e Takano, avistamos centenas de pessoas gritando e implorando por ajuda. Tentamos socorrer algumas dessas pessoas. Se movíamos os olhos tentávamos afastá-los do fogo. Nós tentamos pegar os sobreviventes pelos braços ou pelas pernas, mas a pele dessas vítimas começava a ficar em nossas mãos. Carregamos as vítimas ao hospital, mas o hospital estava completamente lotado. Muitos bombeiros morreram um mês depois. Eu sinto tristeza por todos os meus amigos e pelas pessoas que perderam os seus familiares. Eu sinceramente espero que nunca tenhamos uma guerra nuclear.”

 

DAYTON, Ohio — Boeing B-29 Superfortress “Bockscar” on display in the Air Power Gallery at the National Museum of the United States Air Force. (U.S. Air Force photo)

 

Akiko Takakura tinha 20 de idade quando foi lançada a bomba. Ela era funcionária do banco de Hiroshima, próximo 300 metros do epicentro da bomba. Takakura escapou da morte por milagre, mas obteve mais de 100 furos em suas costas. Ela é a única sobrevivente mais próxima da área atingida pela bomba atômica. Atualmente ela administra uma creche e costuma relatar o horror da bomba para suas crianças.

 

“… Cheguei ao banco aproximadamente às 08h15min, assinei o livro de ponto e comecei a fazer o meu serviço. Minutos depois avistei um enorme brilho repentino. Por alguns instantes perdi a consciência, mas quando recuperei, encontrei tudo destruído e em chamas. Minha amiga Asami chorava entre os escombros. Eu falei a Asami para sairmos do prédio o mais rápido possível. Asami lamentava, pois ela não tinha condições de se levantar. Conseguimos sair juntas do prédio e nos dirigimos à rua principal. Sentimos um terrível calor e mal podíamos respirar. Eu quemei grande parte do meu corpo, pois tudo o que tocava estava extremamente quente.

Ficamos com muita sede, pois o fogo e a fumaça eram constantes. Começou a chover e todas as pessoas abriram a boca para poder obter uma única gota de água. A água da chuva era escura e eram enormes pingos. Muitas pessoas na rua morreram instantaneamente. Os dedos dos corpos mortos começavam a pegar fogo e as chamas do fogo gradualmente cobriam todo o corpo. A imagem do fogo consumindo prédios e pessoas ficou para sempre em minha memória.”

 

Adaptado do texto “Hiroshima e Nagasaki”

Fotos: Revista Leituras da História Ed. 87