Brasil: a geração frustrada

Não é necessário varrer a história. Uma única geração basta. O passado recente, imiscuído no presente e determinante do futuro. 1968, o ano que terminou. Nada é perene, nem as mais representativas glórias. Esquecendo as vilanias do regime de exceção, tentemos fincar em nosso racional e nosso instinto

Por Amadeu Garrido de Paula | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Fomos às ruas, centrados. Queríamos mudanças de costumes opressores, vitorianos. Freud ainda era vanguarda. Em primeiro, buscávamos a liberdade. A igualdade, a justiça. Justiça social é redundância. A solidariedade. O amor, micro e macro. Revolução, em seu sentido. A Europa se contentava com a superfície. Nossos bravos estudantes com as profundezas econômicas. O homem é inescapável de seu meio. Todos, porém, uníssonos em seus ideais.

 

O Brasil viveu o golpe no golpe. Foram-se esperanças, alternativas sonhadas. Bravos jovens empunharam armas. O direito de resistência, aos que o ignoram. Outros e outras forças a estrada institucional. Opções naturais da política. Órgãos de segurança cresceram como câncer na ditadura. Natural, esta era um corpo predisposto à metástase. A ajuda externa garantiu a repressão brasileira. Somos tão tupiniquins que até as famosas “C14” foram doadas. Com o “placet” do governo central, desestruturaram, estupraram, violentaram e mataram. Ainda hoje parte dessa geração é formada de zumbis neuróticos, para desespero da psicanálise. Outros superaram os efeitos das perfídias. É próprio das mulheres e dos homens. Por fim encontramos a cidade dos desejos. Respeitáveis lideranças exiladas voltaram a discursar. Assumiram seu papel. A implacabilidade do tempo, porém, dar-lhes-ia o fim natural. Pertenciam à geração anterior.

 

História da política no Brasil

 

Aos 65 de minha idade (a expressão é de Carlyle), como tantos, envolvo-me na frustração. Nossa última experiência democrática foi trágica. Só uma Constituição. Pedaço de papel, rabiscado tantas vezes pelo “constituinte derivado”. Como é do povo, a maioria das leis “não pegam”. Há um “ranking” internacional de democracia. Nosso País figura entre as últimas. O STF diz que a Constituição é a lei interpretada por eles. Sem modéstia e, não raro, atabalhoadamente.

 

A lei inconstitucional é constitucional até que 11 iluminados a examinem, depois de anos ou décadas. Nesse tempo, multiplicam-se as concussões, corrupções, carestias, conjuras. A torpíssima figura do delator está em moda. Não São Judas, porque Iscariotes ascendeu ao pedido de Cristo para ser o traidor. Imolou-se. Nada de trinta moedas. As escrituras deveriam ser escritas. Se tens fé, reze para Judas nos momentos de turbulência. Foi o mais corajoso dos apóstolos. Os delatores no meu País exalam o suor dos elefantes após cruzarem o deserto. Temem o banho frio e a cloaca no chão, enquanto muitos de nossos contemporâneos não hesitaram em dar a vida.

 

O PIB brasileiro é vergonhoso, exceção ao PIB do crime organizado. Este movimenta de 3 a 4 trilhões de dólares anuais, segundo a ONU. Não é possível sem a convivência do sistema bancário e financeiro internacional. O Brasil faz parte significativa dessa riqueza. 1 trilhão gera o narcotráfico. O restante, principalmente, de armas leves e letais. O El e a Al Qaeda têm substrato em significativo comércio de petróleo.

 

A crise da democracia no Brasil

 

Nosso horizonte desapareceu com a noite. Esta é bela para nossas reflexões e nossos amores. Vislumbrar o futuro exige a luz do sol. Perdemos sua simbologia. Acrescente-se o Legislativo em boa parte corrupto e descomprometido. O Judiciário desbussolado, a partir do STF. E o Executivo a navegar num mar agitado e sem porto.

 

Nossa geração está profundamente frustrada. A grande luta foi utópica. Nossa democracia, pela qual ainda urge lutar, com tenacidade, talvez seja construída na próxima ou nas próximas das próximas. Somente nos cabe transmitir valores e experiências que nos agitaram, para que não sejam esquecidos. “É o despertado momento em que se descobre que esse império, que nos parecia a soma de todas as maravilhas, é um esfacelo sem fim e sem forma, que a sua corrupção é gangrenosa demais para ser remediada pelo nosso cetro, que os triunfos sobre os soberanos adversários nos fez herdeiros de suas prolongadas ruínas.” (CALVINO, Ítalo).

 

Trecho retirado da revista Leituras da História Ed. 101. Garanta a sua clicando aqui!