Computador da era Antiga

O Google homenageou hoje os 115 anos desde a descoberta do Mecanismo de Anticítera. Entenda o que é essa invenção

Por Caroline Svitras | Fotos: BBC

Há 115 anos, coletores de esponjas resgataram do mar, entre diversas outras peças, uma estranha placa de cobre que, anos mais tarde, seria conhecida como o “computador da Antiguidade”.

O artefato encontrado nos arredores da atual Grécia foi batizado de Máquina – ou Mecanismo – de Antítera por ter sido coletado na ilha de Antítera, próxima de Creta. Apesar de ter sido descoberto apenas no início do século XX, cientistas acreditam que a “máquina” tenha sido construída há mais de 2 mil anos, no período da Grécia Antiga.

Desde seu achado, pesquisadores de todo o mundo têm se debruçado sobre as mais de 37 rodas dentadas que compõem o mecanismo em busca de pistas sobre seu funcionamento. As teorias mais aceitas são as de que a máquina de Anticítera seja capaz de calcular com precisão os movimentos de planetas e a posição de astros como a Lua e o Sol.

Os gregos da Antiguidade estudaram metodicamente o céu noturno e, com isso, foram capazes de formular as primeiras explicações racionais e físicas sobre os fenômenos astronômicos. O pensamento grego recebeu forte influência do conhecimento dos povos do Egito e Mesopotâmia sobre os corpos celestes. Essas culturas desenvolveram um amplo estudo sobre os fenômenos celestes com a intenção de calcular como a movimentação e posição dos astros influenciava na colheita, na pesca, no período de cheia dos rios, entre outros aspectos.

 

Calculadora do passado

O físico inglês Derek John de Solla Price (1922-1983) foi o primeiro a analisar a misteriosa máquina, nos anos 1950. Em seus estudos ele descobriu dois tipos de rodas no mecanismo: umas com 127, e outras com 235 dentes. Posteriormente na análise, ele concluiu que o número 235 dizia respeito ao ciclo Metônico, ou seja, ao número de meses lunares contidos em 19 anos terrestres.

Essa medição corresponde ao movimento do Sol pelo céu, conhecido como ano solar. Um ano solar é equivalente a 19 anos terrestres. Essa designação é amplamente usada na astronomia como base para o desenvolvimento de calendários.

Voltando ao artefato, após uma série de análises, Price percebeu inscrições sobre as rodas, com os dias e meses do calendário, além dos signos do zodíaco. Essa descoberta fez o físico perceber que estava diante de uma complexa calculadora astronômica.

 

As olimpíadas helenísticas

Em 2005, anos após as descobertas de Solla Price, a Hewlett-Packard colocou à disposição daqueles que pesquisavam o mecanismo um leitor de imagem capaz de decifrar textos corroídos pelo tempo. Graças a essa ação, descobriu-se que a Máquina de Anticítera, por meio de seu sistema de engrenagens, calculava os ciclos astronômicos que aconteceriam nos próximos quatro anos.

A descoberta trouxe à tona a antiga estratégia grega para demarcação do tempo. Eles se baseavam no intervalo (olimpíada) decorrido entre os Jogos Olímpicos e as competições pan-helênicas para estabelecer uma cronologia no calendário.

 

Controvérsia

Michael Wright, cientista da Universidade de Sydney, na Austrália, executou uma análise de raios-X sobre o instrumento a convite do curador do Museu de Ciências de Londres. A busca delatou uma falha na teoria de Price. Wright descobriu que havia engrenagens com outras quantidades de dentes além dos 127 e 235 registrados pelo físico inglês.

Em parceria com o curador, ele também revelou que a invenção foi construída para calcular os movimentos dos astros a partir de um ponto fixo que girava ao redor da Terra. Isso garantiu que a máquina calculasse a órbita de astros e planetas de forma bastante precisa.

 

 

Até hoje, inúmeros trabalhos de pesquisa e estudos foram realizados a fim de decifrar o funcionamento da Máquina de Anticítera e que informações ela fornece. Cientistas de todo o globo lançaram seus olhares sobre o mecanismo grego desde sua descoberta, em 1902, até os dias de hoje em busca de respostas. Depois de tantos esforços, uma coisa é clara: a complexa Máquina de Anticítera ainda é um dos grandes mistérios da Antiguidade.