Conheça a Casa das Madalenas

Uma história de terror envolvendo a Igreja Católica, o governo irlandês e o abuso contra jovens cristãs

Por Ávany França | Foto: BNPS

Em uma sociedade onde as adolescentes eram obrigadas a esconder os seios em desenvolvimento e ensinadas que “deixar-se ser tocada por homens era sinal de impureza”, muitas das irlandesas cresciam sem nenhum tipo de Educação sexual. Algumas, mesmo em idade avançada, desconheciam do que se tratava o ato sexual em si. Dessa forma, no auge de suas paixões, acabavam sendo ludibriadas por afoitos moçoilos que abusavam da ingenuidade das jovens para satisfazer seus ímpetos sexuais.

 

Por outro lado, os casos de abusos sexuais, envolvendo principalmente padres e familiares, também ocupam um papel importante na biografia das Madalenas. Conhecido como um país de rigidez católica, o temor a Deus e o bom comportamento eram obrigações básicas nos lares irlandeses. A gravidez fora do casamento era considerada ofensa grave, além de representar um infortúnio para toda a família. Dessa maneira, jovens desapareciam da noite para o dia, sob desculpas estapafúrdias, na tentativa de esconder a vergonha familiar. Eram elas mulheres com idade média de 20 anos, no entanto, registros confirmaram a presença de meninas de apenas 9 anos nas casas cristãs.

 

Mary O’Connell compara as lavanderias
a campos de concentração | Foto: Ávany França

Sob o olhar da sociedade da época, as Casas de Madalenas não passavam de conventos, onde, além das obrigações religiosas diárias, as freiras tinham como papel ensinar as boas maneiras e a fé cristã às meninas de comportamento desviante. No entanto, no interior das instituições, o regime era de clausura e escravidão. As jovens, quase sempre atormentadas pela perda dos filhos ou pela rejeição familiar, não podiam ao menos expressar a sua dor. Mary O’Connell, como prefere ser chamada, retrata o ambiente como um campo de concentração: “Não podíamos falar umas com as outras. Muitas das que sofriam pela perda dos filhos tentavam desesperadamente buscar alguma notícia com as recém-chegadas, mas eram reprimidas pelas freiras com ameaças de punição severa.”

 

As punições aparecem em praticamente todos os relatos das ex-Madalenas. Boa parte delas jamais pôde dizer quem era ou mesmo o motivo pelo qual acabou ali. “Lembro-me de ter dito o meu nome de batismo para uma das companheiras e fui arrancada à força por uma das freiras. Tive minhas roupas arrancadas, deixaram-me nua, rasparam-me a cabeça e fiquei por dois dias em uma sala escura”, lembra Mary. Histórias como essa e de muitas outras ocorridas no silêncio dos corredores das lavanderias católicas só começaram a vir à tona há alguns anos, na fala de sobreviventes – Hoje, senhoras com famílias, mas que viveram na escuridão por muitos anos dentro e fora das Casas de Madalenas.

 

Se dentro das casas, o medo e o terror tinham como aliados o silêncio. Para as que conseguiram sair, ele continuou sendo fundamental para o recomeço. “Passamos anos sendo tratadas como fracassadas, sendo hostilizadas e chamadas de demônios, prostitutas e impuras. Não tínhamos contato com o mundo externo e achávamos que todos saberiam as pessoas ruins que éramos se contássemos de onde vínhamos”, conta Mary. Por isso, as histórias de abuso emocional, maus-tratos e escravidão vivenciadas pelas Madalenas demoraram décadas para chegar ao público.

 

Nora O’Malley, no auge dos seus 65 anos, retrata o horror de ter tido seu filho arrancado de seus braços ainda recém-nascido, lembrança que guardou em silêncio por 50 anos, quando, pela primeira vez, decidiu contar a sua trajetória como uma das internas das lavanderias em um documentário produzido pela televisão irlandesa. “A gente não queria ter dedos apontados para a nossa face mais uma vez. Ser uma Madalena era sinônimo de vergonha, uma vergonha que embutiram nas nossas mentes por anos”, desabafa.

 

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A revelação

Dezoito meses. Este foi o tempo utilizado para uma investigação sobre as Lavanderias Madalenas, orquestrada pelo senador Martin McAleese. O relatório revela não apenas os dados oficiais do regime de escravidão que era operado nas lavanderias administradas por quatro congregações religiosas, como também o relato de sobreviventes amparadas por representantes e grupos como o Woman Survivors Network UK, Magdalene Survivors Together e Justice for Magdalenes.

 

Embora sempre se tenha escutado histórias sobre as Lavanderias Madalenas, inclusive denúncias de algumas internas que conseguiram fugir e delatar os abusos cometidos pelas freiras, existem poucas evidências de qualquer intervenção política. Isso porque as lavanderias contavam com a negligência do próprio governo irlandês, que era um dos que mais se beneficiavam com o serviço escravo.

 

Última lavanderia a ser fechada, em 1996, localizada na região central de Dublin | Foto: Elizabeth Gonçalves

 

Documentos analisados pelo comitê investigativo localizaram evidências de que pelo menos 18% dos contratos das lavanderias tinham o próprio governo como cliente. Contratos estes datados desde 1927, tendo como principal característica o preço competitivo. Aponta-se também que 26% das jovens admitidas nas lavanderias foram levadas pela justiça irlandesa. Muitas delas, órfãs que não conseguiam ser adotadas por serem crescidas e, saíam dos abrigos diretamente para as lavanderias, outras, apanhadas por pequenos delitos ou crimes. Em um dos capítulos da investigação, provou-se também que oficiais do alto escalão do governo tiveram oportunidade de intervir nas atividades das lavanderias, mas não o fizeram.

 

Eram responsáveis pelas lavanderias as congregações religiosas: The Sisters of Good Shepherd, The Sisters of Our Lady of Charity, The Religious Sisters of Charity e Sisters of Mercy. Uma das justificativas do comitê dada ao fato de se passarem tantos anos para a investigação se explica pelos registros relacionados às instituições pertencerem à Igreja, a qual os detinham em caráter de sigilo, impedindo, assim, qualquer apuração às denúncias feitas pelas vítimas.

 

Se, por um lado, a Igreja tentava acobertar o regime de escravidão e abuso moral das lavanderias, por outro, o governo irlandês se esquivava sob o pressuposto das instituições serem empresas privadas. Outro fator preponderante para que o assunto tenha se mantido por tantos anos no anonimato foi assegurado pela própria condição de vergonha moral das sobreviventes. Muitas delas, hoje com filhos e netos, continuam a carregar a dor e o tormento da segregação por terem representado uma categoria inferior e marginal da sociedade irlandesa por cerca de um século. “Tínhamos vergonha de dizer que tínhamos passado pelas lavanderias, vergonha de não sermos aceitas, de sermos apontadas”, ressalta Nora.

 

Em muitos documentários que têm sido produzidos com histórias das sobreviventes das lavanderias cristãs, os relatos carregam dor, desespero e sempre muita vergonha. Elizabeth O’Brien, que adotou esse nome fictício desde sua primeira entrevista, revela que o cenário em que as meninas eram expostas era de pavor: “Acordávamos sob gritos às 4h da manhã, seguíamos para o refeitório e, em seguida, para o trabalho de mais de 12 horas consecutivas. Pausas para o banheiro eram limitadas e não podíamos conversar umas com as outras.”

 

Os cátaros

 

Muitas enlouqueciam e era ainda mais perturbador viver entre murmúrios e lágrimas daquelas que não compreendiam o motivo de estarem em tais condições. Casos de suicídio também estão presentes nos diálogos das ex-Madalenas, que hoje têm recebido amparo e suporte emocional para tratarem do assunto publicamente. Durante o período de investigações, a maior dificuldade foi encontrar documentos que pudessem dar dados concretos do número de vítimas das lavanderias religiosas.

 

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