Conheça a história do ex-escravo que aterrorizou a Bahia

Lucas de Feira, como ficou conhecido o ex-escravo, fugiu para se tornar bandido. Até hoje assunto para especulação, tido como muito sanguinário, sua vida, entretanto, é ainda envolta em muito mistério

Por Muricy Cardoso | Fotos retiradas da Revista | Adaptação web Caroline Svitras

Em meados do século 19 um personagem incomum assustou as pessoas no interior da Bahia, destoando da vida tranquila que o Brasil Colônia levava. Era Lucas. Lucas de Feira (ou da Feira), como ficou conhecido o escravo fugido, que ganhou a liberdade para se dedicar à bandidagem, convertendo-se num verdadeiro escravo cangaceiro.

 

Lucas de Feira, como seu nome indica, viveu na região de Feira de Santana, a cidade mais populosa da Bahia depois da capital, Salvador. Feira, naquela época era – como ainda hoje – um município cuja base econômica se baseava na pecuária e emprestou seu nome de sua atividade de entreposto comercial de gado. Situada a 108 km da capital, numa região intermediária entre o litoral e o sertão, Feira tem um clima um pouco árido, caracterizado pela vegetação de caatinga que se mescla a trechos úmidos.

 

A perversidade de Lucas não conhecia limites. Há registros de que o cangaceiro chegou a crucificar, num pé de mandacaru, uma moça que resistiu a ser, por ele, estuprada. Por isso, apesar de sua origem de escravo, Lucas é visto até por outros negros, não como um herói da resistência crioula, mas como um celerado perigoso que não merece nenhum respeito por parte de quem quer que seja. Assim, antes de morrer, teve o braço amputado e um escravo, tomando em suas mãos o membro cortado, enfiou nele um monte de espinhos e saiu pelas ruas a exibir o lúgubre troféu!

 

Lucas nasceu em 1807 e iniciou-se na atividade criminosa logo na juventude, aos 20 anos. Suas vítimas – comerciantes ambulantes, fazendeiros, vaqueiros –, eram tratadas com a mais brutal severidade. Chegou a pregar o lábio de um homem num tronco; atacou famílias, seviciando uma jovem em pelo menos uma ocasião e registros dão conta que chegou a formar um bando de 30 homens – embora o mais provável é que tenha constituído quadrilha de 3 a 8 integrantes, de acordo com outras fontes.

 

Bandidos escravos

A rebeldia escrava que antecedeu a abolição caracterizou-se, além da resistência quilombola, pela ação da bandidagem negra. Alguns cativos, fugindo, iam esconder-se em rincões remotos a partir de onde – em bandos ou solitários – lançavam-se à pilhagem, ao assalto, ao assassinato. Dentro desse contexto foi que o fugitivo Lucas Evangelista dos Santos, que ficou conhecido como Lucas de Feira, entrou para a História da primeira metade do século 19, no sertão baiano, região em que exerceu sua atividade de salteador.

 

O médico Nina Rodrigues, que escreveu sobre ele, refletindo o preconceito dominante então, acredita que o fato de Lucas ter sido mestiço justificaria sua “superior inteligência”. A atividade criminosa dele, que nasceu em Belém, perto de Cachoeira, Recôncavo Baiano, iniciou-se por ocasião de sua fuga.

 

Relíquias do cangaço

 

A importância de Lucas de Feira para a historiografia reside em ser ele o mais destacado de um grupo – o de bandidos escravos – que teve grande importância na compreensão da realidade do século 19, ainda que menos relevado, compreensivelmente por causa do caráter celerado de sua atividade que não tem a feição heroica de um Zumbi.

 

Como ele, houve muitos e muitos outros escravos fugidos que aderiram à atividade criminosa, como é o caso de José Matos, chefe de quadrilha (capturado em 1834), Paulo Manoel Florêncio (capturado em 1839) e Manoel José, preso em São Félix em 1841. Lucas, carpinteiro de formação, tendo reunido um bando de oito criminosos – entre eles Nicolau, Januário e Bernardino – aterrorizou os sertões feirenses, assaltando feiras livres de gado e caixeiros viajantes.

 

Os registros históricos têm sido, geralmente, omissos acerca de Lucas de Feira. Há alguns anos, porém, a Universidade Estadual de Feira de Santana realizou um seminário sobre esse personagem. A professora Zélia Lima de Jesus escreveu o livro Lucas Evangelista – O Lucas de Feira – Estudos Sobre a Rebeldia Escrava em Feira de Santana, uma dissertação. Nascido na localidade conhecida como Belém, próximo a Cachoeira e São Félix, na fazenda saco do Limão, no Recôncavo Baiano, onde fica também Salvador.

 

Estranha inclinação para o crime

A contravenção da lei sempre foi uma constante na História. No Brasil, Lampião, Corisco e o Cabeleira são exemplos do fenômeno cangaço, que se caracterizou pela atividade bandida cabocla no sertão do Nordeste. Assim, por volta de 1935, Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, percorria as caatingas e matas atacando fazendeiros, transeuntes, populações assustadas do interior da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. O bandido Corisco, que viveu na mesma época, não ficava atrás e, como Lampião, era tantas vezes brutal, sempre insubordinado em sua vida de criminoso.

 

Lampião

Assim foram também os escravos bandidos como Lucas. A motivação para a escolha da alternativa criminosa de vida é uma espécie de estranha vaidade unida, é claro, às condições inóspitas do meio e a situação social de pobreza reinante. O crime esteve tantas vezes ligado à condição social carente de seus autores, embora não seja essa uma regra, haja vista às falcatruas tão presentes no meio de nossos abastados políticos. Então, gente como Lucas da Feira se aproveitava da falta de poder político e econômico das populações rurais para perpetrar suas ações criminosas de maneira impune.

 

Na Bahia, nos anos 80, em Salvador, aconteceram as atividades da conhecida “Gangue dos Grã-finos”. Eram rapazes da classe média alta que, diferente de Lampião e Lucas, tinham todas as oportunidades de ter uma vida abastada mas que a droga, unida às más companhias, levou a atividades como o tráfico, o assalto e o estupro. Cláudio Olero, chamado Cláudio Stone, o líder, acabou morrendo num acidente automobilístico, segundo a imprensa da época e outros integrantes do bando, como Morcego e Bolacha, tiveram também fim trágico, presos ou mortos.

 

O que leva um homem a escolher o caminho do crime permanece uma incógnita para mentes morais. De qualquer maneira parece que a vaidade é um elemento importante que motiva o desvio de conduta.

 

Em relação a gente como Lucas, a revolta parece ser um fator relevante. A condição de escravos criou neles um ódio entranhado à sociedade que, compreensivelmente – embora de maneira não justificada – os opôs às autoridades constituídas e aos cidadãos obedientes a elas. Assim foi que o famoso poeta baiano Castro Alves, que viveu na época da escravatura, compôs o poema Bandido Negro. Muitos viram na peça um velado incentivo à prática criminosa.

 

Melo Moraes Filho, historiador, pintou o escravo com tintas suaves ao atribuir a ele as qualidades da gratidão e até da caridade. O fato é que, antes de morrer enforcado, em 25 de setembro de 1848, aos 42 anos, Lucas deve ter sofrido muitíssimo, com a amputação de seu braço num tempo em que os anestésicos não existiam, pelo menos com sua eficácia atual.

 

Amores proibidos da história do Brasil

 

Lucas foi traído por um personagem chamado Cazumbá, que revelou seu esconderijo às autoridades. Calcula-se que cometeu mais de 150 crimes, entre homicídios, roubos e estupros. Pouco conhecido na historiografia, até mesmo entre os baianos, é possível que alguns dos crimes atribuídos a ele tenham sido cometidos por outras pessoas que lhe inculparam.

 

Lucas foi preso em 1848 e morreu pedindo perdão pelos seus crimes. Entre outras referências, sua vida foi cantada nos versos do poema A.B.C. de Lucas, do oficial de justiça Souza Velho, que narra a vida do bandido-escravo sob o ponto de vista dos senhores.

 

Revista Leituras da História Ed. 87

Adaptado do texto “Terror dos sertões baianos”