Conheça o mais misterioso homem da História

Talvez crime perfeito seja a única explicação para o caso do Homem de Somerton que, embora esteja repleto de pistas, algumas evidências e muitas suposições, depois de quase 69 anos, continua sendo apenas um mistério indecifrável

Por Morgana Gomes | Foto: Reprodução/Creative Commons | Adaptação web Caroline Svitras

Por volta das 19h do dia 30 de novembro de 1948, o morador local John Bain Lyons e sua esposa faziam um passeio noturno na praia de Somerton, pequena estância balneária perto de Adelaide, na Austrália, momento em que avistaram um homem semideitado de pernas cruzadas contra um paredão. Embora ele tenha erguido fracamente o braço, o casal continuou a caminhada pensando se tratar de um bêbado que iria pedir algo, como um cigarro. Pouco depois, outro casal que também caminhava ao longo do paredão viu a mesma cena e ignorou o sujeito pelo mesmo motivo dos Lyons. Porém, na manhã seguinte, o senhor Lyons voltou à praia para um mergulho e, junto a um amigo, foi surpreendido, ao notar um grupo de pessoas a cavalo perto do paredão, no qual tinha avistado o suposto bêbado na noite anterior.  Ao se aproximar para entender o que era observado, ele percebeu um corpo que estava na mesma posição do homem que desprezara. Eram 6h30 da manhã de 1o de dezembro de 1948 e, de imediato, ele chamou a polícia. O que ninguém imaginava é que naquele instante começaria um mistério que não foi desvendado até hoje!

 

Quando a polícia chegou, o corpo do homem estava com a cabeça encostada ao paredão, com as pernas estendidas e somente os pés cruzados. O morto também tinha um cigarro apagado na gola direita de seu casaco. Uma busca inicial em seus bolsos revelou um bilhete de segunda classe de trem, cujo destino era Adelaide-Henley Beach, e um bilhete de ônibus da cidade que não pode ser comprovado se foi ou não usado. Além disso, ele também carregava um pente de alumínio estreito e um pacote de goma de mascar Juicy Fruit pela metade, ambos de procedência americana; um maço de cigarros Army Club, que continha sete  cigarros mais caros da marca Kensitas, produtos que só eram distribuídos no Rei Unido; e uma caixa de fósforos. No entanto, não havia nenhum documento de identificação entre seus pertences. Apesar desses detalhes que nada revelavam, foi constatado que o homem tinha aparência britânica, estava barbeado e bem vestido com uma camisa branca, gravata azul e vermelha, calça marrom, meias e sapatos, um pulôver de malha cinza e um elegante jaquetão marrom. Mas como também não havia marcas de violência em seu corpo nem sinais de vômito perto dele, a polícia supôs que ele tinha morrido de algum mal súbito durante o sono e, então, chamou a ambulância, que levou o cadáver ao Royal Adelaide Hospital, para a realização de uma autopsia.

 

Primeiras evidências

O trabalho realizado pelo Dr. John Barkley Bennett indicou que a morte do desconhecido, com base no rigor mortis, havia ocorrido por volta das 2h da madrugada, em consequência de insuficiência cardíaca, possivelmente causada por envenenamento, devido ao baço firme e três vezes maior que o tamanho normal e fígado distendido com sangue congestionado. No estômago também havia sangue que, por sua vez, estava misturado a restos de pastel. Porém, testes de laboratório não revelaram vestígios de qualquer veneno conhecido.  Em seguida, o patologista disse que morto apresentava condições físicas superiores, tinha de 40 a 45 anos, 1.80m de altura, olhos cor de avelã, cabelos ruivos, mas já grisalhos em torno das têmporas, mãos e unhas que não mostravam sinais de trabalho manual e dedos dos pés pequenos, que se reuniam em uma forma de cunha, como os de um bailarino ou de alguém que só usava botas de bico fino. Os dentes também não correspondiam aos registros dentários de qualquer pessoa viva conhecida. Na ocasião, o Dr. Bennett e os demais médicos também informaram à polícia que as roupas do então chamado Homem de Somerton tiveram todas as etiquetas removidas, mas a calça tinha um bolso rasgado que foi cuidadosamente costurado com uma linha laranja.

 

O X sobre a imagem determina o local onde corpo do Homem de Somerton foi encontrado | Foto: Reprodução/Creative Commons

 

A partir daí, como já era impossível afirmar que ele havia morrido de causas naturais, a polícia decidiu espalhar por todo o mundo inglês tanto as digitais quantos as fotos do corpo. Embora inúmeros parentes de desparecidos tenham se manifestado, ninguém o reconheceu. Diante do impasse, em 10 de dezembro de 1948, o misterioso corpo foi embalsamado, enquanto a polícia decidia expandir suas pesquisas ao redor do lugar onde ele foi encontrado. Passado mais de um mês e com todas as possibilidades esgotadas surgiu uma pista.

 

A suposta mala do Homem de Somerton sendo examinada por policiais | Foto: Reprodução/Creative Commons

Em 12 de janeiro de 1949, funcionários da estação ferroviária de Adelaide encontraram uma mala marrom com o rótulo removido, que estava guardada lá desde 30 de novembro. Ela nunca tinha sido procurada e, apesar de ninguém se lembrar de quem pagou o depósito para deixá-la na estação, a polícia descobriu, entre os seus itens, um tubo de linha laranja, não vendido na Austrália, que supostamente foi usado para costurar o bolso da calça do morto. Além dessa evidência, a mala trazia uma faca de mesa, cartões postais aéreos e um casaco identificado como de origem americana, objetos que indicavam alguém que tinha viajado provavelmente em um navio mercante, mais três peças que traziam a marca T. Keane, que não foi removida para não estragar a roupas. De um modo geral, à primeira vista, o conteúdo da mala nada indicava. Mesmo assim, a polícia pesquisou o único nome encontrado que, por sua vez, era bem comum no mundo inglês, tanto em meios de transporte quanto em registros de órgãos de imigração, bem como entre desparecidos, sem nada encontrar.

 

De qualquer forma, segundo os investigadores, a mala esclarecia alguns detalhes sobre o trajeto do então chamado Homem de Somerton: entre as 23h do dia 30 de novembro e o momento em que foi encontrado já morto na praia, ele comprou o bilhete de trem (encontrado em seu bolso) para a praia de Henley, mas como os banheiros da estação estavam fechados, saiu à procura de banhos públicos, encontrou pouco depois, banhou-se e barbeou-se, porém chegou atrasado à estação e perdeu o trem. Então, em vez de esperar o próximo, ele decidiu tomar um ônibus e comprou o bilhete para Glenelg (que também foi encontrado em seu bolso). No entanto, o que ninguém conseguiu explicar foi o que ele fazia na praia por volta das 19h e porque saiu de lá para comprar o bilhete de trem depois de 1h. Será que esperava alguém? Sem essa resposta, o mistério persistiu.

 

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Adaptado do texto “Crime perfeito?”