Conheça a história do navio Endurance e a expedição europeia para a Antártica

A Europa acabara de dar início à 1ª Guerra Mundial e, sete meses antes, o irlandês Ernest Shackleton se preparava para uma aventura ímpar. Considerada a última grande viagem da era dos descobrimentos, a empreitada a bordo do navio Endurance pretendia, pela primeira vez na história da humanidade, cruzar a pé o Continente Branco de ponta a ponta, entre o mar de Weddell e o Polo Sul

Por Eduardo Vessoni | Foto: Frank Hurley/Royal Geographical Society | Adaptação web Caroline Svitras

 

“Procuram-se homens para uma viagem perigosa. Salário baixo. Frio extremo. Longos meses de absoluta escuridão. Perigo constante. Retorno com vida não garantido. Honra e reconhecimento em caso de êxito.”

 

O anúncio no jornal britânico The Times era bem claro e dava pistas do que viria pela frente. Mas mesmo assim, 5 mil homens de diferentes classes sociais, de marinheiros a cientistas, apresentaram-se para disputar uma vaga na Expedição Transantártica Imperial, aquela que se tornaria a mais perigosa e ousada viagem na Antártica.

 

No entanto, o que não se sabia é que a destemida expedição com o Endurance chegaria ao seu fim muito antes daqueles homens alcançarem as cobiçadas terras desconhecidas do sul do planeta. Mesmo com todos os cuidadosos procedimentos de preparação, Shackleton não pôde prever as mudanças climatológicas daquele continente em constante mutação e viu, conformado, seu barco ser consumido e destruído pela fúria de imensas placas de gelo que impediriam a continuidade da viagem, obrigando a tripulação a vagar por resgate durante dois anos.

 

A expedição, que incluía também uma travessia terrestre de quase 3 mil km, contava com duas embarcações: o Aurora, navio de apoio que deveria seguir pelo lado oposto do continente, no mar de Ross, preparando os depósitos de suprimentos ao longo da rota do grupo transcontinental; e o Endurance, uma construção a vapor de bandeira norueguesa feita exclusivamente para travessias polares, onde se encontrava Shackleton e outros 27 homens.

 

Anúncio de jornal à procura da equipe do Endurance | Foto: Divulgação

 

O primeiro, sob comando do capitão Aeneas Mackintosh, ficou à deriva, entre 12 de março e 7 maio de 1915, após uma tempestade e só chegaria à Nova Zelândia em abril do ano seguinte. Já o Endurance se tornaria o protagonista de uma das mais impressionantes histórias de sobrevivência dos últimos tempos, transformando Shackleton em exemplo de líder de sucesso por conta da capacidade de seguir até o fim no comando de uma viagem fracassada e manter seus homens unidos por um único objetivo: voltar vivos para casa.

 

A vista do Continente Branco

Foto: Frank Hurley/Royal Geographical Society

Após sete meses de preparação, a expedição começou em Londres em 1º de agosto de 1914, três dias antes do Reino Unido declarar guerra contra a Alemanha. O Endurance seguiu, então, até Buenos Aires, de onde zarpou em 26 de outubro rumo à Geórgia do Sul, o último porto seguro (e oficial) da expedição. A bordo, 69 cachorros canadenses, quase todos devidamente batizados, que não só se tornariam mascotes da tripulação como também seriam usados para puxar trenós em explorações terrestres e, mais tarde, serviriam como alimento durante os momentos mais críticos após o acidente no gelo.

 

Mais do que uma expedição com objetivos científicos, a travessia da Inglaterra até a Antártica pretendia quebrar recordes. Shackleton ainda sentia o gosto amargo por não ter sido o primeiro explorador a chegar ao Polo Sul, título que o norueguês Roald Amundsen conquistara, em 1911.

 

Feito com madeiras de pinho e de carvalho, o Endurance teria custado £14.000, cujos custos foram patrocinados com o que Shackleton recebera de apoiadores de países como China, Japão, Nova Zelândia, Austrália e governo britânico. A viagem seguia sem grandes alterações de rotina quando toda a tripulação começou a dividir sua atenção com os imensos blocos compactos de gelo que começavam a reduzir a velocidade da embarcação. Entre canais estreitos ou aberturas feitas pelo próprio navio, a expedição via aumentar gradativamente as dificuldades de navegação.

 

Do lado de fora, a tripulação via sinais da geografia selvagem que lhes aguardava em terras antárticas. Icebergs gigantes, com mais de 60 metros de altura, uma luz branca cegadora devido a sua intensidade, um horizonte confuso que causava miragens e confundia navegadores experientes, e um mar de blocos de gelo que começavam a desviar e, ao mesmo tempo, deter o barco. Segundo o próprio Shackleton escreve em seu diário, “o bloco de gelo pode ser descrito como um gigantesco e interminável quebra-cabeça desenhado pela natureza”.

 

O Início da saga congelante

Shackleton olhando o mar de gelo esmagando o Endurance | Foto: Frank Hurley/Royal Geographical Society

Eis que, em 20 de janeiro, aquele barco imponente, onde o destemido explorador polar depositara todas as suas esperanças, se viu completamente detido pela massa de gelo a apenas 160 km da Antártica. As caldeiras ainda permaneceriam a todo vapor até seu desligamento, sete dias depois, a pedido do líder da expedição. Para Shackleton, seria um luxo desnecessário continuar gastando o combustível e o carvão armazenados. Começa, então, a ser escrito o mais difícil capítulo da aguardada Expedição Transantártica Imperial.

 

Lá fora, as temperaturas alcançavam 28 graus negativos, em pleno verão antártico. Uma imensa capa de gelo que lhes tirava o horizonte começou a congelar os arredores do barco e a desafiar àqueles homens insistentes a trabalharem sem sucesso por 48 horas seguidas em sua retirada. O gelo começava a mostrar sua elasticidade e, a cada retirada, voltava a congelar. Aqueles exploradores não sabiam, mas toda a tripulação ficaria ali nos próximos sete meses, até a primavera seguinte, na esperança de que dias mais quentes descongelassem as imprevistas barreiras naturais e garantissem a continuidade da viagem.

 

No fim de fevereiro, a rotina foi abandonada de vez e o Endurance se transformou em uma malfadada “estação de inverno”, segundo as palavras usadas por Shackleton em seu diário. Para passar o tempo, eram organizados concertos de gramofone, apresentações de teatro, torneio de corte de cabelo, corridas de cachorros e peladas de futebol na imensa placa de gelo que se estendia sob os pés. As provisões começaram a escassear e qualquer animal local passava a ser alvo dos marinheiros caçadores. Encontrar focas, por exemplo, significava garantir combustível e alimentos.

 

 

Revista Leituras da História Ed. 68

Adaptado do texto “Endurance, 1914…”