Conheça a história do pastor Teixeira

Diante das recentes perspectivas introduzidas pelas transformações das novas religiões no Brasil, abordar um personagem histórico, inserido nas missões protestantes que aportaram no país no século 19, pode contribuir para novos enfoques sobre o tema

Por Davi Roberto Bandeira da Silva* | Fotos retiradas da Revista | Adaptação web Caroline Svitras

Filho único do casal Felipe Ney de Albuquerque e Helena Maria da Conceição, o padre Antonio Teixeira de Albuquerque nasceu a 15 de abril de 1840, na cidade de Maceió, Alagoas. Fez seus estudos iniciais no Liceu da cidade e, posteriormente, ingressou no Seminário Católico de Olinda, em Pernambuco. Em 30 de novembro de 1871 foi ordenado no Seminário Diocesano de Fortaleza, no Ceará, quando regressou à Província das Alagoas, onde foi designado para o exercício do sacerdócio na paróquia do povoado Limoeiro de Anadia.

 

Ao final de novembro de 1872, o padre Teixeira intensifica idílios amorosos com uma jovem, na candura dos seus 17 anos, chamada Senhorinha Francisca de Jesus. Embora os pais da adolescente, Manoel Quirino dos Santos e Generosa Maria da Glória, fossem rigidamente contrários ao romance. Logo, dividido entre o afeto da saia e a vocação da batina, o eclesiástico escolhe a primeira e foge com a jovem Senhorinha, de barco, rumo a Pernambuco. No Recife, este episódio vira estopim no acirramento dos constantes insultos dirigidos ao bispado pernambucano, sobretudo através da imprensa maçônica-liberal-republicana, nos noticiários do jornal recifense A Verdade.

 

Pastor Antonio Teixeira e família

 

Tempos depois, efetiva-se o casamento entre Teixeira e Senhorinha, cerimônia que acontece em um salão na Rua do Imperador, no Recife, a 7 de setembro de 1878, conduzido pelo reverendo Smith, então ministro evangélico da cidade – o local escolhido era onde se reuniam os membros da recém-organizada Igreja Presbiteriana de Pernambuco. Do matrimônio nasceram os sete filhos do casal.
 

Primeiro pastor batista brasileiro

Pastor Antonio Teixeira de Albuquerque

Os esclarecimentos quanto à conversão religiosa de Teixeira são poucos, pois se desconhece a data exata. No seu testemunho sobre a conversão, publicado no opúsculo autobiográfico “Três razões porque deixei a Igreja de Roma (1884)” revelou que “abalado na minha fé e na consciência, tive uma hora feliz; compenetrei-me do dever de estudar séria e cuidadosamente a Palavra de Deus, ensinos e preceitos de Jesus Cristo”. Esclareceu, no referido documento, que não foi a rigor “banido, expulso ou exautorado de padre, por bispo algum”, e a partir daquele momento não teve que “abjurar a igreja de Roma por promessa de dinheiro ou emprego nas igrejas evangélicas”. Uma leitura minuciosa desses excertos faz crer que o ex-padre discordava do catolicismo em determinadas questões pontuais.

 

Contudo, sua ida com a família para o Rio de Janeiro no mês de março de 1879, em condições não reveladas, ocorreu possivelmente sob a proteção da maçonaria. A partir de então, filia-se com a esposa à Igreja Metodista do Catete, no Rio de Janeiro, a 9 de março de 1879, onde foi bem acolhido pelo reverendo John Ransom, que lhe ofereceu auxílio financeiro e moradia.

 

Hábil na oratória, em julho de 1879, Teixeira foi encaminhado pelos metodistas para a cidade de Piracicaba, São Paulo, cuja finalidade era auxiliar no trabalho das missões locais. Nessa cidade, leciona na Escola Newman e também ministrava aulas a estudantes particulares, dentre os quais estavam os filhos do político que viria a ser o Presidente do Brasil, Prudente de Moraes (um dos fundadores, em 1876, da Loja Maçônica de Piracicaba).

 

Até que, decerto sua inquietação interior, com os imperativos da sua fé, nas perambulações pelo Presbiterianismo e Metodismo, despertou-lhe o convite de Cristo: “Ide e ensinai a toda criatura”. Assim, revelou-se seduzido pela fé batista – e em mais uma adesão religiosa –, aliás, consegue Teixeira o batismo e a consagração ao Ministério da Palavra, em 20 de junho de 1880, na formação de um Concílio das Igrejas Batistas da Estação e de Santa Bárbara, no município de Santa Bárbara, São Paulo. Teixeira, que mal falava inglês, então, foi batizado numa Loja Maçônica pelo pastor americano Robert Thomas, que pouco versava o português. Nessa circunstância atípica e embaraçosa, estava, portanto, consagrado o primeiro pastor Batista brasileiro.

 

Mural iconográfico da igreja da Bahia

 

Desde então, foi escalado para traçar o plano de instalar uma Igreja e escola da Missão, em Piracicaba, São Paulo. Assim, buscou cercar-se de pessoas influentes da região, dada a sua versatilidade carismática, visando a expansão das atividades missionárias. Temperamental, terminou por se desentender com o reverendo Elias Quillin, cujas razões não são totalmente esclarecidas. Seja como for, o atrito entre os dois religiosos causou desgaste entre os membros batistas, uma vez que desencadeou na ida de Teixeira para a Bahia, em 1882. Em Salvador, o pastor, junto aos missionários norte-americanos William Bagby e Zachary Taylor, organiza a primeira Igreja Batista da Bahia, em 15 de outubro de 1882 – é uma nova fase do trabalho batista no Brasil. Nessa época, Teixeira e Taylor começam a preparar o livro sobre as “Regras de ordens e regulamentos para a Igreja”, publicado em 1883.

 

Entretanto a sua influência religiosa atingiu a Igreja nos Estados Unidos. No relatório encaminhado à Junta de Richmond, escrito pela Sra. Kate Taylor – esposa do pastor Taylor – datado de janeiro de 1883, ela destaca a figura notável do alagoano Teixeira: “Nosso professor, Sr. Teixeira, chamou-me a atenção nesta manhã para o fato de que é no Brasil onde a idolatria e o paganismo se excedem. É muito agradável ouvi-lo”.

 

Pastor Robert Thomas

Mas o coração de Teixeira clamava de amor por sua terra natal, por sua gente, a paisagem que a sua memória infantil registrara. E, assim, em 1884 realiza uma visita missionária a Alagoas, em companhia do irmão batista Tito Alves, a pedido de um amigo, que lhe informara sobre ali haver interessados em constituir uma igreja. Definitivamente estabelecido em Maceió, com a família, Teixeira acompanhado do pastor Melo Lins e do reverendo Taylor, organizaram a primeira Igreja Batista de Maceió, em 17 de maio de 1885. Cercados por um pequeno grupo de seguidores, dez ao todo, celebraram a Ceia do Senhor. A causa batista ampliava rapidamente o sécto de fiéis, incluindo os pais de Teixeira, necessitando mão-de-obra missionária.

 

Em fevereiro de 1887, Teixeira encaminhou um telegrama à Igreja Batista da Bahia declarando estar gravemente enfermo, recomendando a visita urgente de pastores. Por conselho médico, deslocou-se para Rio Largo, município vizinho a Maceió. Dias antes de falecer, pediu que fosse cantado o hino “Pastor e Ovelhas” com música de Franz Haydn. Aos 47 anos incompletos, no dia 7 de abril de 1887, o pastor Teixeira faleceu, encerrando a sua jornada.

 

Por fim, desperta curiosidade a trajetória singular deste missionário e desbravador do protestantismo brasileiro. Caso tivesse continuado as atividades religiosas, possivelmente teria alcançado maior destaque histórico assinalando sua vocação pastoral. Ficou, em sua trajetória, a percepção de que o não mediu esforços para a sua ação transformadora, estabelecendo a importância do missionarismo pela conscientização da liberdade religiosa no país.

 

Revista Leituras da História Ed. 49

Adaptado do texto “O padre desertor”

*Davi Roberto Bandeira da Silva, é pesquisador do Programa de Estudos de Administração Brasileira (ABRAS) da Fundação Getúlio Vargas/EBAPE.