Conheça a Ordem Rosacruz

Para os seguidores da Ordem Rosacruz, o autoconhecimento é o caminho para atingir a paz individual e, a partir dela, criar o bem-estar de toda a humanidade. Até hoje, seus membros pregam a tolerância religiosa, a harmonia entre os povos e a paz entre todos

Por Rose Mercatelli | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Em certo dia de agosto de 1623, os curiosos habitantes de Paris, França, descobriram cartazes espalhados pelos muros da cidade anunciando a chegada de uma misteriosa e secreta fraternidade que afirmava ter condições de trazer “a verdadeira paz e sabedoria aos que procuravam a luz”.

 

Segundo registros históricos, um dos cartazes dizia: “Nós, representantes da principal sociedade dos Irmãos da Rosa-Cruz, estamos ficando, visível e invisivelmente, na cidade pela graça do Altíssimo, para o qual o coração do Justo se volta. Mostramos e ensinamos sem livros e máscaras como falar a língua de todos os países em que quisermos ficar, para tirar nossos irmãos homens do erro da morte”.

 

Propaganda misteriosa

Outra mensagem mencionava a promessa da paz e sabedoria universais a quem ingressasse na fraternidade. Porém, nenhum desses anúncios dava qualquer pista sobre onde seria o local da propalada reunião nem de como entrar em contato com os irmãos rosacruzes. Entretanto, nas entrelinhas, as mensagens sugeriam que, em breve, o segredo seria esclarecido. No momento certo, apregoavam alguns cartazes, aqueles que se mostrassem dignos seriam procurados. O estilo nebuloso de propaganda levou a sociedade parisiense da época a apelidar os irmãos da sociedade misteriosa de Os Invisíveis.

 

A origem de uma das sociedades mais misteriosas da Europa, e quem sabe do mundo, até hoje é envolvida em tantos mistérios, versões e contradições que, para os historiadores, é difícil separar o real do imaginário.

 

Uma lenda pouco conhecida, possivelmente divulgada na literatura maçônica, relata que existiu uma outra sociedade denominada Gold und Rosenkreuzer (Rosacruz de Ouro) que tentou, sem sucesso, submeter à Maçonaria ao seu poder. De acordo com a história lendária, a Ordem Rosa-cruz (com hífen) teria sido criada no ano 46, quando Ormus, um sábio gnóstico de Alexandria, com seis discípulos, foi convertido ao cristianismo por Marcos, o evangelista. A Ordem seria, então, o resultado da fusão dos ensinamentos do cristianismo primitivo com os mistérios das antigas religiões egípcias.

Cátaros, Cavaleiros Teutônicos e Cia
Christian Rosenkreutz | Foto: Reprodução/www.ecured.cu

A versão mais aceita, que tem seus registros históricos datados de 1614, conta que, por esse ano, apareceu na cidade alemã de Kassel um documento anônimo, o Fama Fraternitatis (Confissões da Fraternidade) que contava toda a história de Christian Ronsekreuz. Esse homem, muitas vezes indicado no texto apenas pelas iniciais CR, teria nascido em 1378 na Alemanha, em uma pequena cidade (não identificada pelo documento) às margens do Rio Reno.

 

Já o poeta, escritor e dramaturgo francês Maurice Magre (1877-1941), relata em seu livro Magicians, Seers, and Mystics Rosenkreutz (Magos, Videntes e Místicos Rosacruzes) que Christian teria sido o último descendente dos Germelschausen, uma família alemã do século 13, dona de um castelo na Floresta Turíngia, bem no centro da Alemanha.

 

Seus pais, pequenos fidalgos empobrecidos, teriam sido seguidores da doutrina albigense (ou catarismo) e, por esse motivo, toda a família foi condenada à morte por Conrad de Turíngia, o grão-mestre da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos. Essa irmandade guerreira, juntamente com os templários, foi considerada uma das mais poderosas irmandades militares da Europa no tempo das Cruzadas.

 

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Do massacre, só sobrou o filho mais novo, com cinco anos de idade, que teria sido levado por um monge de Languedoc, em Provence, na França, e colocado em um mosteiro sob influência dos cátaros (eles novamente). Lá, onde mais tarde conheceria os quatro amigos que o ajudaram a fundar a irmandade, Christian Ronsekreuz teria recebido uma Educação primorosa. Aprendeu grego, hebraico e latim e teve suas primeiras noções de magia, o que pode parecer estranho para um mosteiro cristão. Acontece que, segundo a história, entre os que professavam a doutrina cátara, existiam inúmeros alquimistas que diziam conhecer os segredos da pedra filosofal, que seria nada mais nada menos do que a vida eterna.

 

Viagens ao Oriente
Maurice Magre | Foto: Reprodução/www.babelio.com

Em 1394, com 16 anos, Christian saiu em peregrinação com um monge pelo Oriente, visitando o Egito, Marrocos e Damasco, na Síria, os maiores centros de cultura da época. O jovem e seu mestre também teriam partido para conhecer Jerusalém, há mais de 200 anos nas mãos dos mulçumanos. Porém, quando chegaram a Chipre, o monge faleceu e Christian seguiu a turnê por sua própria conta e risco.

 

Doente e sozinho, permaneceu algum tempo na Arábia, onde foi curado por sábios que o escolheram para receber uma série de ensinamentos místicos surgidos em tempos imemoriais.

 

Foram essas mesmas pessoas, relata em seu livro Maurice Magre, que o iniciaram em ocultas práticas científicas e o incumbiram de ir a todos os lugares para transmitir esses conhecimentos pelo mundo cristão. E tem mais: ele, Christian, deveria formar uma sociedade secreta para “educar” os monarcas europeus.

 

Dedicação aos desamparados

Antes de voltar à Alemanha em 1407, Rosenkreuz ainda teria passado cinco anos na Espanha, onde três de seus alunos redigiram os textos que, 107 anos mais tarde, seriam usados para iniciar a Fraternidade Rosacruz.

 

Para muitos pesquisadores, Christian Rosenkreuz seria apenas um nome simbólico. O sobrenome composto pelas palavras “rosa” e “cruz” tem levantado discussões acaloradas sobre seu real significado. Na versão mais popular, a definição para o nome da irmandade é clara: a “rosa”, símbolo da Virgem Maria, significa a “vida” enquanto a “cruz” representa o martírio de Cristo e sua morte.

 

Os cátaros

 

Outro mistério que ronda a sociedade seria o local exato onde foi fundada por Rosenkreuz e seus discípulos a Casa Sancti Spiritus (Casa do Espírito Santo), na qual os irmãos curavam doentes e ofereciam conforto aos desamparados. Com o tempo, os quatro irmãos construíram uma complexa estrutura que serviria de base à sociedade secreta. Segundo seus fundadores, para manter a fraternidade coesa e sob controle, os Rosacruzes deveriam seguir seis regras:

  1. Não era permitido exercer nenhuma outra profissão laica que não fosse a de médico que não poderia receber por seu trabalho.
  2. Também não podiam se vestir de monges, como acontecia em outras ordens laicas, mas seguiriam os costumes do lugar onde estivessem para não chamar a atenção.
  3. Uma vez por ano, no dia de Corpus Christi, os membros deveriam se encontrar na Casa do Espírito Santo para compartilhar informações e renovar a irmandade.
  4. Cada irmão escolheria seu sucessor e transmitiria a ele seus conhecimentos a fim de perpetuar a missão da sociedade.
  5. As iniciais RC (Rosae Crucis, em latim) seriam usadas como selo e senha.
  6. A existência da irmandade e seus conhecimentos especiais deveriam permanecer em segredo até que fosse enviado um sinal para sua divulgação.

 

Os achados do túmulo

Rosenkreuz morreu em 1484, com a inacreditável idade de 106 anos. Seu corpo foi depositado num túmulo em um local mantido em silêncio absoluto. Exatos 120 anos após sua morte, conforme o próprio Rosenkreuz havia previsto, Rosacruzes da terceira geração o encontraram por puro acidente.

 

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Quando entraram na tumba, descobriram um altar. Em um de seus esconderijos, foram encontrados livros da sociedade secreta e outros documentos que poderiam reconstituir a irmandade caso ela viesse a desaparecer. Entre a papelada, foram descobertos três textos que passaram a ser conhecidos como os Manifestos Rosacruz.

 

O primeiro deles, Fama Fraternitatis R.C, foi publicado em Kassel, em 1614. Os outros dois textos foram Confessio Fraternitatis (“Confissões da Fraternidade Rosacruz”), publicado em 1615, e Chymische Hockeit Christiani Rosenkreuz (“Núpcias Alquímicas de Christian Rozenkreuz”), em 1616. O enorme impacto que provocaram entre os europeus era o impulso que a Ordem Rosacruz precisava para se espalhar pelo Velho Continente.

 

São Marcos pregando em Alexandria | Foto: Gentile Bellini/Pinacoteca di Brera, em Milão

 

O Sermão da Montanha que contém ensinamentos do próprio Cristo aos seus seguidores também foi mencionado no segundo manifesto como uma das mais sólidas bases da fraternidade alemã. A propósito, sobre a pregação de Jesus, existe um detalhe curioso. Os cátaros (sempre eles!) também usaram o mesmo Sermão da Montanha como um dos mais importantes fundamentos na elaboração dos seu sistema religioso. Coincidência? Destino? Ou uma prova concreta da influência dos monges albigenses que educaram o fundador mor dos Rosacruzes? Nenhum pesquisador conseguiu a resposta para mais essa dúvida sobre a sociedade que mais precisou de mistérios para existir até hoje.

 

Variações sobre a mesma ordem

Para as fraternidades modernas, não interessa muito se Rosenkreuz existiu ou não. O importante para elas é o que essa história quer ensinar: ser cristão não é apenas seguir a figura bíblica de Jesus, mas também buscar o conhecimento oculto e esotérico. E ao que tudo indica, foi o que fez o homem que muitos ainda não têm comprovação de sua existência.

 

A partir do século 17 até o 20, surgiram algumas organizações com o nome Rosacruz. A maioria se diz legítima herdeira dos conhecimentos espirituais de seus primeiros fundadores. Conheça algumas delas.

 

The Rosicrucian Fellowship, (Fraternidade Rosacruz) fundada por Max Heindel entre 1909 e 1911, nos Estados Unidos. Heindel considera a fraternidade não a sucessora direta da Ordem Rosacruz, mas apenas uma escola que ensina suas doutrinas originais e que tem como objetivo preparar o indivíduo para ingressar em caminhos espirituais mais elevados.

 

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Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (Amorc), com sede mundial em São José na Califórnia, EUA, afirma que sua fundação aconteceu por volta de 1500 a. C. no Antigo Egito pelo Faraó Amenhotep IV. Porém, dados históricos confirmam que a Amorc começou em 1915, nos Estados Unidos, e seu primeiro divulgador foi o americano Harvey Spencer Lewis. Segundo a definição em seu site oficial, “a AMORC é uma organização internacional de caráter místico-filosófico, que tem por missão despertar o potencial interior do ser humano, auxiliando-o em seu desenvolvimento, em espírito de fraternidade, respeitando a liberdade individual, dentro da Tradição e da Cultura Rosacruz.”. Hoje, ela é a maior fraternidade mundial de Rosacruzes, presente em dezenas de países, em diversos idiomas. A sede para todos os seguidores de língua portuguesa fica em Curitiba, PR.

 

Fraternitas Rosae Crucis (FRC), com sede mundial nos EUA, que se autointitula como a verdadeira sucessora da Ordem Rosacruz fundada em 1614. Porém, seu nascimento histórico aconteceu por volta de 1920, elaborado por Reuben Swinburne Clymer.

 

Fraternitas Rosicruciana Antiqua (FRA) surgiu em 1927, criada pelo alemão Arnold Krumm-Helle. Com sede no Rio de Janeiro, RJ, e está presente em vários países de língua hispânica.

 

Lectorium Rosicrucianum (ou Escola Internacional da Rosacruz Áurea) começou a se estruturar em Haarlem, Holanda, em 1924, por meio do trabalho de J. van Rijckenborgh e Z.W. Leene, quando ambos entraram para a divisão holandesa do grupo americano Rosicrucian Fellowship. Este grupo se tornaria independente de sua matriz em 1935. Com o final da guerra em 1945, época em que a atuação da fraternidade foi proibida pelas forças de ocupação nazista, o grupo holandês adotou o nome que traz até hoje. A sociedade se identifica como a escola gnóstica que, segundo seus seguidores, recebe os conhecimentos direto de Deus. A escola prega um intenso trabalho no sentido do desenvolvimento espiritual de seus membros.

 

Confraternidade da Rosa+Cruz (CR+C), sob a tutela da Amorc e de sua maior autoridade espiritual, Gary L. Stewart, essa organização oferece os ensinamentos originais de Harvey Spencer Lewis desde a década de 1920. Ao mesmo tempo, mantém a tradição da Ordem Rosacruz dos séculos passados. A função de manter o equilíbrio entre a tradição e a fraternidade contemporânea é do Imperator do Movimento, uma espécie de chefe supremo, que serve como guardião dos segredos e ensinamentos esotéricos.

 

OKRC (Ordem Kabbalística da Rosa-Cruz) foi fundada em 1888 pelo ocultista francês Marquês Stanislas de Guaita, que se tornou o primeiro grão-mestre da entidade. A associação agrega princípios esotéricos de outras ordens místicas como o Martinismo, a Kabala e o Hermetismo.

 

Adaptado do texto “Os Invisíveis”

Revista Leituras da História Ed. 65