Conheça as gulags da Hungria

Uma viagem cenográfica pela história recente da Hungria

Por Eduardo Vessoni | Fotos retiradas da Revista | Adaptação web Caroline Svitras

Quando o visitante cruza as pesadas portas de ferro abertas por um senhor com cara de poucos amigos, a sensação é a de ter entrado em um espaço cenográfico. Trilha sonora composta ao som de orquestra de cordas e batidas eletrônicas, iluminação que varia de intensidade de acordo com o tema das salas e espaços históricos reconstruídos com a mesma precisão de uma obra de cinema. Localizado em Budapeste, capital da Hungria, a “Casa do Terror” (“Terror Haza”, em húngaro) é uma homenagem visual e sonora às vítimas de dois sistemas totalitaristas e sangrentos da política do século 20 daquele país.

 

Certamente, o impressionante projeto do arquiteto Attila F. Kovács e a música de Ákos Kovács não ameniza a dor dos familiares de milhares de pessoas torturadas e mortas nesse edifício de estilo neorrenascentista erguido em 1880, mas garante, sem sentimentalismo, uma emocionante viagem pelos anos em que esse país do Leste Europeu esteve sob administrações nazistas e comunistas. Embora dedicado aos dois sistemas totalitários impostos na Hungria, o museu destaca maior espaço para os 40 anos em que o país esteve sob comando dos comunistas.

 

Tortura física e mental

O labirinto de celas e as salas de interrogatório (leia-se “salas de torturas”) localizados no subterrâneo é um dos pontos mais marcantes do museu. Naqueles pedaços minúsculos de 60 cm x 50 cm x 1,80 metro de altura eram colocados os supostos suspeitos anticomunistas que, privados de dormir, tomar banho e sem comida durante dias, chegavam a ser interrogados e torturados por uma semana.

 

A tortura, física e psicológica, incluía manter prisioneiros com os braços levantados por até 12 horas seguidas, lesões com bastões de borracha, choques elétricos e queimaduras causadas por cigarros. Não havia banheiro, papel higiênico ou objetos de higiene pessoal. Quando autorizado, o prisioneiro dormia sob luz constante em uma cama molhada sem colchão ou no próprio chão e tinha direito a 150 gramas de sopa de feijão uma vez por dia.

 

O único ambiente original da Casa do Terror é a sala de tortura, conhecida na época como a ‘sala de ginástica’, onde estão expostos objetos como chicote com pregos e cassetete

 

No porão, é possível conhecer os diferentes tipos de ambientes de confinamento reconstruídos, como as “celas molhadas”, cujas condições interiores dispensam explicações, e o “buraco da raposa”, espaço com dimensões que impediam que o prisioneiro ficasse de pé. O único ambiente original mantido pelo museu é a sala de tortura, conhecida na época como a “sala de ginástica”, onde estão expostos objetos como chicote com pregos e cassetete.

 

A Casa do Terror abrigou também as instalações da sede da polícia secreta soviética, a Politikai Rendészeti Osztály (PRO)– Departamento de Ordem Política, em tradução literal para o português. Os dois andares superiores são dedicados aos anos de totalitarismo na Hungria e estão divididos por temas, como o Hall da Propaganda, uma sala com objetos antigos e anúncios publicitários com mensagens comunistas; Partido da Cruz Flechada, ambiente que abriga um boneco do fascista Ferenc Szálasi, vídeos com a deportação de judeus húngaros e uniformes militares; e o “Gulag”, espaço dedicado aos campos de concentração e trabalho escravo marcados em um mapa gigante no chão, além de contar com vídeos e objetos usados pelos prisioneiros.

 

Casa da Lealdade: 15 mil judeus assassinados

Detalhe da sala ‘Partido da Cruz Flechada’, ambiente que relembra os anos em que a Hungria esteve sob a administração do fascista Ferenc Szálasi. No local, é possível ver uniformes dos membros do partido, propagandas, imagens de interrogatórios e fotos de judeus húngaros deportados

O remapeamento da Europa e o dissolvimento do Império austro-húngaro, após a 1ª Guerra, transformou a Hungria em uma nação enfraquecida, isolada, desmilitarizada e suscetível a intervenção de potências como a Alemanha e a União Soviética em busca de novas regiões subordinadas. A chegada alemã, em março de 1944, e a invasão dos soviéticos em agosto daquele mesmo ano levaram ao país o nazismo e o comunismo que ficariam conhecidos como a “Dupla Ocupação”.

 

À procura de recursos naturais e humanos que apoiassem seus esforços durante a 2ª Guerra Mundial, a Alemanha administrou a Hungria com o uso de um governo fantoche criado pelos invasores nazistas. Em apenas dois meses, mais de 430 mil judeus já haviam sido enviados para campos de concentração.

 

O edifício onde se encontra o museu está localizado na Andrássy Road, boulevard da capital húngara declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, e serviu como sede do Partido da Cruz Flechada liderado pelo primeiro-ministro Ferenc Szálasi, cuja chegada ao poder fora uma manobra arquitetada pelos nazistas para mobilizar a Hungria para uma guerra ao lado da Alemanha.

 

Com nacionalismo extremado e ideias antissemitas, seu partido fascista foi responsável pela impressionante cifra de mais de 15 mil judeus mortos enquanto Szálasi esteve no poder húngaro em um curto espaço de tempo entre outubro de 1944 e janeiro de 1945. O local era chamado por ele como a Casa da Lealdade, onde pessoas infiéis ao sistema eram aprisionadas e torturadas até a morte.

 

Apenas cinco meses após a invasão alemã, tropas soviéticas cruzaram a fronteira húngara e deram início a um processo de tomada de poder que culminaria na imposição de um sistema político autoritário que marcaria a Hungria nos 40 anos seguintes: o comunismo. A batalha violenta entre alemães e soviéticos, que durou entre o Natal de 1944 e fevereiro do ano seguinte, deixou em ruínas todas as pontes de Budapeste e mais de 30 mil construções destruídas.

 

Assim como os nazistas alemães, os soviéticos também impuseram suas regras e encabeçaram perseguições violentas àqueles que fossem uma ameaça para a implementação do comunismo. As estratégias incluíam o envio de cidadãos húngaros a áreas rurais da Romênia para, em seguida, serem levados em vagões de gado para mais de dois mil campos de concentração soviéticos, uma viagem Europa adentro que demorava semanas.

 

A exibição multimídia da Casa do Terror, em Budapeste, inclui telefones antigos com gravações da época dos regimes totalitários. Na foto, detalhe de um dos aparelhos expostos na sala ‘Partido da Cruz Flechada’, ambiente que abriga um boneco do fascista Ferenc Szálasi

Conhecidos como “gulag”, esses depósitos humanos onde se trabalhava por 12 horas seguidas sob temperaturas abaixo de zero chegaram a receber mais de 600 mil pessoas, das quais 300 mil nunca mais retornaram à Hungria (e, provavelmente, a nenhum outro lugar do planeta). O ex-combatente húngaro András Toma, detido pelo Exército Vermelho em 1944, é considerado o último prisioneiro de guerra a regressar para casa, em 2000, após ser descoberto em um hospital psiquiátrico russo.

 

Muitas das vítimas daqueles anos sangrentos nunca foram encontradas e se transformaram em figuras sem rosto que os anos foram tratando de esquecer. Porém, no fim do tour, o museu faz questão de mostrar o rosto de alguns dos responsáveis por aqueles dois sistemas totalitários e reserva uma galeria discreta com fotos e nomes dos autores ou funcionários dos órgãos executivos da época. O tempo pode ter apagado o passado violento em território húngaro, mas as velas acesas no parapeito das janelas do lado de fora do museu mantêm viva na memória a história em cada uma daquelas salas da casa que, um dia, foi endereço de terror e tortura.

 

Revista Leituras da História Ed. 92

Adaptado do texto “Casa do terror”