O maior escândalo político dos Estados Unidos

A descoberta de um esquema de espionagem culminou na primeira renúncia de um presidente norte-americano e é considerado o maior escândalo político da história dos Estados Unidos da América. Mas seus aspectos negativos não conseguiram anular seu título de a mais fascinante história de investigação jornalística de todos os tempos

Por Thais e Silva | Foto: Fabiana Neves | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

1972 era ano de eleições presidenciais nos Estados Unidos da América. A 47ª eleição de um presidente para o país. O mandato em vigência era o de Richard Nixon, do Partido Republicano, eleito pela primeira vez em 1968, que dedicava seu tempo e o de sua equipe partidária à campanha pela reeleição. Do lado oposto estava George McGovern, senador do Partido Democrata representando o Estado de Dakota do Sul no Congresso americano e pela primeira vez aspirando ao cargo político mais importante do mundo.

 

Apesar de ter se destacado em seu partido, conseguindo a nomeação para disputar as eleições daquele ano, e de ter uma postura correta incontestável, sendo considerado pelo senador Roberto F. Kennedy o homem mais decente do senado, McGovern não conseguia agradar críticos e eleitores. Analistas políticos da época chegaram a afirmar que o senador não seria o presidente ideal, pois um homem bom não teria a postura rígida necessária para comandar um país como os Estados Unidos.

 

McGovern seguiu adiante em uma campanha associada aos movimentos do fim dos anos 1960, que apoiavam o fim da Guerra do Vietnã, além de ter um forte apelo feminista (entre eles o direito ao aborto) e por direitos de igualdade aos homossexuais. Mas nem mesmo dos democratas ele tinha suporte garantido. E outros acontecimentos, como a demissão de seu candidato à vice-presidência, Thomas Eagleton, também acabaram por arranhar sua candidatura.

 

George McGovern | Foto: Dakota Wesleyan University Archives

 

Já Richard Nixon havia ganho a simpatia de boa parte do eleitorado durante seu primeiro mandato com uma ideologia assumidamente anticomunista. E para garantir a reeleição, além de fortalecer seu perfil populista, Nixon atacava claramente seu opositor, chegando a dizer que McGovern  era o candidato dos três AAA: ácido (drogas), anistia e aborto.

 

Até então, era observado um cenário comum em qualquer país de regime democrático em ano de eleições. Mas os acontecimentos que se sucederam transformaram esse processo eleitoral no maior escândalo político da história dos Estados Unidos.

 

Richard Nixon | Foto: Charles Tasnadi/Associated Press

 

 

A invasão

Era madrugada do dia 17 de junho de 1972, cinco meses antes das votações presidenciais, quando um grupo de cinco homens vestindo terno e gravata arrombou e invadiu a sala em que funcionava o Comitê Nacional do Partido Democrata, localizada no Edifício Watergate, em Washington. O edifício, que na verdade se tratava de um complexo, além de abrigar os comitês dos partidos Democrata e Republicano, incluía ainda um hotel, salas comerciais, unidades residenciais e lojas.

 

O objetivo do grupo invasor era descobrir documentos e grampear telefones para usar as informações confidenciais do partido Democrata como chantagem política. Os ex-agentes Eugenio Martinez e Bernard Barker, que fizeram parte de operações para a deposição do regime comunista de Fidel Castro, estavam entre os invasores. Os cinco integrantes do grupo eram todos  ex-membros da Agência Central de Informações (CIA) e com experiência em operações secretas, já que participaram de algumas durante o governo de John Kennedy.

 

Mas o plano, comandado pelo diretor do comitê para a reeleição do presidente Nixon, James McCord, e pelo ex-agente da CIA G. Gordon, falhou. Denunciados pelo vigia do prédio, os cinco homens foram pegos pela polícia fotografando documentos  e mexendo em equipamentos eletrônicos de escuta.

 

Edifício Watergate | Foto: Divulgação

 

Em 18 de junho, um dia após a invasão, o jornal Washington Post noticiou o acontecimento. O mesmo fizeram os principais veículos de comunicação dos Estados Unidos e do mundo. Mas, por falta de provas mais concretas que envolvessem membros mais importantes do Partido Republicano, o caso foi abafado e rapidamente caiu no esquecimento  da população.

 

O escândalo não foi o suficiente para impedir a reeleição de Nixon, que se deu em 7 de novembro daquele ano. A eleição presidencial de 1972 teve uma baixíssima participação dos eleitores (considerando que a votação  nos Estados Unidos é facultativa), com apenas 55% do eleitorado comparecendo às urnas. A vitória de Nixon sobre McGovern foi esmagadora. O presidente eleito teve maioria de votos em 49 Estados, contra dois de seu oponente. Apenas Massachusetts  e Distrito de Colúmbia elegeriam o candidato democrata.

 

 

A investigação

Intrigados com o acontecimento e pouco satisfeitos com as informações até então divulgadas pela imprensa, dois repórteres do Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, com o respaldo do editor Benjamin Bradlee, decidiram dar continuidade às investigações. No dia seguinte ao ocorrido, ao visitarem o comitê do Partido Democrata  no Edifício Watergate em busca de pistas deixadas pelos invasores, lá eles encontraram uma caderneta com o  nome de um assessor da Casa Branca e com as iniciais “W. House”. Apesar de a sigla não garantir nada, pois poderia se referir a qualquer estabelecimento comercial, a coincidência instigou ainda mais a ânsia dos repórteres por desvendar o caso. Ainda no início das investigações, a dupla também descobre que um dos invasores possui o nome na folha de pagamento do comitê de reeleição de Richard Nixon.

 

Com o passar dos meses, a cobertura do caso Watergate se aprofundava. A  dupla de repórteres assinou uma série matérias que colocavam em dúvida a transparência e a legalidade da campanha de Nixon. Trechos como “uma dominância pessoal do presidente sobre uma campanha maciça de espionagem política, sabotagem e atividades ilegais contra opositores reais ou imaginários”, escritos por Woodward e Bernstein, estamparam páginas do Washington Post.

 

Nixon deixa a Casa Branca em consequência do caso Watergate

 

Durante todo o período de apuração, dezenas de fontes foram ouvidas. A identidade da mais importante delas, um funcionário de alta patente da polícia  federal americana, o FBI, foi mantida em absoluto sigilo e, na época, ficou conhecida como Garganta Profunda (Deep Throat). Seria dessa fonte a dica crucial para que a dupla chegasse à Casa Branca: “Sigam o rastro do dinheiro.” Ele sabia que as notas usadas para pagar o arrombamento podiam ser identificadas pelos números de série. E esse dinheiro tinha sido doado para a campanha eleitoral de Nixon.

 

A investigação do Washington Post durou cerca de um ano e meio e foi determinante para o desfecho do caso. Uma das principais descobertas do periódico foi que assessores de Nixon eram responsáveis por um esquema de espionagem política para favorecê-lo nas eleições.

 

 

A demissão

Após as denúncias publicadas pelo jornal, o restante da imprensa e a população americana passaram a cobrar uma investigação oficial do caso e, então, foi criada uma comissão no Senado para ouvir os envolvidos e testemunhas. Em um dos depoimentos, o advogado da Casa Branca assumiu o esquema de espionagem. Foi quando a Corte Suprema dos Estados  Unidos ordenou que gravações de telefonemas realizados pelo presidente Nixon e sua equipe em seu escritório oficial – o Salão Oval – durante toda a campanha eleitoral fossem  entregues à comissão. Essas gravações revelaram que Richard Nixon estava ciente de todo o esquema, inclusive  da invasão ao comitê do Partido  Republicano para a instalação de grampos nas linhas telefônicas.

 

Em 9 de agosto de 1974, Richard Nixon renunciou à presidência, desculpando- se por “qualquer dano que tenha causado ao país”. Seu vice, Gerald Ford, assumiu o comando dos Estados Unidos e perdoou oficialmente o ex-presidente por todo o ocorrido no caso Watergate, livrando-o de ser submetido a um julgamento.

 

Há quem diga que a imagem de Richard Nixon se esfacelou, resultando em sua renúncia em 1974, não pelo fato em si, mas sua incansável tentativa de encobrir o caso é que colocou em xeque sua integridade e competência para continuar no cargo político mais importante do mundo.

 

Carta de renúncia de Richard Nixon | Foto: U.S. National Archives

 

 

Três décadas de sigilo…

Durante 33 anos a identidade de Garganta Profunda foi mantida em sigilo. Apenas em 2005 o informante das ilegalidades na campanha de Richard Nixon, W. Mark Felt, então vice-diretor do FBI, decidiu mostrar o rosto e desfazer o maior segredo do jornalismo de todos os tempos.

 

Havia algum tempo que Felt estava  investigando irregularidades na campanha de Nixon e desconfiava de que ele poderia estar envolvido, entre outros esquemas de subornos e espionagem, no arrombamento do comitê do Partido Democrata. Os encontros secretos entre Felt e o repórter Bob Woodward, em que o informante contava tudo o que o FBI descobrira sobre o caso, além de confirmar ou negar fatos descobertos pelos jornalistas, aconteceram durante quase dois anos. Manter a identidade de Felt no mais absoluto sigilo foi um pedido dele aos jornalistas.

 

W. Mark Felt, o Garganta Profunda | Foto: Justin Sullivan/Getty Images

 

Na época da revelação, em 2005, Garganta Profunda tinha 91 anos de idade e sua identidade foi mostrada a pedido dele por seu advogado, John D. O’Connor. A própria família de Felt, que o convenceu a desvendar o segredo, desconhecia seu envolvimento com o caso Watergate, tendo descoberto apenas três anos antes, em 2002.

 

 

Saiba +

Todos os Homens do Presidente (All The Presidents Men). Direção: Alan J. Pakula. Distribuidora Warner Home Video. 1976. (Filme)

O Homem Secreto – A História da Garganta Profunda de Watergate, de Bob Woodward. Editora Rocco, 2005. (Livro)

 

 

Adaptado do texto “Imprensa: ânsia pela verdade”

Fotos: Revista Leituras da História Ed. 59