Conheça o mundo subterrâneo de Paris

Considerada uma das cidades mais visitadas do planeta, a capital francesa esconde uma versão subterrânea conhecida por poucos(sobretudo entre aqueles com sangue frio para descer alguns metros abaixo do nível da rua em busca de ossadas expostas em corredores estreitos de pouca iluminação). É sob o cobiçado cenário europeu de ícones arquitetônicos e dezenas de museus com acervos históricos importantes que se localizam Les Catacombes (“As Catacumbas”, em português)

Texto e fotos: Eduardo Vessoni | Adaptação web Caroline Svitras

 

Esse ossário municipal criado no fim do século 18 abriga dois quilômetros de corredores e salas subterrâneas onde repousam os restos mortais de, aproximadamente, 6 milhões de pessoas que começaram a ser depositados no local a partir de 1785. Atualmente, esse acervo esquelético dá forma a impressionantes paredões com crânios e ossos humanos abertos à visita pública, a 20 metros abaixo do nível da rua.

 

O aviso na entrada, onde se lê Arrête, c’est ici l’empire de la mort (“Pare, este é o império da morte”, em português), adianta o teor de todo o percurso que é feito em longos e claustrofóbicos 45 minutos debaixo da terra.

 

 

Questão de saúde pública

Antes mesmo de se tornar uma macabra atração turística de Paris, o local surgiu devido a urgências sanitárias. No fim do século 18, o Cemitério dos Santos Inocentes (cimetière des Saints-Innocents) que ficava no bairro de Les Halles – e era o mais importante da cidade – já tinha quase dez séculos de uso e dava sinais de esgotamento. Seu terreno era uma área infectada que preocupava a população dos arredores do centro da cidade.

 

Arrête, c’est ici l’empire de la mort (“Pare, este é o império da morte”)

 

Naquela época, a cidade de Paris contava com 200 cemitérios, fora os mortos enterrados dentro das igrejas. Segundo uma lei datada do período do Império Romano, os locais de descanso dos mortos deveriam ficar na periferia de Paris. No entanto, com o crescimento da cidade, os cemitérios passaram a integrar a área urbana e se tornaram locais de reunião de prostitutas, mendigos e ladrões. Além disso, com tantas epidemias, fome e guerras, a cidade já não tinha mais lugar para enterrar seus mortos e os cemitérios passaram a ser focos de infecção.

 

A situação de Paris era insalubre! Estima-se que nos seus últimos 30 anos de atividade, 80 mil cadáveres tenham sido depositados no Cemitério dos Santos Inocentes.

 

 

“Tombe-Issoire”

A mesma pedreira de calcário abandonada da era romana que um dia serviu de matéria-prima para a construção de Paris acabaria se tornando, em 1785, o endereço de depósito de cadáveres que já não tinham mais lugar naquele cemitério parisiense tradicional. Após as constantes reclamações de moradores vizinhos e a decisão do Conselho de Estado (por meio do decreto de 9 de novembro de 1785), o novo local de 11 mil m² passaria a receber os restos mortais provenientes de todos os cemitérios de Paris até 1860.

 

Área da antiga pedreira Tombe-Issoire, local que fica antes do acesso ao ossário

 

A transferência noturna de ossos provenientes de mais de 150 cemitérios para a pedreira Tombe-Issoire, onde se localizam as atuais catacumbas, era realizada por padres vestidos de branco que entoavam cantos fúnebres (o ofício dos mortos) enquanto arrastavam carroças com os restos mortais cobertos por véus negros. O sinistro traslado dos ossos provenientes do Cemitério dos Santos Inocentes levou dois anos para ser concluído, entre 1786 e 1788, e teve início com um ritual em que religiosos abençoavam o local antes de assumir sua nova função.

 

No entanto, aqueles corredores subterrâneos começaram a ter sua história escrita nos anos iniciais do primeiro século da Era Cristã. O mar tropical que cobrira a região de Paris há 45 milhões de anos deixara, como herança, uma sequência de sedimentos que se transformaria mais tarde em rochas utilizadas para a construção da própria cidade, conhecida, então, como Lutécia – o nome romano original de Paris. Foi dali que teria saído a matéria-prima para a construção de clássicos parisienses como a Catedral de Notre Dame e o edifício que abriga o Museu do Louvre.

 

Inicialmente amontoados de forma desorganizada, os ossos passariam a ser expostos como o de um acervo macabro de museu somente a partir de 1810, quando sob os cuidados do inspetor geral da pedreira, Héricart de Thury. O Visconde de Thury, como era conhecido, foi o responsável pela arrumação digna do descanso eterno dos cadáveres. Ele decide dar a esses anônimos uma decoração sombria e melancólica, com os ossos maiores e crânios alinhados de maneira decorativa, atrás dos quais os esqueletos continuaram depositados sem ordem.

 

Acesso aos corredores, onde se lê Arrête, c’est ici l’empire de la mort (“Pare, este é o império da morte”, em português)

 

Entre aquele amontoado de peças não identificadas, acredita-se que estejam expostos os restos de figuras como o escritor e médico renascentista François Rabelais, morto nos primeiros anos da segunda metade do século 16; o criador de fábulas Jean de la Fontaine, que faleceu em Paris no fim do século 17; e o arquiteto barroco Jules Hardouin-Mansart, morto em 1708. Durante os anos da Revolução Francesa, entre 1789 e 1799, os corpos assassinados e massacrados eram depositados diretamente no local.

 

 

Outra face da Cidade Luz

Desde o início do século 19, as Catacumbas são locais de turismo. Elas já acolheram, inclusive, visitantes famosos, como o imperador austríaco Francisco I, em 1814, e até Napoleão III, que levou o filho para passear ali em 1860.

 

Hoje, as Catacumbas de Paris detêm o título de maior necrópole do mundo, com seis milhões de ossadas. A visita começa entre as ruínas da antiga pedreira que ainda preserva trechos sob a atual avenida René Coty, onde é possível ler inscrições que fazem referências às vias construídas na parte superior, e as salas com pilares feitos em rochas sobrepostas que formavam o teto local. Alguns daqueles códigos até podem soar como alguma pista secreta para visitantes aficionados pelo tema, mas não passam de referências utilizadas durante a construção local como o enigmático 5.J.1847 (o quinto pilar de uma série feita em 1847 sob as ordens do inspetor Juncher).

 

Entrada no nível da rua

 

O percurso é composto por 1,7 km de galerias a 20 metros de profundidade. Não há banheiros. É aconselhável levar um agasalho mesmo no verão, pois as temperaturas no local giram em torno de 14 °C. O que se vê a seguir é um impressionante labirinto semi-iluminado de ossos dispostos de forma cenográfica e salas temáticas como a “Tumba de Gilbert”, sarcófago em homenagem ao escritor; a “Cripta da Paixão”, um pilar de sustentação encoberto com crânios e tíbias que parecem formar um barril de restos humanos; e a única lápide local com os restos de Françoise Géllain.

 

Algumas salas funcionam também como área de exibição temporária como o espaço que abrigou, até março de 2014, a exposição La Mer à Paris (“O mar em Paris”), sobre os aspectos geológicos do período em que a região esteve coberta pelo mar, há 45 milhões de anos. Dividida em quatro partes, a exposição abriga mapas paleogeográficos, fotografias, desenhos e gravuras. As filas dos fins de semana costumam dar a volta no quarteirão e assustam os viajantes mais apressados, mas, quando o visitante cruza as estreitas portas escuras de ferro da entrada dá início a uma das experiências históricas mais inusitadas da popular capital da França. Um certo alívio para quem já conhece bem endereços mais óbvios de Paris (inclusive para os que nunca estiveram por ali).

 

Cripta da Pequena Capela

 

As catacumbas e suas minúcias

Galeria de Port-Mahón: 
É uma obra esculpida nas paredes das Catacumbas. O autor é um veterano do Exército de Luís XV, um pedreiro chamado Décure. Ele talhou uma maquete da fortaleza de Mahón, a principal cidade de Menorca, nas Ilhas Baleares (Espanha), onde foi prisioneiro dos ingleses durante um bom tempo.

 

Revolta na fábrica de Réveillon, 28 de abril de 1789:
Os mortos de alguns combates e revoltas da Revolução Francesa são enterrados diretamente nas Catacumbas. É o caso das vítimas da Revolta na fábrica de Réveillon e do Combate do Palácio de Tuileries, este último ocorrido em agosto de 1792 e também marcado com uma placa no ossário.

 

Lâmpada sepulcral: 
É o primeiro monumento erguido nas Catacumbas. É uma coluna com um vaso de formato antigo, onde uma chama permanecia acesa. Servia para velar os mortos, mas também como um antigo sistema de ventilação, já que por causa das ossadas o ar poderia se tornar irrespirável.

 

 

Lâmpada sepulcral | Foto: ©Ph. Ladet / Mairie de Paris

 

Cripta da Paixão:
É um pilar de sustentação coberto por crânios e tíbias e que possui a forma de um barril. Em 2 de abril de 1897, entre meia-noite e duas horas da manhã, foi celebrada ali uma festa macabra, em que participaram intelectuais, artistas e algumas pessoas da burguesia. O evento clandestino foi realizado graças à cumplicidade dos trabalhadores do local, despedidos assim que a festa foi descoberta.

 

Tumba de Gilbert:
É uma obra em forma de um sarcófago, onde estão escritos os versos melancólicos do poeta Gilbert, morto em 1780 e que, no entanto, não está enterrado ali.

 

 

Adaptado do texto ” Les Catacombes”

Revista Leituras da História Ed.63