De Adam Smith a Marx: entenda o conceito de trabalho

A sociedade de consumo implantada pelo advento do capital determina o tipo de trabalhador necessário para executar a produção dos bens, dentro de um contexto econômico, político e social

Por  José Calixto Sousa Filho | Fotos retiradas da Revista | Adaptação web Caroline Svitras

Para os economistas clássicos o trabalho humano é gerador de riqueza. Adam Smith em seu livro Riqueza das Nações coloca o trabalho como essencial para a produção de bens. Com sua teoria sobre a divisão do trabalho, ele ainda cria o conceito de especialização, cujo resultado é o aumento de produtividade. O conceito defendido por ele tem como consequência o aumento da destreza pessoal, economia de tempo e condições mais favoráveis para que os trabalhadores inventem ou aperfeiçoem máquinas e instrumentos que lhes poupem esforços. Ele ilustra sua tese dando como exemplo a fabricação de alfinetes: “Tomemos, pois, um exemplo, tirado de uma manufatura muito pequena, mas na qual a divisão do trabalho muitas vezes tem sido notada: a fabricação de alfinetes. Um operário não treinado para essa atividade, nem familiarizado coma as máquinas ali empregadas…, dificilmente poderia fabricar um único alfinete, em um dia, empenhando o máximo de trabalho; de qualquer forma, certamente não conseguirá fabricar vinte. Entretanto, da forma como essa atividade é hoje executada, não somente o trabalho todo constitui uma indústria específica, mas ele está dividido em uma série de setores, dos quais, por sua vez, a maior parte também constitui provavelmente um ofício especial. Um operário desenrola o arame, um outro o endireita, um terceiro o corta, um quarto faz as pontas, um quinto o afia nas pontas para colocação da cabeça do alfinete (…). Assim, a importante atividade de fabricar alfinetes está dividida em aproximadamente 18 operações distintas, as quais, em algumas manufaturas, são executadas por pessoas diferentes, ao passo que em outras, o mesmo operário às vezes executa duas ou três delas. Vi uma pequena manufatura desse tipo, com apenas 10 empregados, e na qual alguns desses executavam duas ou três operações diferentes. Mas embora não fossem muitos hábeis… conseguiam, quando se esforçavam, fabricar em torno de 12 libras de alfinetes por dia. Ora, 1 libra contém mais de 4 mil alfinetes de tamanho médio. Por conseguinte, essas dez pessoas conseguiam produzir entre elas mais do que 48 mil alfinetes por dia. Assim, já que cada pessoa conseguia fazer um décimo de 48 mil alfinetes por dia, pode-se considerar que cada uma produzia 4.800 alfinetes diariamente. Se, porém, tivessem trabalhado independentemente uma da outra, e sem que nenhuma delas tivesse sido treinada para esse ramo de atividade, certamente cada uma não teria conseguido fabricar 20 alfinetes por dia…”.

 

Dessa forma, Smith também destaca a importância da especialização como elemento desencadeador da produtividade, que pode ser obtida com o treinamento do operário. Ele coloca outro elemento importante para geração de riqueza a partir do trabalho humano: a proporção de trabalhadores produtivos em relação aos improdutivos. Estes dois termos são de fundamental importância para a valorização do trabalho por todo período clássico e ainda tem desdobramentos nos dias atuais.

 

Embora a definição de trabalho produtivo e improdutivo pelos economistas clássicos tenha criado muita polêmica, John Stuart Mill, na obra Princípios de Economia Política, Volume I, esclarece ambos os conceitos: “O trabalho é indispensável para a produção, mas nem sempre tem por efeito a produção. Há muitos trabalhos, e de um alto grau de utilidade, que não tem por objetivo a produção. Eis por que o trabalho foi dividido em produtivo e improdutivo. Grande tem sido a controvérsia entre os autores de Economia Política sobre que tipos de trabalho devem ser considerados improdutivos… Muitos autores têm hesitado em classificar como produtivo somente o trabalho cujo resultado é palpável em algum objeto material, capaz de ser transferido de uma pessoa para outra. Outros há (entre eles o Sr. Mcculloch e o Sr. Say) que, considerando a palavra improdutivo como um termo depreciativo, recusam-se a empregá-lo para qualquer trabalho que seja útil, que produz um benefício ou um prazer que valha o custo”.

 

Pela definição de Mill, fica claro que trabalho produtivo é aquele intrinsecamente ligado à produção, gerador de um produto material que pode ser trocado, transferido para outra pessoa e que ainda gera riqueza, conceito relacionado à posse de bens materiais que possam ser acumulados e também transferidos a terceiros, portanto suscetíveis à troca. Por sua vez, a controvérsia sobre trabalho produtivo e improdutivo fica restrita aos serviços de forma geral, já que não existe discórdia sobre o que é trabalho produtivo enquanto gerador de um bem material – um produto manufaturado que poderá ser acumulado como riqueza material. Já os serviços não produzem bens tangíveis, capazes de serem acumulados. Apesar de serem considerados úteis, eles não geram riqueza material. Por isso, entre os economistas clássicos a prestação de serviços é considerada improdutiva, salvo os serviços que contribuem para a produção de bens materiais. Mill discorre sobre o assunto, dizendo que, “eis por que, neste tratado, quando falar em riqueza, entenderei somente o que denomina riqueza material, e por trabalho produtivo entenderei somente aqueles tipos de atividades que produzem utilidades incorporadas em objetos materiais. Entretanto…, não recusarei o qualificativo de produtivo ao trabalho que não proporciona nenhum produto material como seu resultado direto, contanto que tenha como sua última consequência um aumento de produtos materiais”. Na lista de trabalhos úteis de Mill que são indiretamente produtivos destacam-se os trabalhadores da educação, da medicina, dos transportes, do comercio e dos negócios.

 

Sociedade de consumo

 

“Em contrapartida, por trabalho improdutivo entender-se-á o que não termina em riqueza material; um trabalho que, por maior que seja a intensidade e o êxito com que é praticado, não torna a comunidade e o mundo em geral mais rico em produtos materiais, e sim mais pobres, devido a tudo o que é consumido pelos trabalhadores enquanto neles estejam engajados. Na linguagem da economia política, é improdutivo todo trabalho que termina no prazer imediato… O trabalho de salvar a vida de um amigo não é produtivo, a menos que o amigo seja um trabalhador produtivo”, ressalta Mill, que ainda cita como exemplos de profissões consideradas improdutivas, destituídas de valor por produzirem um efeito imediato impossível de ser acumulado o trabalho do ator, do músico, do declamador, do juiz, do legislador, do exército etc.

 

Trabalho infantil na História

 

Outro economista importante do século 20, Marx desenvolve o conceito de trabalho produtivo e improdutivo, considerando produtivo todo trabalho que gera mais valia – o trabalho que se utiliza para fazer um produto, mais concretamente uma mercadoria que poderá ser utilizada no processo de troca.  Do ponto de vista do processo capitalista de produção, este é o trabalho produtivo, que valoriza diretamente o capital, o que produz a mais valia que se realiza quando o trabalhador não recebe pelo trabalho, mas sim pela força de trabalho. Discordando dos clássicos, Marx reforça a ideia de trabalho produtivo para outros trabalhos não ligado direta ou indiretamente a produção e cita o exemplo do professor que trabalha de forma assalariada em uma escola. Assim, ele mostra que tal trabalho é explorado pelo capitalista, dono da escola, e ainda acrescenta que é o professor que enriquece o proprietário dela: “A produção Capitalista não é apenas produção de mercadorias, ela é essencialmente produção de mais valia. O trabalhador não produz para si, mas para o capital. Por isso não é mais suficiente que ele apenas produza. Ele tem de produzir mais valia. Só é produtivo o trabalhador que produz mais valia para o capitalista, servindo assim a autoexpansão do capital. Utilizando um exemplo fora da esfera material: um mestre escola é um trabalhador produtivo quando trabalha não só para desenvolver a mente das crianças, mas também para enriquecer o dono da escola. Que este inverta seu capital numa fábrica de ensinar, em vez de numa de fazer salsicha, em nada modifica a situação. O conceito de trabalho produtivo não compreende apenas uma relação entre atividade e efeito útil, entre trabalhador e produto do trabalho, mas também uma relação especificamente social, de origem histórica, que faz do trabalhador o instrumento direto de criar mais valia. Ser trabalhador produtivo não é nenhuma felicidade, mas um azar”.

 

De qualquer forma, os termos produtivo e improdutivo, adjetivando trabalho, fazem diretamente uma distinção do trabalhador útil para a sociedade capitalista. Somente o trabalhador produtivo será valorizado socialmente e a inserção social é consequência do valor do trabalho executado individualmente.

 

Revista Leituras da História Ed. 65

Adaptado do texto “Febre do consumo”