De onde vêm os ditos populares?

Eles fazem parte da nossa cultura, são usados de forma metafórica e, algumas vezes, podem surgir carregados de sarcasmo. Certamente já foram utilizados por todos em situações em que se pretendia se fazer entender em poucas palavras. Linguisticamente, os ditados populares são, na verdade, expressões de forte conteúdo semântico e poder comunicativo

Por Ávany França | Foto: Shutterstock| Adaptação web Caroline Svitras

 

Máximas, ditados populares, aforismos, adágios, suas denominações são inúmeras e até a própria Bíblia dispõe de um livro especialmente dedicado a eles: o Livro dos Provérbios. A pergunta é: de onde eles surgiram? Como foram iniciados? Seria a expressão “com a corda toda” compreendida em diferentes continentes? Alguém realmente foi “salvo pelo gongo”, ou mesmo ficou “pescoço a pescoço” durante uma competição? Esses são apenas alguns exemplos de ditados populares proferidos nos quatro cantos do planeta. Alguns possuem entendimento comum em diferentes países, outros não farão sentido algum quando ditos fora do contexto social a que pertencem. Todavia, eles têm sido, ao longo da trajetória humana, um elemento de comunicação da sabedoria popular.

 

“A cabin with plenty of food is better than a hungry castle.” 

 

Em uma tradução livre, temos “uma pequena cabana com comida é melhor do que um castelo esfomeado”. Se esse ditado popular for proferido no Brasil, certamente o receptor não conseguirá entender a “mensagem”, isso porque, nesse caso, o ditado está diretamente relacionado ao contexto histórico irlandês, em que, entre os anos de 1840 e 1845, cerca de 2 milhões de irlandeses foram vitimados pela fome. Para esse povo, o aforismo faz todo o sentido, uma vez que com a praga da batata todos acabaram sendo atingidos, mesmo os que moravam em imponentes castelos.

 

Os fazendeiros pobres, no entanto, que viviam em pequenas cabanas, mantinham uma pequena reserva de batatas e conseguiam amenizar a fome por um tempo maior do que aqueles que eram mais abastados e dependiam dos suprimentos alimentares vindos do campo. Vem daí a expressão sarcástica, aliás, o sarcasmo é uma característica forte no ethos irlandês.

 

Outra figura que marca presença nos ditados irlandeses são os cavalos. É comum escutar em conversas corriqueiras comparações com o animal equino. Um dos mais populares é o “Neck and neck”, traduzindo-se, “pescoço e pescoço”. Cabe observar que esse ditado é empregado cada vez que se tem como objetivo indicar que dois competidores estão na mesma posição de liderança, fazendo alusão às competições de cavalos, muito populares no país.

 

“pescoço e pescoço” – ditado empregado cada vez que se quer indicar que dois competidores estão na mesma posição

 

Alguns provérbios possuem alto poder de comunicação, sendo capazes, inclusive, de transpor barreiras froteiriças. É o que acontece com a expressão popular “não ponha a carroça na frente dos bois”, que no país europeu substituem-se os bois por cavalos. Independentemente dessa substituição, o significado é o mesmo: evite alterar a curso natural das coisas.

 

 

Influências do latim

Muitos ditados possuem origens no latim. Um dos mais populares diz o seguinte: “Homines sunt ejusdem farinae.” Em português, é o famoso “são todos farinha do mesmo saco”. A expressão é utilizada para acusar um comportamento inadequado de uma pessoa, comparando-a com alguém que teria a mesma atitude, uma vez que a farinha de boa qualidade é sempre colocada separadamente da farinha de qualidade inferior.

 

Tito Lívio, Patavinismo e Patavium

Todos esses elementos estão conectados a um provérbio italiano que acabou chegando ao Brasil: “Não entender patavinas”. Tito Lívio foi uma figura importante em seu tempo e um exímio escritor, o que lhe garantiu reconhecimento, principalmente pelo seu trabalho como historiador. Entretanto, sua oratória destoava completamente da sua escrita e somente uma minoria era capaz de entender seu latim carregado, proveniente da região de Patavium (atualmente cidade de Pádova, na Itália). O resultado foi o surgimento do ditado que faz referência a não compreensão do sotaque da cidade italiana.

 

 

Herança portuguesa

Assim como outras heranças trazidas pelos portugueses durante a colonização, alguns ditados populares também acabaram sendo incorporados à nossa realidade. Entre eles, temos a famosa “casa da mãe Joana”. Para entender o termo, antes de adentrar o contexto português, faz-se necessário um breve “passeio” por Avion, França, entre os anos de 1326 e 1346, onde Joana, rainha de Nápoles, teria refugiado-se.

 

Com apenas 21 anos de idade, a jovem regulamentou os bordéis da cidade e uma de suas frases famosas dizia: “O lugar terá uma porta por onde todos possam entrar.” Com o passar do tempo, a fama de Joana acabou chegando a Portugal, que incorporou a expressão passando a chamar os prostíbulos portugueses de “paços da mãe joana”. Essa expressão foi a que, mais tarde, deu origem ao aforismo “casa de mãe Joana”, incorporado ao linguajar brasileiro, que ainda hoje designa um local, não necessariamente um bordel, onde todos têm liberdade para fazer o que bem entenderem.

 

“Ficar a ver navios” – Herdado de terras lusitanas, o ditado faz alusão ao rei de Portugal, dom Sebastião, que após lutar bravamente na Batalha de Alcater- Quibir (1578) morrera, em jamais o seu corpo ter sido encontrado. Muitos portugueses passaram a esperar embarcações do Alto de Santa Catarina, em Lisboa, na esperança do retorno do seu rei, mas ficavam a ver navios… | Foto: Ávany França

 

Agora, o que teria o arroz a ver com uma figura festeira? A expressão “arroz de festa” também tem sua origem em terras portuguesas, que têm o grão esbranquiçado na maioria dos cardápios e também nas celebrações. O fato do arroz estar presente nesses momentos acabou sendo associado aos festejos: se tem festa, tem que ter arroz. Nas festas de casamentos portugueses, por exemplo, além da tradicional chuva do grão lançada sobre os noivos, também é servido um banquete com diferentes receitas contendo o alimento, daí o porquê de se associar a pessoa que não dispensa um festejo a “arroz de festa”.

 

Na obra Adagios Portuguezes Reduzidos a Lugares Communs, o escritor português Antonio Delicado catalogou mais de 4 mil provérbios portugueses. Escrito em 1651, é uma das coletâneas mais ricas sobre a relevância dos ditados populares na sociedade portuguesa, traduzindo, assim, o contexto no qual o país estava inserido naquela época; isso inclui suas ideologias e reações naturais das ações humanas manifestadas, muitas vezes, por meio dos ditados populares. Muitos desses provérbios acompanharam a Corte portuguesa quando ela desembarcou no Brasil. Assim, sátiras feitas a vícios da época, educação moral, ideologias e estrangeirismos acabaram sendo incorporados na sabedoria popular do povo brasileiro. No livro, Delicado não só aponta os provérbios lusitanos mais populares, como também faz um mapeamento rigoroso de suas origens e influências da cultura árabe, espanhola e de alguns preceitos antigos.

 

 

Preceito moral, intelectual ou ideológico?

Os ditados da sabedoria popular, muitas vezes, também desempenham o papel de dizer o que se pensa nas entrelinhas. O termo “dar com os burros n’água” é um exemplo clássico. Utilizado para se referir a alguém que tenta algo demasiadamente sem conseguir sucesso, a expressão remete ao período colonial, quando os tropeiros, que trabalhavam com cacau, ouro e café, viajavam da região Sul a Sudeste do Brasil montados em burros. A falta de estradas forçava esses animais a atravessarem regiões alagadiças e trilhas perigosas, o que ocasionava na morte de muitos deles, assim como na perda da mercadoria.

 

Outro ditado fortemente utilizado na atualidade implica na vulnerabilidade dos mais fracos ao tentarem um embate com alguém que tenha maior poder: “A corda sempre arrebenta do lado mais fraco.” A expressão é constantemente utilizada em casos judiciais em que exista uma diferença social latente entre as partes.

 

Curiosamente, alguns adágios surgem de ações corriqueiras, não necessariamente estando ligado a fatos históricos que, com o passar do tempo, podem perder o sentido naturalmente. Todavia, a maioria deles continua a fazer parte das rodas populares, como acontece com o ditado “com a corda toda”. No passado, os brinquedos eram basicamente manipulados por meio de cordas; quando se fazia necessário “dar corda” no objeto para que ele pudesse se movimentar. Com as novas tecnologias, a ação de dar corda caiu em desuso, porém, o dito popular continua sendo utilizado quando a intenção é indicar que a pessoa está cheia de energia ou quando se dá liberdade demasiada a alguém para fazer algo.

 

No século 19, a catalepsia se tornou uma patologia comum na Inglaterra e, com a escassez de cemitérios e a necessidade latente de remover os corpos para inserir outros defuntos nas covas, notava-se que alguns haviam sido enterrados vivos. Como a medicina era limitada e os diagnósticos quase inexistentes, para evitar que outros que sofriam da mesma doença fossem enterrados vivos, começou-se o costume de deixar, propositadamente, um buraco no caixão. Por esse buraco, uma linha conectava o braço do defunto a um sino instalado próximo à cova; caso ele acordasse ou se mexesse, seu movimento faria o sino ecoar. Assim, após cada enterro, uma pessoa era designada para observar o túmulo por alguns dias, daí a expressão “salvo pelo gongo”.

 

Foto: Ávany França

 

Atualmente, o mecanismo não é mais utilizado, porém, o ditado continua sendo aplicado para contextualizar alguém que saiu de um sufoco inesperadamente. A outra versão para esse ditado também aponta para a Inglaterra. No século 17, um guarda do Palácio de Windsor teria sido acusado de dormir no posto. Porém, o guarda alegou estar tão acordado que havia escutado o sino ecoar 13 (treze) vezes naquela noite, culminando então, na expressão: “Save by the bell” (salvo pelo sino).

 

Para inglês ver” é outra expressão comumente utilizada quando se pretende manter algo apenas por aparência. O ditado teria surgido por volta de 1824, quando foi dado ao Brasil o prazo de sete anos para findar o tráfico negreiro. Imposição essa que foi feita pelos ingleses. Com a aproximação do prazo final e pouca boa vontade das autoridades brasileiras em extinguir, de fato, a escravidão no país, o ministro da Justiça da época, Padre Feijó, teria elaborado uma lei de difícil interpretação, mascarando, assim, a continuidade do sistema escravista, ou seja, uma lei criada somente “para inglês ver”.

 

Entretanto, essa não é a única explicação dada a esse adágio. A segunda versão converge para a Vila de Paranapiacaba, localizada no interior paulista. Segundo os locais, o ditado estaria relacionado à posição da casa, hoje um museu, localizada no topo da montanha mais alta do vilarejo que, durante a construção da linha férrea São Paulo Railway serviu de residência para o engenheiro inglês Frederic Mens. A vista panorâmica da casa permitia a Mens ter controle de tudo o que acontecia. Os funcionários da ferrovia teriam criado a expressão para lembrar aos demais que eles deveriam fingir estar trabalhando arduamente todas as vezes que o engenheiro os observasse do topo da montanha. Qual dessas seria a versão oficial? As duas ou talvez nenhuma delas.

 

“Remar contra a maré” – Acredita-se que a expressão tenha origem nos valores e ensinamentos chineses nos quais se fazem associações a elementos da natureza. Remar contra a maré indicaria a ação de ir contra as tendêndias da sociedade | Foto: Ávany França

 

A Parnell Street, localizada na parte central da cidade de Dublin, na Irlanda, é uma das ruas mais populares entre os brasileiros que optam pela capital irlandesa como morada. No entanto, muitos desses brasileiros desconhecem que Charles Parnell, além de dar nome à rua famosa, também tem fortes conexões com a palavra “boicote”, adágio habitualmente utilizado quando se pretende sabotar uma ação, seja ela econômica, política ou social. O “boycott”, na sua versão original, é, na verdade, uma analogia à pessoa do capitão Charles Boycott, um opressor administrador das propriedades irlandesas do século 19. Charles Parnell, por sua vez, presidente da Liga das Terras Irlandesas (na tradução livre) e um polêmico defensor das questões agrícolas, acabou incitando o povo a promover varias ações de repúdio à postura exacerbada de Boycott, fazendo com que toda a comunidade o ostracizasse. Em pouco tempo, Boycott estava completamente isolado, sem trabalhadores, ignorado em locais públicos e dos serviços essenciais. Diante do fato, o capitão desaparecera sem jamais ser visto por aquelas redondezas, já o seu sobrenome, “Boycott”, passou a ser repetido em todas as posteriores situações onde se tinha como objetivo “o boicote”. O professor de História da faculdade de Ulster, Joseph Byrne, explica que é muito comum encontrar diferentes interpretações para os ditados populares, uma vez que eles surgem naturalmente dentro do contexto popular. “Não há regras ou a necessidade de intelectualidade. O princípio básico do dito popular é sintetizar o que foi dito em muitas palavras ou mesmo externar um conselho ou uma lição de moral para aquele momento, que quando repetido demasiadamente acaba por se tornar comum, configurando-se, assim, numa peça da sabedoria popular”, esclarece o professor.

 

A lista de adágios é incalculável. Eles se fazem presentes mesmo em culturas milenares como a Chinesa, na qual possuem importância ímpar. A Bíblia Sagrada também possui um capítulo dedicado a eles, o Livro de Provérbios, escrito no intuito de fornecer instrução moral e sabedoria.

 

Suas origens, geralmente, são difíceis de serem mapeadas, carregados de sociologismos, historicismos e relativismos eles vão se entrelaçando no vocabulário popular. No entanto, sejam eles explicáveis ou não, sob o termo de ditados populares, máximas, adágios ou provérbios, eles representam efetivamente a sabedoria popular transmitida em poucas palavras. Assim como bem traduziu Benjamin Franklin: “Os provérbios são pedaços da sabedoria que, bem digeridos, proporcionam excelente nutrição ao espírito.”

 

 

Adaptado do texto “A sabedoria popular… De forma curta e grossa!”

Revista Leituras da História Ed. 64