Destruição do patrimônio sírio

O aniquilamento de inúmeros monumentos históricos erguidos por povos que ocuparam o território sírio em um passado distante deixou o mundo estarrecido

Por Morgana Gomes | Foto: Abdalrhman Ismail | Adaptação web Caroline Svitras

Ruínas do Grande Bazar da antiga Allepo, em imagem de 2014

 

Além da inegável perda de vidas que nunca será reparada, quando a grande mídia cita a destruição do patrimônio histórico sírio, ela sempre evidencia Palmira, Allepo, Hatra e Nimrud (atualmente, em área que pertence ao Iraque), centros de importância histórica incontestável, mas esquecem de dizer que o país tem mais de 900 sítios arqueológicos afetados, danificados ou totalmente aniquilados, isso sem contar os monumentos que também sofreram danos, muitas vezes, irreversíveis.

 

O interessante nessa história desoladora é que, apesar dos jihadistas considerarem idolatria qualquer arte ou construção pré-islâmica, eles, junto a outros sírios inescrupulosos, entre os quais alguns contrários ao governo, encontraram uma boa fonte de renda, pois todos recorrem ao mercado negro para obter lucro fácil com tesouros arqueológicos saqueados, desprezando toda a história do próprio território em que vivem. Portanto, há inúmeros percursos para começar essa viagem, na maioria das vezes, restrita a ruínas que já não podem traçar o caminho da humanidade. Mas como listá-los na totalidade é uma missão quase que impossível, selecionamos uma amostra de apenas seis lugares que exemplificam tudo que já foi destruído em termos de compreensão do passado.

 

 

À primeira vista
Imagem de março de 2014, período em que a força aérea síria bombardeou o Krak des Chevaliers | Foto: APSA

 

Já que os embates na Síria são fundamentados, entre outros aspectos, pela religião imposta pelos extremistas radicais, nossa excursão vai começar a 65 km a oeste da cidade de Homs, perto da fronteira com o Líbano, exatamente no Krak des Chevaliers, originalmente construído pela Ordem Hospitaleira de S. João de Jerusalém entre 1142 e 1271. O castelo que garantiu um lugar na lista de Patrimônio Histórico Mundial da Unesco em fevereiro de 2014, graças a sua arquitetura e afrescos, era tido como um dos melhores exemplos de preservação do período das Cruzadas. Havia motivos para tanto. Entre outros, em 1272, durante a nona cruzada, o rei Eduardo I visitou o local e se inspirou nele para construir seus próprios castelos, tanto na Inglaterra quanto em Gales. Bem depois, já no século 20, Thomas Edward Lawrence, o Lawrence da Arábia, descreveu o Krak des Chevaliers como “o castelo mais admirável do mundo”.

 

 

Próxima parada

É chegado o momento de conhecer a Fortaleza ou Cidadela de Saladino, reconhecida também na lista de Patrimônio Histórico Mundial da Unesco, que fica a cerca de 30 km ao norte da cidade de Lataquia. De origem bizantina, ela passou por várias transformações e fortificações entre os séculos 12 e 13. Contudo, sua principal característica é um canal escavado na rocha, que tem 28 metros de profundidade, 156 metros de comprimento e uma largura que varia de 14 e 20 metros.

 

 

Foto de 2004 da Fortaleza ou Cidadela de Saladino | Foto: Reprodução/Creative Commons

 

A antiga capital da província da Arábia, à época do Império Romano, sobreviveu habitada e quase intacta por cerca de 2500 anos. Localizada ao sul da Síria, perto da fronteira libanesa, por ela passaram nabateus, romanos, bizantinos e outros povos que deixaram muitos vestígios, que a transformaram em um verdadeiro museu a céu aberto, associado principalmente a episódios significativos à história de ideias e crenças.

 

Porém, um relatório de 2014, feito a partir da compilação de imagens de satélite, demonstrou que a luta extensa, bombardeios e atividades relacionadas com material militar haviam destruído muitos pontos da antiga cidade. Entre eles, enquanto o anfiteatro local era utilizado para fins militares, o telhado da mesquita Omari, que remonta ao ano de 702 a.C., além de outros edifícios e colunas em seu entorno sofreram graves danos estruturais.

 

 

Ruínas de Tell Ajaja

Localizado no alto de uma colina, a centenas de quilômetros da fronteira com o Iraque, o antigo sítio arqueológico assírio sempre foi considerado um dos mais ricos da Síria. Mas depois de ter sido ocupado pelo Estado Islâmico por dois anos, até ser liberado por grupos curdos que expulsaram os extremistas da maior parte da província de Hasake, noroeste da Síria, em fevereiro de 2016, o que restou foi um cenário repleto de objetos destruídos e grandes buracos no chão, em virtude dos roubos desmedidos. Apesar de a maioria dos tesouros de Tell Ajaja, descobertos no século 19, estar em museus sírios e no exterior, os extremistas e outros criminosos levaram objetos dos quais havia apenas indícios. Segundo afirma Jaled Ahmo, diretor de Antiguidades de Hasake, os túneis perfurados ilegalmente destruíram níveis arqueológicos inestimáveis.

 

 

Adaptado do texto “Roteiro da destruição”

Para conferir o texto na íntegra adquira a revista Leituras da História Ed. 99