Desvende a misteriosa escrita reversa de Da Vinci

Várias são as teorias, mas alguma pensa como o artista realmente gostaria?

Por Átila Soares da Costa Filho* | Fotos: Digital Millennium Copyright Act | Adaptação web Caroline Svitras

Entre tantas peculiaridades associadas ao gênio mais ou menos inconformado de Leonardo da Vinci, a mais referida é sobre seu hábito de escrever os famosos estudos de trás para frente, em sentido reverso. As mais discutidas teorias a explicar a tal escrita passam facilmente do patético ao, simplesmente, improvável. Aquela dita “memorável” seria a que se lhe quer atribuir o plano de “esconder” o conteúdo de suas ideias altamente subversivas ou inventivas dos “ladrões intelectuais” de plantão…

 

Particularmente, qualquer criança apontaria em menos de um minuto a chave para esse “grande” segredo. Tem sido, mesmo, muito popular, um tipo de diversão assim até nossos dias: levar ao espelho um texto escrito ao contrário, publicado em uma daquelas revistas de passatempo ao público infantil. Achar que pessoas adultas, estudiosas do alto clero da Igreja, da Filosofia, Política, da Geometria, da Aritmética e da Álgebra não pensaria, por um instante, na possibilidade da escrita de Leonardo estar de trás para frente é um grande escárnio para com essas grandes mentes do passado. E se, ainda assim, Leonardo quisesse insistir na empreitada, seríamos obrigados a não mais considerá-lo sequer como inteligente… uma grande heresia, sim, mas os fatos são exatamente esses.

 

Outra dessas superficiais teorias aponta para o desejo do artista, que era canhoto, em não sujar sua mão de tinta. Plausível, mas Leonardo era, essencialmente, um desenhista e pintor – aliás, hoje se sabe que grande parte do que se acreditava serem projetos seus, na verdade, eram frutos do talento de Mariano Taccola, o “Arquimedes de Siena”. Então, sujar-se em nome de algo maior – no caso, fazer nascer um texto ou obra de arte, sublimação do humano sobre o mundo material – não seria apenas consequência natural do ofício, mas um fatum e um prazer. A própria natureza ensina isso a todo tempo: não há gênese sem o sujar-se, sem o desvelar da matéria antiga, o desfazer-se do “velho cobertor”.

 

Semelhante a essa, também há quem defenda que a intenção seria “economizar” a tinta que escorreria pelo lado esquerdo da pena, ficando inutilizável no documento. Acho que, para Da Vinci, “economizar” nunca foi objeto de muita preocupação: muitos de seus magnânimos projetos atestam isso. Além de quê, em relação à tinta, em especial, ela poderia ser escolhida entre as mais baratas, abundantes e fáceis de se produzir em sua época, e por onde tenha passado.

 

Já migrando para a área médica, seus supostos problemas de dislexia apenas são mencionados justamente em razão da escrita invertida, a qual, não necessariamente, poderia vir da doença. Outras tantas personalidades canhotas (não propriamente disléxicas) não se notabilizaram de forma alguma na prática da escrita reversa, como Michelangelo, Dürer, Holbein, Napoleão, Van Gogh, Thomas Edison, Picasso, Escher, Einstein, Walt Disney. Ainda que perfeitamente viável, essa proposta não pode ser plenamente justificável, exatamente por falta de mais evidências.

 

Mais recentemente, o seriado televisivo Da Vinci’s Demons (2013), de David S. Goyer, uma versão quase onírica da Starz sobre a biografia do artista, sugeriu que, para que não se perdesse tempo com mais nada, o Leonardo executaria, aqui e ali, duas tarefas ao mesmo tempo: uma com a mão direita (como pintar uma tela, por exemplo) e outra com a esquerda (como fazer essas anotações dos Codices). Curioso, mas pouco prático, na verdade… Para tal, o artista deveria estar desviando constantemente sua atenção de uma das duas atividades, cortando-se, assim, a linha e o desenvolver de uma ideia, por exemplo. Extremamente improvável para quem tanto prezava o pensamento puro e perfeito, disciplinadamente formulado e erigido.

 

Revista leituras da História Ed. 73

Adaptado do texto “A escrita reversa”

*Átila Soares da Costa Filho é especialista em História da Arte, Filosofia e Sociologia e autor do livro A Jovem Mona Lisa (Ed.Multifoco).