El pajarito pasa…

Longe da ficção científica, o mistério dos “aviões pré-colombianos” deve se revelar bem mais místico que insólito. Eram mesmo os deuses astronautas?

Por: Átila Soares da Costa Filho* | Imagem: Fabiana Neves | Adaptação web Caroline Svitras

 

Somando-se uma paisagem exótica nas florestas e montanhas da América do Sul, uma cultura antiga – e em muito desconhecida –, mais um bocado de imaginação fértil em plena era espacial, e o que teremos? A teoria dos astronautas antigos, certamente. Tal variante dos estudos acadêmicos de História, considerada pseudociência por quase todos os catedráticos justamente por defender intervenções alienígenas no decorrer da evolução humana, é relativamente recente, tendo surgido em meados do século 20, e tomado muita força após a publicação em 1968 da obra Eram os Deuses Astronautas? (Erinnerungen an die Zukunft), do pesquisador independente Erich von Däniken. Ao todo, esse suíço daria ao mundo 24 livros, além de um documentário homônimo – assim como sua versão impressa, também um grande sucesso de público –, várias aparições na televisão e um magnífico parque temático, o Mystery Park (algo tipo uma “Disneylândia segundo George Lucas”), inaugurado em 2003 na comunidade Interlaken, Suiça.

 

Mas é preciso que se esteja munido de um quinhão de cautela: a escrita contida nas obras de Däniken é convidativa e flui fácil – bem ao gosto da era da velocidade e do videoclipe –, além de suas ideias conterem a dose certa de sensacionalismo capaz de atrair e prender a atenção de qualquer curioso neste planeta. E em maior ou menor grau, todas as pessoas são curiosas. Ainda assim, Däniken está longe de ser, simplesmente, um deslumbrado ou oportunista atrás de fama e dinheiro: alguns de seus raciocínios, do ponto de vista lógico, até que têm certa coerência.

 

Um exemplo está no primeiro capítulo de Deuses, Espaçonaves e Terra, em que o autor resgata, talvez a fim de atenuar possíveis constrangimentos frente à extravagância de algumas de suas concepções, casos na história da Ciência de como grandes injustiças resultantes de falhas de metodologia, quando, não, de preconceito puro – muitas vezes, partindo de respeitadas vozes acadêmicas – podem ser destrutivas para a construção do saber comum.

Erich von Däniken | Foto: Wikipedia Commons

É fato a ocorrência de vários episódios lamentáveis em que o autor de uma descoberta ou invento se viu ao largo da aceitação científica e pública, como o caso do físico Otto von Guericke (1602-1686), que criou a bomba de ar, produzindo vácuo artificialmente; e de Johann Philipp Reis (1834-1874), inventor do primeiro telefone em 1861, e que o apresentara perante assembleia da Associação Física de Frankfurt e na reunião dos naturalistas em Giessen; além do caso do alemão Hermann Oberth (1894-1989), tardiamente reconhecido como o “pai do voo espacial” ao, em 1918, desenvolverum foguete com 25 m de comprimento e 5 m de diâmetro: “Os críticos levantaram suas vozes e, em uníssono, proclamaram: jamais aquela coisa será capaz de voar!”.

 

Há de se admitir que Von Däniken deva estar certo neste particular: “Os próprios catedráticos deveriam usar de moderação e revelar um leve traço daquela tolerância que, com tanta naturalidade, reclamam para si”. Entretanto, o problema é quando se tenta, em nome da subsistência de uma teoria, empurrar para escanteio estudos sérios e conhecimento empírico ou, simplesmente, se desprezar o bom senso em primazia de conceitos edificados em bases precipitadas, superficiais e altamente questionáveis. E, infelizmente, tal conduta é comportamento rotineiro entre os seguidores de Von Däniken e de outro “papa” dos antigos astronautas, o autor soviético, hoje Azerbaijão, Zecharia Sitchin – falecido em 2010 –, a fim de, pretensamente, fortalecer o número e o teor das evidências em favor de sua nova ciência.

 

 

Indícios de quê?

Desta feita, analisando um mural egípcio da 5ª Dinastia, na tumba de Ptah-Hotep, Saqqarah, pode-se entender que ali surge, a princípio – e mais ainda aos entusiastas de OVNI’s, mais facilmente suscetíveis ao imaginário da clássica figura do E.T. baixinho e cabeçudo –, no meio de uma cena clássica religiosa do Antigo Egito, o que parece ser um pequeno grey… mas, será mesmo?

 

Em uma outra interpretação, considerando que um vaso contendo um par fechado de lótus egípcios – símbolos do Alto Egito e do renascimento, e um conhecido material para oferendas em tumbas – dispostos em simetria, já não forneceria explicação suficiente? Aliás, são vários os exemplos na arte egípcia em que essa flor aparece de forma muito clara, idêntica à de Ptah-Hotep, mas sem aquele vaso – uma variante de percepção e resultado a que se pode chegar, dependendo da configuração artística, de um ou mais elementos (como flores e recipientes); caracterizando a situação clássica de quando a imaginação quer trabalhar à vontade contra o bom senso: sem simetria e sem vasos, sem extraterrestres.

Representação artística das flores de Lótus | Foto: Divulgação/Museu do Cairo

Outro exemplo – também um baluarte do “astronauta antigo” – é a pintura renascentista Madonna com o Menino e São João Batista Criança, atribuída ao italiano de Florença Jacopo del Sellaio (um artista relacionado ao círculo de Filippo Lippi e de Sandro Botticelli), hoje exposta no Palazzo Vecchio, Florença. Dessa vez, por detrás da sagrada e icônica tríade, a cena de um pastor ao alto de um monte, mirando o que seria uma massa voadora (pelo menos, ela está suspensa nas alturas) emitindo como que alguns raios de luz – ou seja, um OVNI (?).

 

Desnecessário dizer que, para os aficionados em vida extraterrestre inteligente e suas furtivas visitas à Terra, aquilo representa mais um trunfo contra a prepotência e irredutibilidade canônicas (as quais, como já colocado, consegue-se detectar aqui e ali). Porém, mais uma vez, a questão necessita de atenção maior; ou seja, uma forma celestial luminosa em um cenário sagrado como aquele, necessariamente, encontrará todo o respaldo na passagem do Evangelho de João: “Eu (Cristo) vim como luz para o mundo, para que todo aquele que crê em Mim não permaneça nas trevas” (João 12: 46).

 

A respeito dessa questão, o historiador da arte italiano Diego Cuoghi diz que o Messias, Jesus, costumava ser referido como “Sol da Justiça” ou “Luz do Mundo”, e que o dia 25 de dezembro (o Natal) era o escolhido para a festa do “Sol Invictus“. Mais adiante, o Evangelho Secreto de Tiago (século 2º ou 3º d.C.) substituiria a figura dos anjos no episódio da Natividade por uma “nuvem luminosa“. E no outro apócrifo, o Evangelho Árabe da Infância (século 5º, a partir de fontes dos séculos 1º e 2º d.C.), o singular fenômeno luminoso já passaria a ser não mais Cristo, mas um anjo por ocasião da visita dos magos.

Madonna com o Menino e São João Batista Criança | Foto: Museu Palazzo Vecchio
Em Madonna com o Menino e São João Batista Criança , nota-se, na parte de trás no canto superior direito, um “objeto voador não identificado”, sendo, o mesmo, percebido por um pastor acompanhado de seu cão. Mas, será?| Foto: Museu Palazzo Vecchio

 

Deve-se observar, ainda, que uma característica filosófica herdada do Mundo Medieval na Renascença era a ideia – diferentemente da cosmologia platônica – do mundo celeste invadindo o nosso, de puro materialismo e morte, quando da necessidade para tal “rebaixamento”. Só que, obviamente, no imaginário renascentista, a questão aí seria a “sublimação” da espécie humana como capaz de atrair a atenção do divino, e não o quão o Altíssimo perderia descendo de sua gloriosa majestade nas esferas superiores. Essa adaptação ao credo medieval se afastava dele enquanto trocava a noção de que o sobrenatural entre nós apenas se realizava para que o poder de Deus se revelasse mais assombroso que amoroso.

 

Um exemplo similar também pode ser encontrado na Natividade de outro artista italiano, Lorenzo Monaco, datada de 1409 e, atualmente, no Metropolitan Museum, de Nova Iorque. Assim, a menos que se queira simplesmente ignorar todas essas verdades, a teoria da “Madonna do UFO”, (como a obra de Sellaio acabou por ser vulgarmente conhecida), poderá ser uma boa explicação. Há, porém, outro desses “troféus” do inexplicado, que podem suscitar teorias alternativas bastante plausíveis e realistas, apesar do forte apelo contrário que tanto aguça o imaginário popular.

 

Em Natividade de Lorenzo Monaco (1409), encontra-se o mesmo “OVNI” sobre
a Madonna, enquanto o Anjo sai de uma nuvem semelhante para fazer seu anúncio aos pastores | Foto: he Metropolitan Museum of Art

 

Civilizações andinas e seus mistérios

No continente Sul-americano, mais precisamente na região dos Andes – hoje Peru, Colômbia, Equador, Venezuela, Chile e Bolívia –, extenso palco para o florescimento – e declínio! – de algumas das grandes civilizações da história, construísse um saber sobremaneira rico que se faz especialmente complexo o simples desenrolar de pesquisas correlatas, agravado pelo fato de quase nenhum registro textual desses povos ter nos alcançado.

 

Apenas no Peru, antes do grande Império Inca, cuja aurora se pode traçar de 1.000 anos a.C. (existem estudos que atestam, mesmo, em torno de 13.000 a.C.), passaram por lá os grandes povos Chavín, Moche, Nazca, Paracas, Huari, Tiahuanaco e Chimu. Este último e os incas, na verdade, são produto da integração e miscigenação de todas as outras sociedades pré-existentes, provavelmente impulsionados pela economia da região. Os mochicas, comunidade que se converteria ao Império Chimu no século 11, ficariam marcados por agregar uma sociedade muito violenta, belicosa, e dona de uma produção artística sobre sexo e cultura da morte que faria Hollywood ruborizar mesmo nos dias de hoje.

 

O conhecimento naquele universo costumava se irradiar a partir de Tiahuanaco ou de Chavin de Huantar, e, por ali mesmo, no Peru setentrional, o pesquisador Guanan Poma confirmou a existência de mais uma esplendorosa civilização: a Yuro Wilca, que se estendeu até a costa do Pacífico. Ademais, sobre o templo de Chavin já se contavam registros trazidos por Pedro Cieza de León, em 1548, e Antonio de Espinoza, em 1624.

 

Entre algumas das glórias andinas também está a recém-descoberta Marcahuamachuco, “… o centro pré-incaico mais importante dos Andes, com um idioma próprio, o culli, e com edificações ainda não vistas nos demais sítios arqueológicos peruanos”, informa o arqueólogo peruano Cristian Vizconde. Da civilização inca, então sua capital Cuzco (vale do rio Huatanay), fundada no século 12 (mesmo século do surgimento dessa cultura), o controle da região do Titicaca em 1438, e a construção do impressionante complexo em forma de cidade-santuário Machu Picchu, em 1450.

 

Na verdade, os tentáculos de sua produção artística foram tão extensos que, ao que parece, mesmo os totens norte-americanos parecem descender destes. Daí pra frente, todo o conjunto se converteu em um Ás dos grandes feitos da espécie humana estando equiparado às mais desenvolvidas civilizações do Mundo Antigo; e, como é de conhecimento geral, para cada grande sociedade na história, uma grande produção artística, já que “a Arte é a assinatura da civilização.” (Beverly Sills). E é sobre um punhado de peças de ourivesaria andina antiga que os alunos de Von Däniken decidiram amplificar seus pontos de interesse à base de pura polêmica: os “aviõespré-colombianos do Peru e da Colômbia.

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Na comunidade acadêmica, essas figuras, quase sempre em ouro (podendo ou não estar incrustadas de outros metais como prata, e pedras preciosas ou semipreciosas), são invariavelmente vistas como um recurso artístico e aceitas como uma “simples estilização” dos passarinhos das matas e florestas locais; até mesmo porque a arte pré-colombiana nunca fora muito simpática ao realismo em suas representações plásticas.

 

Muito rica, e para além do majestoso condor andino (Vultur gryphus), a fauna dos pequenos pássaros na América do Sul possui seus destaques que até hoje souberam atrair olhares, o fascínio e a curiosidade alheios. Apenas na Reserva de Biosfera do Manu, no departamento da região de Madre de Dios, há cerca de mil espécies onde achamos o exótico “tunqui” (Rupicola peruviana), a ave “Nacional do Peru”. Além dele, o dendroica peruviana e o thamnophilus zarumae (ambos da região de Tumbes), e o machaeropterus pyrocephalus.

 

Outros espécimes curiosos, dessa vez na Colômbia, são o nictíbio, o cuclillo enano, o quetzal dourado e o gracioso reinitas: os exemplos não param. Entretanto, o que desde sempre intriga é a extrema simplicidade com que se valeram na construção daquelas formas, o que não se repete quando com outras classes de animais – ainda que, também, estilizados –, como felinos, serpentes e anfíbios, os quais se apresentam bem mais reconhecíveis nos detalhes em geral.

 

Uma teoria razoável que tenta solucionar o enigma dessas “aeronaves” na cultura Tolima, no norte da Colômbia (onde, com a também colombiana Colima, se desenvolvera a mais importante ourivesaria pré-inca), atribui o aspecto geral dos artefatos à estilização de alguns peixes do Rio Madalena, como o Peckoltia guajiborum e o Lithoxus lithoides. Sem dúvida, as semelhanças, sim, existem. Por outro lado, faltaria às peças a barbatana dorsal, tão chamativa e evidente naquelas criaturas.

 

Um argumento que surgiu em defesa da ideia é que a tal barbatana, quando o peixe deita no fundo do rio, desaba sobre o dorso, tornando-se visualmente desprezível. No entanto, assim como a barbatana, a teoria não se sustenta: além da plena geometrização das formas, os pré-incaicos dividiam um interesse muito grande pela ornamentação em tudo que forjavam; ou seja, tudo se tornava interessante para que, a partir daí, fossem criadas linhas e volumes na busca por beleza e exuberância. De modo que não havia razões para se crer que algo assim fosse ignorado nessas representações – aqueles índios sabiam que a barbatana, apesar de relaxada, estava lá.

Huaca del Sol, a capital política da cultura Moche | Martin St-Amant

 

Seguindo esse princípio – de “se copiar apenas o que pode ser enxergado” –, então, e escultura de um jacaré jamais deveria expressar ameaça, com boca aberta mostrando os dentes já que, na esmagadora maioria das vezes, esse réptil é visto fora d’água, de boca fechada e em estado de repouso. Quanto aos seres míticos e fantásticos, nem pensar – porém, não é bem assim que se procede na rica arte desses povos.

 

Há uma teoria que pondera a possibilidade de os artesãos estarem sob efeito de alguma droga alucinógena em pleno exercício do labor e, a partir daí, darem asas a toda sorte de licença poética, quando não ao pleno surrealismo. Mais uma vez, a argumentação é inconsistente, pois é completamente inviável se trabalhar o ouro ou rocha vulcânica sob efeito de nenhuma dessas substâncias – o mais plausível era, mesmo, que construíssem a peça já com um esquema prévio de como exatamente ela deveria aparentar.

 

Tal qual os românticos na pintura europeia do século 19, o que interessava ali era revelar o quão avançado grau de beleza, exuberância, volume e poder, uma criatura poderia chegar. Essa é a verdadeira força da vida, a huaca (do quíchua waqa, também confundida com o próprio deus-sol, ou algum local de culto) que movia toda a Criação e que aqueles povos indígenas desejavam celebrar.

 

A crença da associação de um passarinho voando e sua energia mística – razão de seu impulso –, ademais, já era constante entre os povos do “meio de produção asiático”; e mesmo as origens étnicas e culturais desses proto-americanos encontra-se sob forte suspeita por antropólogos e arqueólogos de terem se desenvolvido a partir da migração de comunidades do sudeste Asiático e do Extremo Oriente.

 

Um reforço nessa teoria é o fato de várias daquelas peças de passarinhos saírem de tumbas (200 d.C.), ou seja, uma maneira de se encaminhar o morto em sua passagem para o além acompanhado da huaca que esses artefatos continham e inspiravam: um pensamento de forte apelo “oriental antigo”. Curiosamente, apesar da geografia, também as sociedades pré-colombianas, por questões práticas e de similaridades estruturais de sua economia, foram sociologicamente classificadas como de “meio de produção asiático”.

 

 

ETs ou pássaros?

Avaliando costumes e origens é possível compreender as pequenas figuras que, aos cidadãos do século 20/21, inevitavelmente remetem a modernos aeroplanos: no cosmo (pacha) deles, onde o material era a extensão do espiritual, o deus solar era Inti, fonte da huaca. Entretanto, o Sol não era exatamente Inti, mas um reflexo deste, sendo, mais tarde, denominado filho de Viracocha, o Criador universal (juntamente com a lua, Quilla-Shi, esposa do sol). Na verdade, o próprio Viracocha ensinara aos homens as artes e os ofícios. Por sua vez, Inti viria a ser compreendido pela divisão entre Apu Inti e Churi Inti – o poder e a luz do sol, respectivamente.

 

Foto: Wikipedia Commons

 

Essa religião do Sol quase não teria sofrido influências dos povos conquistados, diferentemente do que se testemunhou nas Américas do Norte e Central. Assim, exatamente por ser o Sol indefinido, ele vem representado na forma de um rosto humano sobre um disco; ou seja: sua construção gráfica é, por si, só, estilística, e é muito razoável supor que, consequentemente, alguma criatura “energizada” pela potência do astro-rei também o seja.

 

Na maioria das vezes, faz-se até altamente desaconselhável e impraticável sua observação direta. Além de tudo, dependendo da estação, do horário e da posição geográfica, o Sol pode se reconfigurar da forma mais surpreendente
possível, assemelhando-se até mesmo a algum outro planeta. Portanto, como seria a definição plástica em geral do Sol em uma obra artística tridimensional – como naquelas peças em ourivesaria? Por consequência, como seria a de um passarinho, filho de Pachacámac (pai de todos os seres) e pleno da huaca em voo plano, de tão veloz, praticamente imperceptível ao olho humano? A configuração dessas pequenas reproduções douradas parece se encaixar perfeitamente com o conceito espiritual andino.

 

É essa a equação entre o não reconhecimento visual (visibilidade distorcida ou ausente) e o poder solar ali contido, notadamente sobre o caso do governador chibcha com atribuições de sacerdote zipa, da região de Bacatá (atual Bogotá), Colômbia. Este líder da nação era submetido, em ritual, a se cobrir totalmente de ouro, sendo que, a qualquer outro ser humano era terminantemente proibido o contato visual sobre si. Agora, pelo elemento dourado que lhe permeava paramentos e o corpo, esse ente superior entrava em estado de glória definitiva, confundindo-se com o próprio deus-sol (daí, a desconfiança da lenda do El Dorado nada mais ser que o próprio zipa).

 

Uma forte evidência a corroborar esse pensamento foi a descoberta em 1856, em uma caverna em Pasca (Colômbia), de um artefato muisca, hoje conservado no Museo del Oro, Bogotá, em que se vê a representação do rito iniciático de um novo zipa sobre o Lago Guatavita. Em uma escala assustadora (mais um indício da importância menor do realismo) e com o corpo todo revestido de ouro em pó, esse soberano oferece presentes à base de metais preciosos à deusa Guatavita e, notoriamente, nenhum dos demais integrantes da balsa – nem mesmo o cacique ao centro – ousa se virar para a entidade.

 

Ainda é preciso analisar certos problemas artísticos em algumas dessas representações: por exemplo, o fato de termos o que parece ser a cauda da ave também na vertical – quando, na verdade, esta se posiciona apenas na horizontal nos pássaros. Certamente, essa “aberração” pode se dever a mais um erro de interpretação visual, devido às mudanças de orientação do corpo do animal enquanto no ar, em alta velocidade: logo, da forma como o olho humano capta aquela imagem, decidiu-se representá-la com tal variante.

 

Foto: Wikipedia Commons

 

Outra dessas anomalias é a suposta ausência de cabeça no corpo da criatura em alguns casos. A razão é simples, sendo mais claro de se confirmar quando envolvendo pássaros de maior porte: o pássaro (ou passarinho), quando planando, tende a baixá-la a fim de melhor espreitar algo sobre o chão – ao que se daria a ilusão de se estar faltando a cabeça sobre o tronco – do ponto de vista de quem está em terra firme, os índios. Foi assim, relativizando o aspecto visual das coisas naturais, que os andinos formataram seus ritos funerários alterando a aparência dos defuntos, procurando manter aquela de quando vivos.

 

Outro aspecto sobre o fenômeno incide sobre a nossa familiaridade contemporânea com um dos maiores inventos da era Industrial, a fotografia. Assim, também devemos levar em conta que, antes dela, oficialmente criada em 1826 por Joseph Niépce, a visão de um objeto qualquer, ao que se metamorfoseando (graças a algum movimento brusco), era considerada como uma realidade em si, como se estático estivesse: seria o “instantâneo da eternidade”. E, claro, um passarinho em voo é tremendamente mais veloz – e de difícil percepção – que qualquer um daqueles peixes colombianos. Assim, é perfeitamente natural e lógico entender que um borrão riscando o ar a uma altíssima velocidade nada mais seja que a mesma criatura elegante e detalhadamente detectável pousada em cima de um galho de árvore, ou sobre o muro do quintal.

 

Porém, longe do pensamento analítico, cartesiano, a coisa era diferente. O “borrão” era tão somente a variante corpórea e espiritual daquele ser naquele momento: uma “foto” do instante de seu voo, a uma “alta velocidade do obturador”, revelando cada detalhe de suas cores, formas e penas era simplesmente impensável. E, além disso, as condições atmosféricas na paisagem e a distância do observador são fatores capazes de alterar sensivelmente a percepção visual nesse tipo de evento.

 

Com tudo isso, até que algo em caráter realmente (ou quase) definitivo a respeito de quaisquer intervenções fantásticas seja encontrado nos Andes, é justo que se credite a essas impressionantes nações – afinal, onde ficaria o espaço para a inventividade e genialidade humanas? – o grande nível de desenvolvimento cultural e tecnológico que souberam alcançar e maravilhar todo o mundo antigo tanto quanto o moderno…por incrível que pareça.

 

 

Átila Soares Da Costa Filho é professor especialista em História da Arte, Filosofia e Sociologia, palestrante e colaborador da Mona Lisa Foundation, Zurique.

 

Revista Leituras da História Ed. 60