Entenda a técnica da mumificação usada pelos antigos egípcios

Os egípcios acreditavam que a alma, separada do corpo pela morte, voltaria mais tarde a ocupá-lo de modo permanente. Então, desenvolveram apurada técnica de conservação de cadáveres, tendo milhares de múmias chegado até nossos dias

Da Redação | Fotos: Museu Britânico | Adaptação web Caroline Svitras

Tanto no Oriente como no Ocidente, são bastante conhecidas as imagens de múmias. Elas habitam as telas de cinema imaginário popular há muito tempo. Enroladas em tiras de pano, que parecem não terem fim, ou inertes dentro de uma tumba, as múmias despertam curiosidade, fascínio e medo desde o Antigo Egito.

 

Apesar de terem sido encontradas em diversas partes do mundo – como América do Sul, China e até Groenlândia – advindas de diversas civilizações, os exemplares egípcios são mesmo os mais relevantes, despertando mais atenção de pesquisadores e estudiosos. Uma múmia nada mais é do que o corpo de uma pessoa – ou de um animal – que foi preservado após a morte. Normalmente, quando um ser morre, bactérias e outros microrganismos se encarregam de devorar o corpo até o ponto de não restar nada além de ossos.

 

Como as bactérias precisam de água para sobreviver, a mumificação protege o corpo e impede a ação dos microrganismos. A preservação pode ser tão eficaz que é possível dizer, até séculos depois, como uma pessoa foi quando era viva, quais os traços do seu rosto, em que estado estava o seu corpo na ocasião da morte.

 

A preservação

Um corpo pode ser mumificado por meio de um processo natural, que ocorre quando, por exemplo, o corpo se mantém em condições tais de resfriamento que suas características são preservadas, não se decompõem. Outra forma de uma pessoa morta ser mumificada é utilizando-se da técnica de embalsamento, que era levada a sério pelos egípcios antigos, pois eles acreditavam que manter o corpo após a morte era condição primordial para que a pessoa pudesse adentrar no chamado “outro mundo”, aquele que se descortinaria aos olhos dos seres humanos depois da morte.

 

Os preparativos para a mumificação de um corpo eram exaustivos e minuciosos. Do início ao fim, o processo levava até 70 dias – e erros não eram permitidos sob pena de macular o objetivo de alcançar a vida eterna, fadando-o ao fracasso. Os faraós, que, segundo se acreditava, virariam deuses depois da morte, eram os que mereciam os enterros mas magníficos, mais oficiais de alta patente, religiosos e nobres também recebiam considerações especiais e podiam ser mumificados.

 

 

A arte egípcia da mumificação consistia em vários passos. Primeiro, o corpo era devidamente levado, lavado e submetido a uma espécie de ritual de purificação. Em seguida, era preciso remover órgãos internos da pessoa e as vísceras eram cuidadosamente retiradas e colocadas em recipientes especiais. Uma fenda era feita no lado esquerdo do corpo, de modo que fossem retirados fígado, estômago e pulmões. Cada um desses órgãos era embalsamado com natrão, uma espécie de sódio natural cuja função era secar os órgãos impedindo, assim, as bactérias de se alojarem nos tecidos. Depois, os órgãos eram individualmente embalados com longas bandagens de linho e também colocados em jarros.

 

Cumprido esse processo, era necessário preencher as cavidades internas do corpo com natrão. O cérebro era, então, removido pelo nariz, graças ao uso de longos ganchos. Como os egípcios antigos não o consideravam um órgão importante, provavelmente, ele era jogado fora. O corpo era, então, colocado numa mesa de embalsamento e completamente coberto com natrão. Isso permitia que os fluídos corporais secassem e o corpo ficasse desidratado. Essa etapa levava cerca de 40 dias. Depois, o natrão era removido, revelando um corpo já ressequido por dentro e por fora.

 

Finalmente, as formas eram restituídas, mais uma limpeza era feita e pronto. O corpo era esfregado com unguentos, com o objetivo de preservar ainda mais a pele da múmia. E antes da etapa final – quando ela era enrolada em bandagens de linho – os responsáveis pela mumificação não podiam esquecer de colocar adornos, como ouro, joias e amuletos protetores. Os dedos das mãos e dos pés eram cobertos com anéis de couro e depois envoltos nas bandagens de pano. Braços e pernas recebiam o mesmo cuidado. A resina era usada para manter as camadas de linho juntas. No final, a cabeça ficava escondida sob uma máscara de múmia e recebia uma última camada de resina. Uma vez que a múmia estivesse pronta, chegava a hora do funeral. A múmia e os jarros contendo seus órgãos internos eram transportados do local de embalsamento até a tumba. As pessoas do povo deviam mostrar sua referência à pessoa morta, chorando. No local da tumba, ocorriam cerimônias religiosas, que preparavam uma pessoa para a outra vida, a vida eterna tão almejada. Praticamente, todo egípcio sonhava com a mumificação, visto que ela era a maneira, segundo a crença desse povo, de a pessoa continuar vivendo depois da morte. Nem todos, porém, tinham condições de consegui-lo. Os pesquisadores calculam que, em 3 mil anos, 70 milhões de pessoas realizaram o desejo de se transformarem em múmias.

 

Por volta do século IV da Era Cristã, muitos egípcios já haviam se convertido ao cristianismo e não mais acreditavam na teoria de que a mumificação era a garantia da vida após a morte. Com isso, calcula-se que, aos poucos, eles foram deixando de lado a arte e a ciência de criar múmias. Infelizmente, a maioria das tumbas do Egito Antigo foi arrombada por vândalos e saqueadores interessados em roubar os tesouros contidos dentro delas. Caçadores de riqueza e fama continuam violando as tumbas em busca de souvenirs e descobertas arqueológicas.

 

História e Ciência

As múmias mais bem preservadas são as dos faraós e seus parentes. Isso porque, devido à importância dessas pessoas, o processo de embalsamento era feito com muito mais cuidado e rigor técnico. As múmias que resistiram à passagem do tempo permitiram que os cientistas desvendassem mistérios da civilização egípcia. O estudo das múmias – e de todos os objetos encontrados junto delas – fez com que pesquisadores, ao longo das últimas décadas, traçassem um panorama de como viveu e morreu a civilização do fascinante Antigo Egito.

 

Engana-se quem pensa que somente os seres humanos – particularmente os faraós e os de destaque na sociedade egípcia – eram mumificados. A descoberta das tumbas mostrou que animais, como gatos, macacos e outros, também mereceram esse cuidado. Fato, porém, nem sempre muito conhecido.

 

Os egiptólogos – especialistas na civilização egípcia – ignoraram o hábito de se mumificar os animais durante muito tempo. Um século atrás, no entanto, um mundo novo se desvelou aos olhos dos estudiosos. Uma equipe do Museu do Cairo, na atual capital do Egito, começou a desenrolar e identificar um conjunto de múmias que lá havia. Tudo indica que os animais mumificados eram usados como oferenda aos deuses. E eles eram colocados na tumba para que pudessem ser vistos e identificados como um presente. Os estudos feitos revelaram as mais variadas espécies de animais mumificadas.

 

Todas as espécies de animais mumificados pelos antigos egípcios eram consideradas como tendo estreitas associações com deuses | Foto: Manchester Museum

 

As mais comuns são as de animais domésticos, como gatos, cachorros e até vacas e ovelhas. Mas também já se encontraram falcões, crocodilos, peixes, escorpiões e cobras mumificadas. Um dos exemplares mais curiosos encontrados até hoje pelos pesquisadores são ovos de pássaros e répteis. Atualmente, uma equipe do Museu do Cairo se dedica ao chamado The Animal Mummy Project, cujo objetivo é entender cada vez mais profundamente os hábitos e crenças do Antigo Egito. Os cientistas acreditam que a identificação de um número cada vez maior de animais mumificados ajudará a responder algumas questões que ainda permanecem sem resposta. Técnicas de raio X têm permitido que os cientistas identifiquem as pequenas múmias, que antes eram confundidas com as de crianças. Ao identificar qual é o animal mumificado, pode-se descobrir a espécie “adotada” por um determinado faraó e quais as espécies existentes naquela época.

 

Os estudos dos animais mumificados também podem ajudar os pesquisadores a descobrirem como esses animais morriam no Antigo Egito. Eles seriam mortos para serem enterrados com seus donos? Em caso afirmativo, como se dava essa morte? E a respeito das técnicas veterinárias da época? O que pode ser descoberto por meio da análise dos animais mumificados? No Museu Britânico, na capital inglesa, exames de raio X revelaram que alguns gatos eram mortos por estrangulamento e mumificados para serem oferecidos aos deuses. Os cientistas do Museu do Cairo querem descobrir ainda se as técnicas usadas para pequenos mamíferos se repetiam com pássaros e répteis. Pode ser bastante interessante descobrir, por exemplo, como o crocodilo era morto antes da mumificação.

 

Howard Carter abriu o túmulo de Tutankhamon em 1922 | Foto: The New York Times

 

Fascínio, maldições e mistério

A ostentação de riquezas nos locais onde eram depositados os corpos dos faraós dependeu muito da riqueza de cada época e, por isso, algumas se destacam. Já se passaram 5 mil anos desde que os antigos egípcios dedicavam parte de seu tempo e de sua cultura a mumificar seguindo a crença de alcançar a vida eterna – e, conceitualmente, eles estavam certos. Afinal, em pleno século 21, a história das múmias e dos faraós egípcios continua presente no imaginário popular, na ficção e nos livros acadêmicos.

 

Os três números de pessoas mais conhecidas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, e as que despertaram mais curiosidades, até hoje, são as de Tutankhamon, Seti I e Ramsés II.

 

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