Evita Perón: queridinha da Argentina

Sete anos de trajetória foram o suficiente para que as conquistas da “mãe dos descamisados” fossem lembradas e admiradas mundo afora, mesmo após 61 anos de sua morte. Evita Perón não é apenas reverenciada na Argentina, ela se tornou um dos maiores ícones da história política mundial

Por Thais e Silva | Foto: Fabiana Neves | Adaptação web Caroline Svitras

 

Atriz, líder política, amiga, amante… São inúmeras as facetas de Eva Duarte Perón, considerada um dos mais importantes ícones populares da história da Argentina. Mas foi o seu lado humano, aspecto mais marcante de sua personalidade, e que a tornou tão próxima do povo – os descamisados, como ela batizou os trabalhadores argentinos.

 

 

Os passos históricos de Evita

A vida de Evita já se demonstrava insólita desde a infância. Maria Eva Ibarguren, como foi batizada, nasceu em 7 de maio de 1919, em Los Toldos, Província de Buenos Aires. Era um dos cinco filhos de um casamento extraoficial de seu pai (e a única não reconhecida legalmente por ele), Juan Duarte, que morreu em um acidente de carro quando ela tinha apenas sete anos. Na ocasião, Evita, a mãe, Juana Ibarguren, e os irmãos foram proibidos pela família titular de prestar uma última homenagem a Juan, fato que marcou profundamente a história da populista argentina.

 

Foi aos 15 anos que Eva decidiu deixar para trás a vida pacata do interior para se aventurar na desmedida Buenos Aires e realizar o grande sonho de infância: ser atriz. O início difícil, já que ela se encontrava sem respaldo emocional e financeiro, e o talento sempre colocado em dúvida não a fizeram esmorecer. Após bater nas portas de inúmeros teatros na capital argentina, Eva conseguiu consolidar seu nome (agora com o sobrenome Duarte) no meio artístico ao realizar alguns trabalhos expressivos, estampar capas de revistas e estar à frente de um programa de rádio de bastante audiência.

 

 

Eva e o peronismo

Era 1944 e a Argentina estava em meio a um golpe militar ocorrido no ano anterior. Durante um festival realizado por artistas para arrecadar donativos para as vítimas de um terremoto que ocorreu dias antes, Eva conhece o coronel Juan Domingo Perón, ministro da Guerra do governo vigente, e logo começaram a namorar. Um mês de relacionamento foi o suficiente para que fossem morar juntos.

 

Primeira foto oficial do presidente Juan Domingo Perón e Evita, em 1946 | Foto: Divulgação FIHEP COLETA E AGN

 

Não demorou muito para que Perón chegasse à vice-presidência e ambicionasse o cargo político mais elevado: o de presidente da República. Como havia sido ministro do Trabalho no governo anterior e obtido sucesso nesse cargo, ficando bem visto perante os trabalhadores, decidiu unir forças com líderes que compartilhavam de suas ideias em busca de formar o Movimento Peronista do Trabalho e fortalecer-se perante a parcela da população que já o admirava.

 

Ao vê-lo se aproximando de seu objetivo e temerosos de que ele se tornasse um ditador fascista, seus opositores passaram a persegui-lo até que, em 1945, Perón foi detido. O acontecimento causou furor popular e a intensidade das manifestações a favor da liberdade do líder trabalhista aumentou consideravelmente quando Evita decidiu encabeçar os movimentos, que reuniu milhares de “descamisados”. Quatro dias após ser preso, Perón é liberto e se casa com Evita, que passa a usar a alcunha Eva Perón.

 

Em fevereiro de 1946, Juan Perón é eleito presidente e, segundo análise de Gabriel Miremont, a importância de Eva em todo o processo que culminou na vitória do peronismo foi indiscutível. “Perón já era um político de trajetória que contava com o apoio incondicional dos trabalhadores e os principais sindicatos do país. Mas, sem dúvida alguma, a liderança de Evita complementou essa realidade, fortalecendo a figura de Perón. Podemos dizer que ambos formaram uma combinação política sem comparação na história argentina (e podemos falar, do mundo), formando uma parceria de líderes que se completam e que deram identidade política a milhões de argentinos”, afirma.

 

Após demonstrar a capacidade de liderar e mover multidões, e mesmo despertando na oposição a antipatia outrora sentida apenas em relação a Perón, a primeira-dama assumiu a Secretaria do Trabalho. Conseguiu mesclar o trabalho político com o social, ambos executados intensamente. “A sanção da lei que permite o voto feminino e sua luta pelos direitos políticos das mulheres, suas ações sociais, seu trabalho para a efetiva execução dos direitos trabalhistas, a proteção aos setores vulneráveis, como a infância, a velhice e as mulheres em situação de risco, a importância da ajuda social direta e por meio das milhares de obras de sua Fundação (a Fundação Evita Perón), que ainda continuam em pé e funcionando, são alguns exemplos das mudanças feitas por Evita em apenas seis anos de trabalho intenso”, conta Cristina Alvarez Rodriguez, sobrinha-neta da primeira-dama e presidente do Instituto Nacional de Investigações Históricas Eva Perón.

 

Em 1948, Evita criou a Fundação Eva Perón, gigantesca organização de ajuda aos necessitados – e passou a trabalhar quase 20 horas por dia | Foto: Museu Evita PerónEm 1948, Evita criou a Fundação Eva Perón, gigantesca organização de ajuda aos necessitados – e passou a trabalhar quase 20 horas por dia | Foto: Museu Evita Perón

 

A popularidade de Evita crescia com tanta intensidade que em um curto espaço de tempo chegou a ser convidada por países Europeus a fazer um tour pelo Velho Continente. Junto à experiência política, trouxe consigo uma nova maneira de se portar e se vestir. Era uma nova Eva Perón, muito mais elegante, com postura de uma verdadeira primeira-dama. Mas a população queria mais: incentivavam incessantemente a formação de uma chapa eleitoral para a reeleição de Juan Duarte como presidente e Evita como vice. Clamor que ela teve que ignorar por conta de um drama pessoal.

 

 

A queda do mito

Ironicamente, a queda de Evita, tão desejada pelos opositores ao peronismo, foi tramada por um câncer no útero. Após consultas com médicos estrangeiros e até a realização de uma cirurgia, só restou à primeira-dama se recolher aos aposentos presidenciais, já que ela não tinha mais forças para cumprir os compromissos políticos e sociais que ocuparam integralmente seu tempo durante os anos anteriores. Eva Duarte Perón morreu no dia 26 de julho de 1952, aos 33 anos de idade.

 

Cortejo fúnebre de Evita em 1952, acompanhado por milhares de pessoas | Foto: AP

 

O corpo de Evita foi embalsamado e ficou exposto em uma caixa de vidro durante cerca de um mês na Casa Rosada para que a população argentina tivesse a oportunidade de dar o adeus à “mãe dos descamisados”. “Ninguém esperava que uma mulher com apenas 27 anos, atriz, sem trajetória política, se transformasse em uma parte fundamental do processo transformador que levou adiante o primeiro peronismo. Entre suas principais   características, estão a ascensão social efetiva e a possibilidade de que cada um dos habitantes de nosso país pode ser uma engrenagem fundamental nas mudanças sociais e do Estado”, conclui a sobrinha-neta de Evita.

 

 

O legado de Evita

Sessenta e cinco anos se passaram desde a morte de Eva Péron, mas a ex primeira-dama da Argentina segue como a mulher mais importante da história do país que até hoje colhe os frutos de suas conquistas para os menos desprovidos. Para Cristina Alvarez Rodriguez, a figura de Evita se transformou na expressão da verdadeira democracia, já que sua imagem está associada a valores como a igualdade de direitos, independente de diferenças sociais ou de classe. “É por isso que Evita continua sendo hoje a imagem viva da dignidade e da luta por um país mais justo, feito por todos e para todos. Continua sendo a bandeira da causa dos humildes e dos deixados para trás”, afirma Cristina.

 

Evita e as enfermeiras, foto que evidência a preocupação da “Porta-estandarte dos humildes” com as diversas classes trabalhistas | Foto: AGN

 

Apesar de o legado de Eva suplantar as fronteiras argentinas, já que suas ações em um período histórico em que as mulheres mal conseguiam se expressar na sociedade viraram exemplo mundo afora, Gabriel Miremont, curador da mostra Evita: Paixão e Ação, que aconteceu em São Paulo, considera que sua representação no país é, sem dúvida, muito mais intensa. “A diferença de outras versões produzidas em outros países, tais como musicais, séries e filmes, na Argentina, sua efígie representa uma parte essencial da nossa história e das principais discussões políticas do nosso país até os dias de hoje”, salienta. “Eva Perón tornou-se uma bandeira para muitas gerações que, inspiradas na sua obra e ação, assumiram a causa da justiça social como suas próprias”, conclui Miremont.

 

A exposição organizada pelo Instituto Nacional de Investigações Históricas Eva Perón, fundado na Argentina em 1998, apresentou 60 peças das 3 mil que compõem o acervo original, entre elas itens pessoais de Evita Perón. “A possibilidade de elaborar estas exposições em outros lugares, como no Brasil, permite-nos transmitir essa paixão e ação que transformou a sociedade argentina para sempre e mostrar uma Evita diferente, mais autêntica e poderosa”, acentua Gabriel Miremont.

 

 

Adaptado do texto “A Imortal”

Revista Leituras da História Ed. 64