Faixa de Gaza, faixa da discórdia

Um dos lugares mais conturbados do mundo desde a sua origem

Por Morgana Gomes | Foto: Reprodução/electronicintifada.net | Adaptação web Caroline Svitras

Quase que diariamente a mídia enfoca tanto os ataques mútuos entre israelenses e palestinos quanto as diversas iniciativas internacionais de tentar promover a paz entre os dois povos. No entanto, desde os tempos bíblicos, judeus e árabes (palestinos), dois dos diversos povos semitas, sempre ocuparam partes do território do Oriente Médio. Mas, como cada qual adotou sistemas religiosos diferentes, as divergências se tornaram comuns e agravaram -se ainda mais com a criação do islamismo no século 7.

 

Já século 20, mais precisamente a partir da 1ª Guerra Mundial, no momento em que se deu o fim do Império Otomano, os conflitos entre ambos os povos se intensificaram ainda mais. Nessa época, a Palestina que, até então, estava sob o domínio otomano, passou a ser administrada pela Inglaterra, país que já apoiava o movimento sionista, que fora criado no fim do século 19, com o objetivo de fundar um Estado judaico na Palestina, região considerada o berço do povo judeu.

 

Na época, apesar de alegar que não pretendia violar os direitos dos palestinos que viviam lá, os ingleses, aparentemente, não levaram em conta que a região de apenas 27 mil quilômetros quadrados, já abrigava uma população árabe de 1 milhão de indivíduos, enquanto os habitantes judeus não ultrapassavam 100 mil. Consequentemente, após expressar sua posição, o pais britânico também se tornou responsável por um grande fluxo de imigrantes judeus em direção a Palestina.

 

Logo após, a partir de 1933, esse mesmo fluxo ainda acabou por ser incrementado com o advento do nazismo na Alemanha. Nesse período, devido às perseguições sofridas pelos judeus em toda a Europa, a imigração deles se ampliou de uma forma considerável em direção à Palestina. Por sua vez, os habitantes de lá passaram a resistir à ocupação, momento em que os conflitos se intensificaram ainda mais.

 

A partilha da Palestina

Após o fim tanto da 2ª Guerra Mundial quanto do Holocausto que, por sua vez, exterminou mais de 6 milhões de judeus, a comunidade internacional passou a exigir a criação de um Estado israelense. Tal fato fez com que a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovasse, em 1947, um plano de partilha da Palestina, que passaria a abrigar dois Estados: um judeu, que ocuparia 57% de suas terras e outro palestino, que ficaria com o restante da área.

 

Um ano depois, quando os ingleses desocuparam a região, em 14 de maio de 1948, os judeus fundaram o Estado de Israel. Mas a proporção territorial desigual, além de afrontar a própria ocupação histórica da região, desagradou todos os países árabes. Em consequência, um dia depois do Estado de Israel ter surgido, os árabes declararam guerra a ele.

 

Após a ONU criar o Plano de Partilha da Palestina, em 1947, o território assistiu a criação de um Estado judeu, instituído em maio de 1948, e de outro árabe, ainda não consolidado. Mas devido aos conflitos na região, os judeus, pretensiosamente, projetam fronteiras futuras, como é possível observar no mapa acima, na qual a Gaza já aparece incorporada ao Estado de Israel por volta de 2020. | Foto: Reprodução/solosequenosenada.com

 

Mas, sem sucesso no embate, eles foram obrigados a ver a nova nação aumentar seu próprio território sobre as antigas terras palestinas em 75%. Já os 25% restantes ainda foram anexados tanto pela Transjordânia, que ficou com a parte chamada Cisjordânia, quanto pelo Egito, que se apoderou da Faixa de Gaza.

 

Nesse período, muitos palestinos se refugiaram em Estados árabes vizinhos, porém boa parte permaneceu sob a autoridade israelense. Ao mesmo tempo, outras guerras ocorriam por causa das fronteiras. Nelas, Israel sempre levou vantagem, mas nunca se preocupou em apresentar uma solução para o problema dos refugiados palestinos.

 

Diante desse quadro, houve algumas tentativas de acordos, que visavam à paz entre ambos os povos. No entanto, o impasse nunca foi resolvido, porque os palestinos liderados pelo movimento radical islâmico Hamas não reconhecem o direito de existência de Israel. Tal fato leva muitos especialistas em política internacional a declarar que a guerra entre eles só chegará a um fim quando for criado um Estado palestino de forma equitativa com Israel.

 

Localização geográfica
Mapa da Faixa de Gaza atual. | Foto: Reprodução/brabosh.com

A Faixa de Gaza é uma planície costeira que ladeia o litoral mediterrâneo e que se estende em torno da cidade homônima, em uma área de 365 km2 que, por sua vez, é habitada por cerca de 1,7 milhão de habitantes. Considerado um dos territórios mais povoados do planeta, seu crescimento anual é de aproximadamente 3,2% – a sétima maior taxa de crescimento demográfico do planeta.

 

Em grande parte, sua população é muçulmana sunita – maior ramo do Islamismo, que assume uma posição mais neutra se comparado às radicais xiitas, por exemplo. Embora a maioria tenha nascido no local, uma enorme porcentagem se identifica com os refugiados palestinos que fugiram para a cidade – existente já nos tempos de Abraão e onde se acredita que Sansão bíblico morreu –, durante o êxodo que ocorreu após a guerra árabe-israelense de 1948.

 

Apesar do imenso número populacional que só tende a aumentar e cuja expectativa de vida não ultrapassa os 71 anos, além das reservas de gás descobertas recentemente, na Faixa de Gaza, quase não há nenhum recurso natural. A falta de água é constante, a infraestrutura é mínima e, com exceção das pequenas indústrias têxtil, alimentar e de cerâmica, não há manufaturas de grande porte no território. Mesmo assim, a Faixa de Gaza foi praticamente destruída pelos bombardeios israelenses realizados em 2008 e 2009 e, ainda hoje, quase nada foi refeito na região.

 

Já a religião predominante no local é o islamismo sunita que, por sua vez, é seguido por 99,8% da população. Os outros 0,2%, maioria de idosos, são adeptos do cristianismo greco-ortodoxo e, entre eles, uma minoria ainda segue o cristianismo romano. Embora insignificante, esse último número tende a diminuir. Apesar de o Hamas ter prometido não impor uma religião aos habitantes de Gaza, desde que assumiu o poder em 2007, ele vem forçando a população a adotar preceitos religiosos defendidos por seus integrantes.

 

Textos bíblicos históricos
A ocupação da região durante os séculos

A cidade atual de Gaza foi fundada, por volta do século 5º a.C., por piratas Filisteus que, ao navegarem pelo Mar Mediterrâneo, denominaram a região de Filisteia. A partir daí, ela passou por uma série de invasões de tribos israelitas, babilônicas, persas e assírias, até que toda a região caiu nas mãos dos macedônios que, graças ao processo de imperialização, colocaram-na em contato com a cultura helenista.

 

Logo depois, quando os romanos invadiram Israel, Gaza também foi submetida. Em seguida, foi a vez dos bizantinos e árabes exercerem poder sobre ela. Na sequência, os otomanos a tomaram e ficaram na região até o fim da 1ª Guerra Mundial, momento em que os ingleses passaram a dominá-la. Nessa época, com a criação do Estado do Israel, Gaza passou a abrigar os refugiados palestinos expulsos das áreas que hoje fazem parte de Israel.

 

Em Gaza, apesar da destruição, as crianças são consideradas o maior patrimônio da Palestina. | Foto: Reprodução/electronicintifada.net

 

Com o fim do mandato britânico, entre 1949 e 1967, foi a vez do Egito controlar a região. Mas, por um curto período, enquanto se dava a crise do Canal de Suez, Gaza ainda foi submetida por Israel na chamada Guerra dos Seis Dias. Embora mínimo, esse tempo foi suficiente para os israelenses promoverem a construção de assentamentos para colonos judeus em Gaza.

Vestígios da bíblica cidade de Ezequias

 

A partir de então, apesar dos acordos que foram assinados entre maio de 1994 e setembro de 1999, o caos que imperava na região nunca foi interrompido. Nesse período, Israel ainda se comprometeu a transferir para a Autoridade Nacional Palestina (ANP) a responsabilidade tanto pela segurança quanto pelos civis das áreas povoadas por palestinos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Mas, como a promessa nunca foi cumprida, os palestinos se viram cercados por colônias de judeus, enquanto a constituição de seu Estado era interrompida.

Embates do século 21

Em setembro de 2000, deu-se a revolta dos civis palestinos contra a política administrativa e a ocupação israelense na região, movimento conhecido como a 2ª Intifada. No entanto, como a rebelião deles foi contida, os israelenses reocuparam a maioria das áreas controladas pelos palestinos, inclusive além da Faixa de Gaza.

 

Em meio a uma série de conflitos sem fim, em 2005, o então primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, iniciou a retirada tanto dos colonos israelenses da Faixa de Gaza, que na ocasião totalizavam 8 mil indivíduos, quanto das tropas que os protegiam – operação que foi concluída no mesmo ano.

 

A demonização do mundo árabe

 

Na época, a medida israelense poderia, mas não melhorou a situação de Gaza, porque em janeiro de 2006 a organização política sunita Hamas venceu as eleições legislativas palestinas e as divergências políticas entre o então presidente Mahmoud Abbas, da Autoridade Nacional Palestina, pertencente ao Al-Fatah (organização política e militar conhecida como Movimento de Libertação Nacional da Palestina), e o primeiro-ministro Ismail Haniyeh, do partido vencedor, provocaram embates violentos entre militantes das duas facções rivais, tanto que, entre 2006 e início de 2007, a Faixa de Gaza teve um grande número de mortos e feridos.

 

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