Futebol contra guerras na África

O Santos FC, de incontáveis títulos e craques, também foi protagonista de inúmeras lendas do esporte: há mais de 40 anos, seu poderoso futebol foi capaz de parar conflitos armados entre países vizinhos

Por Rose Mercatelli | Fotos: Acervo Santista | Adaptação web Caroline Svitras

 

Nenhum outro esporte na face da Terra tem a força que o futebol exerce nas pessoas. A paixão que desperta é tão grande que o teatrólogo Nelson Rodrigues, por exemplo, comparou a derrota da seleção brasileira para o time do Uruguai, em 16 de junho de 1950, com a força destruidora da bomba atômica lançada sobre Hiroshima, no Japão, em agosto de 1945 – que deixou 140 mil mortos e uma cidade totalmente devastada.

 

Mas oito anos antes da fatídica tragédia do Maracanã – em um episódio menos grandioso para a humanidade – aconteceu a partida que entrou para a história como o Jogo da Morte. Durante o período de barbárie ocorrido na 2ª Guerra Mundial, prisioneiros de guerra e ex-integrantes do Dínamo de Kiev, capital da Ucrânia, derrotaram, sucessivas vezes, o Flakelf, time da Luftwaffe – a força aérea de Hitler, tida como a grande equipe germânica.

 

As goleadas que sobrepujaram os soldados alemães, além do sabor da vitória, chegavam carregadas de orgulho nacional. Meses antes, as tropas alemãs, ao dominarem Kiev, executaram 33.771 pessoas, entre eles dois jogadores do Dínamo.

 

Foto: Divulgação

 

No último jogo “amistoso” entre as equipes, com um oficial da SS nazista fazendo as vezes de árbitro, o Flakelf “bateu” como bem quis e, mesmo assim, perdeu por 5 a 3. Resultado: logo após a partida, a Gestapo invadiu a residência dos jogadores, aprisionando todos sem exceção. Três atletas morreram assassinados à bala; e um foi vítima de tortura.

 

A paixão pelo futebol, por outro lado, também é capaz de promover tréguas (ainda que temporárias) entre nações em conflito. Foi exatamente isso o que aconteceu com o Santos FC quando excursionava pela África, no início de 1969.

 

Pelé homenageado pelo coronel Samuel Ogbemudia

 

O futebol mágico do time santista, com uma constelação de craques comandada por Pelé, foi capaz de interromper um conflito armado entre nações vizinhas. E não apenas uma vez, como até há pouco tempo estava registrado em sua história. “Em duas regiões diferentes na mesma excursão pelo continente africano, o time conseguiu parar uma guerra”, revela o pesquisador e historiador Guilherme Nascimento, professor de Química por profissão e santista “roxo” por vocação. A história é contada nos mínimos detalhes pelos jornalistas Odir Cunha e Celso Unzelte que escrevem os capítulos finais do livro Santos, 100 Anos, 100 Jogos, 100 Ídolos, lançado por ocasião das comemorações do centenário do time santista.

 

 

 

O maior espetáculo da Terra?

No fim dos anos 1960, em se tratando de futebol, o Santos era considerado a maior atração do planeta. Na época, nenhum outro time se comparava em brilho à constelação de craques da equipe da Vila Belmiro, que excursionava pelos quatro cantos do mundo, encantando multidões nos estádios sempre superlotados. “Jogar no exterior era uma necessidade para o time, que através das bolsas em dólares conseguia manter Pelé e o elenco milionário. Assim, o alvinegro praiano se apresentava em um número infindável de países em todos os continentes”, revela um trecho do livro.

 

Até então, era perfeitamente natural a confusão estabelecida entre qual teria sido realmente O Grande Jogo da Paz – que acabou por inspirar uma outra partida pacificadora, anos mais tarde, ocorrida em 2004 no Haiti, quando a seleção brasileira jogou naquele país devastado por uma guerra civil.

 

Em uma partida pacificadora, anos mais tarde, ocorrida em 2004 no Haiti, a seleção brasileira jogou naquele país devastado por uma guerra civil | Foto: Divulgação

 

Até o início do trabalho de pesquisa para o livro do centenário, o jogo “oficial” que parou um conflito bélico teria ocorrido na região do Congo que, em 1969, encontrava-se em guerra entre as forças de Kinshasa e Brazzaville. A primeira é a capital da República Democrática do Congo, país que ficou conhecido como Zaire entre 1971 e 1997. Já a segunda é a capital da República do Congo (também conhecido como Congo-Brazzaville) – este é o único lugar no mundo onde duas capitais nacionais se situam em margens opostas do mesmo rio, de frente uma para outra.

 

O fato é que, por um curto período de tempo, o conflito entre as milícias de Kinshasa e de Brazzaville foi suspenso para que o alvinegro do litoral pudesse cumprir um compromisso assumido antes do início das hostilidades. A primeira partida do time santista na República do Congo foi em Point Noire; já na segunda, em Brazzaville, os problemas começaram. Antes de chegar na cidade, a delegação precisou passar por Kinshasa, de onde foi escoltada por soldados locais até a fronteira guardada por militares da cidade vizinha, do outro lado do rio. Estes, por sua vez, levaram o time até o local da partida. Foi assim que, no dia 19 de janeiro de 1969, o Santos ganhou da Seleção do Congo Brazaville por 2 a 0.

 

Congo, 1969: Santos FC para a guerra e posa ao lado dos jogadores do time local (acima), logo após ter confraternizado, em campo, com as autoridades…

 

Entretanto, ao retornar à Kinshasa para seguir viagem, a delegação foi avisada que, se quisesse deixar a região, também deveria jogar contra uma equipe local, ainda que esse compromisso não estivesse nos planos dos dirigentes do clube.

 

Os jogadores e equipe técnica, evidentemente, não tiveram como recusar tão “amável” convite e terminaram por atuar em mais duas partidas: na primeira, ocorrida em 21 de janeiro, o time brasileiro, ganhou por 2 a 0 da seleção B do Congo Kinshasa. Dois dias depois, perdeu por 2 a 3 para a seleção A do Congo Kinshasa. Quando a delegação partiu, podia-se perceber pelo barulho de tiros que a breve trégua havia terminado.

 

Em seguida, aconteceu outro jogo. Este, sim, segundo Guilherme Nascimento, diretor do Centro de Memória e Estatística do Santos FC, parou efetivamente uma guerra. Guilherme foi o precursor dos questionamentos que esclareceram esse fato histórico e relatou a descoberta sobre o verdadeiro “jogo da paz” no site oficial do clube, em 30 de abril de 2008: “O inesquecível Gilmar, o Girafa, confirmou que realmente esse foi o jogo da famosa guerra suspensa” – com direito a feriado nacional e tudo o mais.

 

Foi uma trégua como manda o protocolo e não apenas para que ocorresse a troca da guarda enquanto a delegação atravessava a ponte sobre o rio que separava as duas cidades, congolesas e inimigas. A partida aconteceu na Nigéria, dias depois de o Santos ter sido derrotado pela seleção A de Kinshasa – a única derrota dessa excursão.

 

 

O Peixe e a Águia

“O prestígio do time era tão grande que, por onde passava, era recebido de maneira apoteótica. Recepções, desfiles em carro aberto, homenagens e mais homenagens, estádios lotados. O povo africano queria ver o Rei Pelé e seus súditos. Em Lagos, capital da Nigéria, não foi diferente. Com estádio abarrotado, o Peixe empatou com os “Águias Verdes”, como era conhecida a Seleção da Nigéria, por 2 a 2”, conta Guilherme Nascimento.

 

Na época, o país vivia uma guerra civil com os separatistas da etnia ibo, fora do poder em consequência de um golpe militar, lutando pela criação da Biafra, uma nação independente da Nigéria que existiu apenas entre maio de 1967 a janeiro de 1970. A Guerra de Biafra, como ficou conhecida escancarou a miséria na África, escandalizando o mundo ocidental com fotos chocantes de crianças famélicas e doentes.

 

Na Nigéria, os separatistas da etnia ibo, fora do poder em consequência de um golpe militar, lutavam pela criação da Biafra – que existiu apenas entre maio de 1967 a janeiro de 1970 | Foto: Corbis

 

Mas o jogo com o Santos despertou tal interesse popular que os militares governantes resolveram convidar o time brasileiro para mais um jogo, dessa vez na cidade de Benin, capital do Estado de Bendel, região Meio-Oeste da Nigéria.

 

“A expectativa popular era enorme. Os dois lados perceberam que não seria vantagem para ninguém um ataque militar entre as facções do governo e as dos separatistas. O governador do Estado de Bendel decretou feriado. O coronel Samuel Ogbemudia liberou a ponte sobre o Rio Sapele para que a população pudesse chegar até Benin sem sofrer represálias”, relata Nascimento.

 

O estádio ficou lotado. Só a família do Obá Azenkua II, líder espiritual de Benin, com seus 84 filhos, 212 filhas e 26 esposas ocupou metade do estádio, comentou em entrevista (e na brincadeira) o jogador Lima, considerado o maior coringa do futebol brasileiro e uma das grandes estrelas daquele time.

 

 

Mesmo com a trégua estabelecida, o aparato militar foi gigantesco. “E o povo da cidade de Benin pode ver Pelé, pode ver Lima, Edu, Joel Camargo, deuses negros em imaculadas camisas brancas”, relata Nascimento. “A vinda daqueles homens de branco, serviu como uma esperança ao povo que sofria entre a ditadura e o movimento separatista. E como por mágica, como um filme de Hollywood, a paz chegou. Por poucas horas, mas chegou”, completa.

 

Mais uma vez, vários jogadores do alvinegro santista, como Gilmar e Coutinho, afirmaram que tão logo o avião decolou, foi possível ouvir os tiros da guerra que recomeçava.

 

Adaptado do texto “E a guerra parou…”

Revista Leituras da História Ed. 49