Futebol e história: a vergonhosa derrota da seleção chilena em tempos de ditadura

Em meio a prisões, torturas, sangue e morte, aconteceu, no Estádio Nacional de Santiago, no Chile, um dos mais infames episódios da História do Futebol

Por Rose Mercatelli | Foto: Santos FC | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Quarta-feira, 21 de novembro de 1973. Os 25 mil torcedores chilenos que pagaram para ver sua seleção jogar, nem de longe imaginavam que estariam prestes a assistir que o que se tornaria o gol mais vergonhoso de toda a existência do futebol de seu país. Menos de 30 segundos depois da saída de bola e de algumas tabelas entre Reinoso, Chamasco Valdés, Caszely e Crisosto, Valdés chuta de bico e… gol!!!

Seria um momento glorioso, não fosse por um detalhe: o chute de Valdés foi em direção a uma rede sem goleiro, nem defesa – sem um jogador sequer do time adversário.

 

Bombardeio em La Moneda

Em tese, a equipe da União Soviética deveria estar presente no jogo marcado quase dois meses antes. A partida seria a segunda disputa destinada à conquista de uma vaga para a Copa de 1974 na Alemanha. A repescagem envolvia dois times: um sul-americano, no caso o Chile, e um europeu, a seleção soviética, que já tinham se enfrentado no Estádio Lenin, em Moscou, no dia 26 de setembro de 1973.

 

No jogo de volta, em 1973, entre Chile e URSS (ausente), as autoridades soviéticas comunicaram à Fifa que a União Soviética não jogaria em um estádio que já serviu como campo de concentração | Foto: Reprodução

 

O resultado foi um tedioso 0 a 0, para o desalento de 60 mil russos que assistiram a partida. A vaga, então, seria decidida dois meses depois no Estádio Nacional de Santiago, no Chile. Segundo pesquisadores, a primeira partida não foi televisionada para a América do Sul por decisão das autoridades chilenas. Os novos dirigentes do país não queriam imagens de sua seleção jogando (e talvez  perdendo) com os soviéticos, comunistas e simpatizantes do ex-presidente socialista Salvador Allende, deposto do  cargo pela junta militar comandada pelo general Augusto Pinochet.

 

A figura do militar era desconhecida para os 15 milhões de chilenos até a manhã daquele 11 de setembro de 1973, quando liderou o golpe armado que terminou com o suicídio do presidente Allende, no Palácio de La Moneda. A sede do governo foi bombardeada pelas forças armadas do país. A partir daí, iniciou-se um terrível regime de repressão contra o povo chileno, que durou mais de uma década.

Confusão diplomática

Dias antes da partida no Chile, porém, começaram os rumores de um possível boicote do time europeu ao jogo em Santiago. O presidente da Federação Soviética de Futebol, Valentin Granatkin, foi o primeiro a se manifestar contra a realização do jogo no Estádio Nacional, que depois do golpe, virou campo de concentração de presos políticos.

 

Jogo de ida entre URSS e Chile, em Moscou | Foto: Reprodução

 

A confirmação do boato veio com um telegrama da Agência Estatal de Notícias, no qual o governo soviético informava: “Por considerações morais, os esportistas soviéticos não podem jogar nesse momento no estádio de Santiago, salpicado de sangue de patriotas chilenos”. A decisão final teria partido do próprio Kremlin, o centro do poder político da União Soviética, diretamente do então secretário-geral do Partido Comunista Soviético, Leonid Brejnev. O historiador Gilberto Agostino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor do livro Vencer ou Morrer: Futebol, Geopolítica e Identidade Nacional, afirma que não era de se estranhar o fato de o governo soviético intervir no futebol. A política centralizadora do governo soviético realmente controlava o comportamento dos atletas de todas as seleções. Com o futebol não seria diferente.

 

A União Soviética cumpriu o que prometera, não viajou até Santiago e o Chile se classificou, sem jogar, para a Copa da Alemanha. “Os soviéticos afirmaram que até disputariam a partida em qualquer outro local, menos no Estádio Nacional de Santiago. Mas o presidente da Fifa, na época o inglês Sir Stanley Rous, nem quis ouvir os argumentos soviéticos  e manteve o jogo no Estádio Nacional”, disse o historiador Guilherme Nascimento, pesquisador da história do Santos Futebol Clube em entrevista a Leituras da História. Entretanto, a organização mudou de ideia e resolveu investigar o uso indevido do estádio transformado em centro de prisioneiros políticos.

 


O Estádio Nacional do Chile foi usado como prisão e local para tortura e fuzilamento, pela junta militar golpista de Pinochet | Foto: Reprodução

 

De acordo com o ensaísta e historiador chileno Felipe Victoriano, nesse meio tempo, aconteceu um fato pouco divulgado na época, até porque toda a imprensa de lá (e daqui) estava sobre censura do Estado. Segundo o historiador, cuja tese de mestrado sobre os desaparecidos do Chile foi defendida na Tulane University, Nova Orleans, EUA, a Fifa teria enviado a Santiago uma comissão, composta por um suíço e um brasileiro, no dia 24 de outubro de 1975, ao Estádio Nacional do Chile.

 

Embora no dia da visita ainda existissem cerca de 7 mil presos nas dependências do complexo esportivo, a comissão informou à própria Federação Internacional de Futebol e às autoridades chilenas que tudo estava dentro da mais  perfeita ordem e que o jogo poderia ser disputado no local.

 

Foto: Fabiana Neves

 

 

Plano “B”

Apesar do conhecimento antecipado que não haveria jogo, os ingressos continuaram a ser vendidos, até porque a cúpula chilena já tinha um trunfo para evitar o fiasco do que seria o  primeiro evento popular patrocinado pela ditadura recém-nascida. A festa contaria com a presença do Santos FC, convidado para jogar contra a seleção chilena no mesmo gramado que os soviéticos se recusaram a pisar: “O convite feito ao time do Santos foi um apelo claramente popular do então ditador Pinochet, não só para sacramentar a entrada do Chile na Copa da Alemanha, como para agradar ao povo chileno que, como todo sul-americano, é apaixonado por futebol“, revela o pesquisador e jornalista Odir Cunha, autor de vários livros sobre futebol.

 

 

Na tentativa de melhorar a imagem de seu governo aos olhos do povo chileno e do mundo, Augusto Pinochet  fez questão que o jogo contra o time santista fosse transmitido pela televisão (ao contrário do primeiro), com retransmissão para alguns países da América Latina e da Europa. “Na época, o Santos era o time brasileiro preferido dos chilenos até porque foi o campeão de dois torneios hexagonais, de 1965 e 1970, além do octogonal de 1968, todos disputados no Chile”, confirma o jornalista.

 

 

Vicissitude inesperada

Alheios aos problemas políticos, os jogadores santistas entraram em campo para defender a camisa branca de seu uniforme contra “la roja” (a vermelha) como era conhecida a seleção chilena. “Para desgosto do ditador Pinochet, o jogo terminou com uma grande goleada santista por 5 x 0, estragando a festa preparada pelos dirigentes chilenos. Foi uma saborosa vingança para aqueles que abominam a violência e a brutalidade”, lembra o historiador Guilherme Nascimento.

 

Resistência de Allende ao ataque aéreo sobre o Palácio La Moneda, Santiago | Foto: Orlando Lagos/The New York Times

 

A goleada histórica aconteceu apesar da presença de Figueiroa, considerado o melhor jogador de futebol do Chile de todos os tempos e eleito o melhor zagueiro da Copa de 1974. Dizem que seu lema era: “A grande área é minha casa. Aqui só entra quem eu quero.” Mesmo assim o time santista não se intimidou e acabou com a festa da seleção vizinha.

 

 

Fazia parte das celebrações programadas para aquele dia uma homenagem a Pelé que não jogou, alegando contusão: “Se não pôde ou se não quis, apenas o rei do futebol poderá esclarecer”, conclui Nascimento. O clube santista foi muito criticado pela imprensa brasileira por ter aceitado o convite para substituir a seleção soviética. “Porém, o time era profissional e o cachê de 30 mil dólares representava um bom dinheiro na época. No final, além do seu fantástico futebol, o time santista mostrou que não foi lá para fazer média com o governo chileno ao aplicar uma goleada histórica em um momento político delicado à seleção do país”, diz Odir Cunha.

 

 

O cenário do terror

O Estádio Nacional de Santiago, que virou prisão no dia seguinte ao golpe, era a última parada para milhares de vítimas. Já no dia 12 de setembro, 600 prisioneiros políticos vindos da Universidad Técnica del Estado foram transferidos para lá. Até 7 de novembro do mesmo ano, estima-se que o número de presos políticos girava entre 12 e 40 mil, detidos em um primeiro momento no Estádio Nacional de Santiago. A Cruz Vermelha calculou 7 mil em apenas um dia. Mais de 150 mil chilenos foram para o exílio.

 

“Os militares prenderam, torturaram e mataram no centro do gramado, em grupos de quatro prisioneiros por vez, intelectuais, artistas, sindicalistas, socialistas e comunistas, inclusive o compositor Victor Jara, que teve as mãos trituradas durante as torturas sofridas e foi morto a tiros no interior do estádio”, conta o professor Guilherme Nascimento.

 

 

Projetado pelo arquiteto austríaco Karl Brunner e inaugurado em 3 de dezembro de 1938 pelo presidente Arturo Alessandri Palma, o Nacional do Chile teve seu projeto arquitetônico inspirado no Estádio de Berlim, construído por Hitler para as Olimpíadas de 1936. Segundo a opinião de historiadores, a inspiração não se limitou à arquitetura das instalações  que,além do campo de futebol, reunia no mesmo complexo um velódromo e uma pista de atletismo.

 

 

Escotilha 8

Mais do que a semelhança física entre os dois campos esportivos, a crueldade e a brutalidade impostas por Adolf Hitler, parece terem sido transferidas por Augusto Pinochet ao Estádio Nacional do Chile. Até hoje, quase 40 anos depois do golpe, as recordações das torturas e mortes ocorridas no local ainda rondam os muros pichados do estádio da capital chilena e ajudam a alimentar histórias de que o lugar é habitado por fantasmas dos torturados. Em algumas áreas do complexo, funcionários do estádio juram ouvir gritos e batidas de portas, principalmente nas proximidades do portão de entrada chamado de “Escotilha 8”.

 

Na verdade, muitos dos que passaram por lá, não chegaram a sair. Localizada atrás de uma das traves do Estádio Nacional do Chile, a área projetada como rampa de acesso, durante o início da ditadura, foi usada como local de tortura de presos políticos. Muitos deixaram seus nomes registrados nas paredes antes de morrer para que, quem sabe um dia, sua história viesse a público.

 

 

Adaptado do texto “Santos 5 X 0 Ditadura Pinochet”

Revista Leituras da História Ed. 53