Gazeta de Notícias deixou imparcialidade para defender os chineses

No século 19, os chineses poderiam ter vindo para o Brasil; e foi um jornal carioca, a Gazeta de Notícias, que ajudou a decidir a questão

Por Kamila Czepula | Fotos: www.entretenimento.r7.com | Adaptação web Caroline Svitras

Em 2 de agosto de 1875, chegava às ruas do Rio de Janeiro o primeiro exemplar de a Gazeta de Notícias, fundada pelos editores Ferreira de Araújo, Manuel Carneiro e Elísio Mendes, e pelos redatores Henrique Chaves e Lino de Assunção. A folha, que aparentemente era muito semelhante aos demais jornais, propunha inovar e queria pra si as nomenclaturas de popular, barato e liberal. Para atingir esses propósitos, iniciou na cidade o sistema de venda avulsa dos seus exemplares, por meio de pequenos jornaleiros que gritavam por todos os cantos os títulos dos seus textos; textos estes, que tinham como finalidade serem de fácil assimilação, atraentes, instigantes, que pudessem despertar a curiosidade, o fascínio nos leitores.

 

Sua tiragem de 12 mil exemplares deixava claro para os seus concorrentes que vinha para ficar. E escritores dos mais estimados da época, como Eça de Queiroz, Aluísio Azevedo e José do Patrocínio – com outros colaboradores de renome – publicavam em suas páginas, conquistando um público ainda mais amplo para o jornal. Por conta disso, em pouco tempo, a Gazeta se tornou um importante instrumento de informação – e consequentemente, de influência na vida política da corte.

 

Dilema da verdade

Na época, a Gazeta de Notícias tinha orgulho de se propor uma ‘imprensa imparcial’, que cumpria seu compromisso de informar seus leitores sem tomar partido. Mas tal proposta foi por água abaixo em pouco tempo. Quando surgiu a “questão chinesa” no Brasil, uma das primeiras coisas que a Gazeta fez foi tomar um partido.

 

Mas o que era essa “questão chinesa”? A partir de setembro de 1879, o debate sobre uma possível imigração chinesa para o Brasil ganhava terreno na Câmara dos Deputados. O Governo imperial brasileiro, inspirado nas experiências dos Estados Unidos, Cuba e Peru, buscava meios de importar chineses para substituir a mão de obra escrava, cujos números estavam em franco declínio por conta das interdições feitas pela Inglaterra. O debate envolvia grandes personalidades da política e da intelectualidade brasileira na época, e a Gazeta de Noticias, possuía uma coluna fixa, o “Diário das Câmaras”, que fornecia para seu público um resumo detalhado de todos os embates ocorridos nas sessões parlamentares.

 

A Gazeta de Notícias resolveu ir contra as pretensões do Império. Abolicionistas convictos, os editores resolveram se posicionar contra, também, a exploração dos chineses no Brasil. E foi assim que o jornal deu voz a um jovem e expoente deputado, que até então apenas começava a se destacar: Joaquim Nabuco. Nabuco enxergava vários perigos na vinda dos chineses, desde a continuidade da escravidão disfarçada de “contrato”, mas também, com as possíveis influências étnicas e culturais que poderiam acontecer com a vinda dos mesmos. Com um preconceito indisfarçável, ele tomava as páginas do jornal para afirmar: “Deveria, pois, se perguntar o que vai sair dessa combinação? Antes de tudo é necessário saber se o chim é preciso, se é reclamado, se é conveniente, se pode ser um elemento de progresso, um agente útil para a transformação do Trabalho.” (Gazeta, 02/09/1879)

 

Num trabalho quase diário de crítica, a Gazeta conseguiu angariar um grande apoio junto ao público. Mobilizando os leitores, e ocasionalmente dando um espaço mínimo para que o governo pudesse responder, o jornal conseguiu mostrar a força dos veículos de informação. Os responsáveis pelo jornal ainda dispunham de correspondentes internacionais, capazes de traduzir matérias em inglês e francês, além de levar as notícias brasileiras para outros países.

 

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Adaptado do texto “Extra, Extra: os chins estão vindo!”