Greve dos jornalistas de 1979

No fim da década de 70, os movimentos grevistas se espalharam por todo o Brasil. O foco deflagrador das greves no país era o ABC Paulista, berço do processo grevista dos metalúrgicos

Por Wagner Ribeiro | Foto: Jesus Carlos/Imagemlatina | Adaptação web Caroline Svitras

 

A greve dos jornalistas de São Paulo durou 22 dias e foram realizadas duas assembleias. A primeira delas aconteceu em 17 de maio de 1979, na Igreja da Consolação, e contou com a presença de 1.500 jornalistas. Por meio do sindicato, os profissionais reivindicavam aumento salarial de 25%, mais imunidade para os representantes sindicais nas redações. Nessa ocasião, a proposta da greve fora aprovada, mas não houve o quórum de dois terços dos votantes conforme deliberado pelo Comando Geral de Mobilização (CGM). Tudo foi motivado mais pelo clima efervescente que tomava conta da classe trabalhadora, inclusive dos jornalistas de São Paulo. Mas, a paralisação que iniciou sem consenso entraria para a história não pelo sucesso, mas pela desorganização, pelo fracasso e, mais ainda, pelas demissões em massa que provocou.

 

De acordo com o jornalista Audálio Dantas, havia ainda mais uma reivindicação. O Jornal do Commercio publicou na época uma matéria revelando que o ministro Delfim Neto havia falsificado os dados sobre e inflação e abocanhara 34,1% dos ordenados dos trabalhadores e os jornalistas queriam a reposição dos salários.

 

Logo que os donos dos jornais descobriram a organização da greve, houve tentativa de negociação para impedir a paralisação das redações. As empresas ofereceram adiantamento de 16% como antecipação dos salários, a serem descontados na data-base da categoria, em dezembro do mesmo ano. Mas a proposta dos empresários, além de não ser aceita, provocou revolta na classe – que ficou muito clara a partir do resultado da votação na segunda assembleia.

 

1ª assembleia realizada na Igreja da Consolação

 

Realizada na noite de 22 de maio no teatro da PUC de São Paulo, o Tuca, estiveram presentes na segunda assembleia 1.692 jornalistas e a proposta da greve fora aprovada por 90% dos profissionais presentes, sem propostas alternativas. Foi decretada definitivamente a greve geral.

 

Rotativas paradas?

Com a greve geral, o objetivo dos jornalistas era a paralisação total das redações. Nenhuma edição dos jornais deveria ser impressa. Mas os esforços foram inúteis. No dia seguinte, os jornais estavam nas bancas e noticiando, inclusive, a greve. No caso da Folha de S. Paulo, o jornal saiu com menos páginas, mas saiu. A edição fora produzida por Boris Casoy, na época diretor da Folha, em parceria com Eduardo Suplicy e mais alguns poucos jornalistas.

 

Os grevistas começaram a receber represálias, com demissões no jornal O Estado de S. Paulo e na emissora Globo. Para Geraldo Mayrink, em entrevista para O Pasquim, em 6 de junho de 1979, os profissionais que furaram a greve tiveram importância fundamental para o fracasso do movimento, já que eles garantiram, desde o início, a produção das empresas. Estima-se que 20% dos grevistas iniciais voltaram ao trabalho durante a greve.

 

90% dos profissionais presentes na 2ª assembleia aprovaram a greve geral

 

Diversos piquetes foram realizados em frente aos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo para impedir a distribuição dos periódicos. Os piqueteiros entraram em confronto com a polícia, contrariando as orientações do Comando Geral da Greve, para que o movimento fosse de “desgaste” e não de violência. No total, 12 jornalistas ficaram feridos. O Sindicado dos Jornalistas de São Paulo não possui um número exato de quantos profissionais foram presos.

 

O jornal O Estado de S. Paulo elaborou complicada operação para transportar os colaboradores que furavam a greve. Um ônibus da empresa apanhava os funcionários no centro de São Paulo. Para entrar no jornal, utilizavam o portão destinado aos gráficos. As cortinas dos ônibus eram fechadas para que ninguém fosse identificado pelos piqueteiros e todos tivessem a integridade moral e física resguardadas.

 

Piquete em frente ao jornal Folha de São Paulo

 

As negociações dos reajustes salariais são um ponto sombrio dessa greve. Não há registros oficiais das ofertas e recusas de reajustes salariais. Em entrevista para o jornal O Pasquim, em 6 de junho de 1979, David de Moraes diz: “Ficam por aí dizendo que nós recusamos propostas de até 6%. Eu seria estúpido se fizesse isso. Nunca foi formalizada proposta de aumento de 6% nem de 4%. Se os dois sindicatos tivessem formalizado proposta de 2%, nós poderíamos ter aceitado. E, terminada a greve, continuaríamos as negociações.”

 

Em 28 de maio, seis dias após o início do movimento grevista dos jornalistas de São Paulo, o tribunal Regional do Trabalho julgou a greve ilegal e ordenou que os profissionais voltassem ao trabalho.

Os efeitos da paralisação

Após a greve ser declarada ilegal, iniciou-se o processo de retaliação aos grevistas. Cerca de 200 profissionais foram demitidos das redações. Muitos deles migraram para assessorias de imprensa e comunicação corporativa. Em entrevista para o jornal Unidade, o jornalista Boris Casoy comentou que, com a greve, as empresas perceberam que podiam produzir os jornais com menos jornalistas. “Assim que a greve foi declarada ilegal, o senhor Frias percebeu que havia gente demais e decidiu enxugar as redações”, completa Casoy.

 

Pichações nas ruas da cidade de São Paulo

 

A greve dos jornalistas deu força, de acordo com José Augusto Camargo, atual presidente do Sindicato dos Jornalistas, para que a imprensa brasileira entrasse na década de 80 disposta a se reciclar, tanto do ponto de vista tecnológico quanto empresarial. “Pouco a pouco, a imprensa foi deixando de ser um negócio familiar para se tornar um empreendimento comercial”, analisa Camargo. “A redação deixou de ser o centro das decisões, que agora passam pelos acionistas e por outros departamentos administrativos”, completa.

 

O jornalista Audálio Dantas, no período da greve, era deputado federal e não participou ativamente da paralisação. “Moralmente, eu não podia me pronunciar, mas acompanhei de perto e fiz o que estava ao alcance”, diz. “A greve de fato foi um fracasso para a classe dos jornalistas, mas é inegável a importância dela para a profissionalização da imprensa brasileira”, finaliza.

 

Revista Leituras da História Ed. 67

Adaptado do texto “A imprensa quase parou”