Heroínas da 2ª Guerra Mundial

Milhares de mulheres de várias nacionalidades, mesmo sem pegar em armas, lutaram com coragem para combater um dos maiores horrores da história da humanidade

Por Rose Mercatelli | Foto: swns.com | Adaptação web Caroline Svitras

 

No imaginário popular, a participação da mulher nas guerras está intimamente ligada à figura heroica da enfermeira que, na frente de batalha, enfrenta o perigo e a exaustão no atendimento aos soldados feridos, mutilados e apavorados com a ideia de morrerem sozinhos, em lugares distantes de sua terra. Na 2ª Guerra Mundial, enfermeiras de vários países realmente tiveram um papel fundamental para amenizar os horrores dos campos de batalha.

 

Porém, milhares de mulheres também lutaram em outras frentes: dirigiam caminhões, transportaram monomotores em voos cegos, saltaram de paraquedas levando equipamentos, armas e explosivos para os grupos de resistências atuantes em vários países, garimpavam informações para os serviços de inteligência, sabotaram pontes.

 

Haika Grosman, uma dos organizadoras do gueto subterrâneo e participante da revolta no gueto Bialystok | Foto: United States Holocaust Memorial Museum

 

Algumas integraram organizações de resistência dentro de seus países ocupados. A judia Haika Grosman, por exemplo, membro ativo do movimento sionista, liderou a resistência judaica em Bialystok, nordeste da Polônia, levando armas para o interior do gueto. Outras atuaram nos próprios campos de concentração. Em Auschwitz I, cinco judias que trabalhavam na separação de munições – Ala Gertner, Regina Safirsztajn, Ester Wajcblum, Roza Robota e uma mulher não identificada forneceram a pólvora que foi usada para explodir uma câmara de gás e matar vários homens das SS durante um levante de membros do Sonderkommando (Grupo Especial) judeu naquele campo, em de outubro de 1944. Outras ainda, como Hannah Szenes que saltou de paraquedas na Hungria, em 1944, para ajudar os judeus e acabou barbaramente torturada pelos alemães, participaram das operações de resgate e socorro aos judeus nos países ocupados. Milhares morreram, mas muitas sobreviveram e tiveram tempo de contar suas histórias. Saiba mais sobre elas:

 

 

 

Ases indomáveis

“Melhor fracassar do que lamentar.” O lema sempre norteou a vida de Joy Lofthouse, uma das 168 integrantes da Air Transport Auxiliary (ATA), um órgão que dava suporte aos transportes aéreos britânicos, e uma das cinco protagonistas do livro The Female Few: Spitfire Heroines of the Air Transport Auxiliary, da jornalista inglesa Jacky Hyams.

 

Joy Lofthouse, piloto do avião Militar Spitfire | Foto: Sam Furlong/RAF Museum photo collection

 

Em um dia de 1943, Joy atendeu a um anúncio feito pela ATA, o qual oferecia treinamento para pilotos para suprir a demanda de profissionais qualificados. Apesar de não saber dirigir um carro, Joy foi classificada e não teve a menor dificuldade em aprender a dominar aviões. Seu preferido, entre os modelos que comandou, a maioria constituída de monomotores, era o Spitfire, um avião compacto, fácil de manobrar: “Era como se o próprio piloto tivesse asas e pudesse voar”, declarou Joy à jornalista Jacky Hyams.

 

 

Voos às cegas

As pilotos da ATA pertenciam aos quadros da aviação civil, mas tecnicamente voavam sob orientação da  Royal Air Force (RAF) britânica. A missão era pegar os aviões na fábrica e levá-los às unidades de manutenção para serem equipados com rádios e armas. Por isso, todos tinham de pilotar o modelo que aparecesse. A única ajuda vinha de um manual, o Ferry Pilot’s Notes (notas de um piloto de transporte). Ao se deparar com um avião desconhecido, o jeito era abrir a página correspondente ao modelo, checar as velocidades de decolagem, de aterrissagem, de perda de sustentação e alçar voo, sem tempo nem para sentir medo. Na maior parte das vezes, as inglesas voavam às cegas, sem instrumentos nem rádios e ainda enfrentavam o terrível clima inglês com seus intensos nevoeiros.

 

A ex-piloto Mary Ellis contou que pilotava um avião levando uma engenheira quando a aeronave caiu. A passageira morreu no acidente. Mary recebeu uns dias de folga, mas logo estava de volta, sem ter podido lamentar a morte da companheira de trabalho. Tudo fazia parte do esforço de guerra que centenas de milhares de mulheres que se dispuseram a enfrentar a morte para combater o nazismo.

 

Por amor à liberdade

A mais condecorada heroína da 2ª Guerra Mundial, Nancy Wake (1912-2011), nasceu na Nova Zelândia, mas se mudou com sua família para Sidney, na Austrália, com 2 anos de idade. A independência era seu traço mais marcante. Tanto que sua frase favorita nas matérias que escreveu para o jornal americano Chicago Tribune, no qual trabalhou como correspondente na França, foi: “A liberdade é a única coisa pela qual vale a pena viver.”

 

Conhecida por sua coragem e por salvar milhares de vida, Nancy Wake ajudou a resistência francesa a preparar o terreno para os desembarque do Dia D | Foto: AP

 

Ao entrevistar Adolf Hitler em Viena, em 1933, Nancy percebeu o que estava para acontecer na Europa. Sua luta se intensificou com a invasão da França pela Alemanha em 1940, ao unir-se à Resistência francesa para ajudar centenas de judeus a escapar do regime nazista. Ela mesma conseguiu fugir da Gestapo e foi para a Inglaterra, onde recebeu treinamento em espionagem antes de trabalhar para a Divisão de Operações Especiais Britânicas.

 

 

Legião de Honra

Sua habilidade para fugir dos nazistas era tanta que recebeu o apelido de Rato Branco do comando da SS. Durante seu tempo na Resistência francesa participou de inúmeros atos de sabotagem contra as tropas alemãs enquanto ajudava o comando britânico a preparar o desembarque nas costas da Normandia, no que ficou conhecido como o Dia D. Em abril de 1944, saltou de paraquedas em território francês para levar armas aos combatentes da Resistência francesa.

 

Por sua bravura, Nancy foi condecorada com a Legião de Honra, o maior reconhecimento militar concedido pelo governo francês, além de ter também sido agraciada com outras condecorações do Reino Unido, Estados Unidos e Nova Zelândia.

 

 

Motorista de caminhão

Em uma madrugada gelada do dia 10 de fevereiro de 1940, a família da adolescente polonesa Danuta Maczka acordou com fortes pancadas na porta dos soldados soviéticos que vieram com ordens para que todos desocupassem suas casas na região rural de Rovne (atual Ucrânia).

 

Danuta Maczka, foto tirada em 1945, na Itália | Foto: Kresy-Siberia Foundation

 

Na estação de Lubomyrka, os Maczka e outras centenas de famílias polonesas embarcaram em um trem de carga rumo à Sibéria e ao Cazaquistão, onde todos seriam submetidos a trabalhos forçados pelos russos. Encurralados em vagões com um buraco no assoalho fazendo as vezes de latrina, os prisioneiros dividiam um só fogareiro para aquecê-los. Enquanto viajava, Danuta registrava em seu diário as atrocidades que presenciava. Os adultos, bebês e crianças mortas na viagem simplesmente eram atirados pelas janelas pelos guardas soviéticos.

 

 

Estepes russas

Os dias de horror continuaram quando os prisioneiros chegaram aos antigos campos de prisioneiros, os temíveis gulacs, de onde saiam apenas para cortar madeira nas florestas geladas e estranhamente silenciosas, onde nem os temíveis lobos das estepes ousavam viver. Em junho de 1941, quando as tropas alemãs invadiram a União Soviética, muitos dos prisioneiros poloneses formaram seu próprio Exército com a missão de partir para o Uzbequistão. Sob o comando do general Wladislaw Anders, família inteiras com maridos, esposas e milhares de crianças, muitas delas órfãs, viajaram pela Ásia Central até o Mar Cáspio e de lá para o Irã.

 

Capa do diário de Danuta, que narra a trânsição de sua infância na Polônia, para o campo de trabalho na Sibéria e a inserção exército polonês | Foto: Gradosielska family archive and Kresy-Siberia

 

 

Nesta página do diário de Danuta, ela relata que aprendeu a dirigir caminhão na Palestina, juntamente com outras mulheres polonesas | Foto: Gradosielska family archive and Kresy-Siberia

 

Ao chegar ao seu destino, Danuta, então com 16 anos, alistou-se. Sua função era dirigir um caminhão de três toneladas levando munição e alimentos para as forças polonesas e britânicas espalhadas por toda a Palestina. Era tão baixinha que tinha de sentar em cima de um cobertor dobrado para enxergar direito. Sempre como motorista de caminhão, Danuta seguiu para a Itália, em 1943, para dar suporte às tropas polonesas na batalha de Monte Casino. Foi lá que ela conheceu o jovem oficial polonês com quem viria a se casar na Inglaterra depois de terminada a guerra.

 

 

Rosa Branca

Em 22 de fevereiro de 2013, a alemã Liselotte Fürst-Ramdohr, 99 anos, recordava a morte de seus amigos, acontecida há exatamente 70 anos – eles foram presos e mortos pela Gestapo. Juntamente com Alexander Schmorell, Christoph Probst e Hans Scholl e sua irmã Sophie Magdalena Scholl, Liselotte, na época com 29 anos, viúva de um ex-combatente alemão, morto no front russo, fazia parte da Rosa Branca, um grupo de resistência de universitários alemães que lutavam contra as atrocidades do governo nazista escrevendo e distribuindo panfletos contra Hitler. Sua principal função era esconder o material produzido pelo resto do grupo em um armário de vassouras de seu apartamento.

 

Liselotte Fürst-Ramdohr – ou Lilo, não era ativista da Rosa Branca, no entanto, foi plenamente aceita por seus membros. Sua principal função era a de esconder o material produzido pelo grupo | Foto: STA

 

Presos e executados

No dia 18 de fevereiro, os irmãos Scholl distribuíam seus panfletos nas escadarias da Universidade de Munique quando foram vistos e delatados à Gestapo por um funcionário. Os dois foram presos, julgados culpados e executados na guilhotina quatro dias depois. O resto do grupo entrou em pânico.

 

Hans e Sophie Scholl com Christoph Probst, membros da Rosa Branca,1942 | Foto: akg-images / Wittenstein

 

Liselotte escondeu Alexander Schmorell e o ajudou a fugir para a Suiça com um passaporte falso, mas ele foi denunciado por uma ex-namorada e acabou executado pelos nazistas. Liselotte foi presa no dia 2 de março e ficou detida na sede da Gestapo por um mês para ser interrogada sobre as atividades do grupo. Como não conseguiram nenhuma prova que a incriminasse, foi liberada, mas permaneceu vigiada pela polícia secreta quase até o fim da guerra, quando conseguiu fugir de Munique para Aschersleben, perto de Leipzig, onde se casou novamente e abriu um teatro de marionetes.

 

 

A princesa espiã

Corajosa e bem-educada, Noor Inayat Khan inspirava respeito em seus oponentes apesar de seu ar frágil e glamoroso. Filha de pai indiano e mãe americana, Khan nasceu em 1º de janeiro de 1914, em Moscou, e herdou de seu bisavô indiano um profundo desprezo por qualquer tipo de regime totalitário. Seu pai, descendente da realeza indiana, transferiu-se com a família para Londres, onde sua filha passou a infância e, depois, para Paris, onde ela estudou medicina e música. Em 1939, antecipando-se ao conflito que estava por vir, Khan começou seu treinamento de enfermeira para atuar pela Cruz Vermelha assim que a guerra fosse declarada.

 

Mas antes de a França ser invadida pelas tropas de Hitler, Khan fugiu para a Inglaterra de barco, acompanhada pela mãe e pela irmã. Alistou-se, logo após sua chegada, como operadora de rádio na Women’s Auxiliary Air Force (WAAF), um órgão que servia de apoio à Royal Air Force (RAF) britânica. Por ser bilíngue, logo chamou a atenção dos dirigentes do Serviço de Operações Especiais (SOE), uma facção de elite criada por Winston Churchill, com a missão de “por fogo na Europa ocupada”, segundo palavras do então primeiro-ministro.

 

Noor Inayat Khan, operadora de rádio da SOE. Ela foi criada por seu pai Sufi, para ser pacifista, sendo suas únicas armas um passaporte falso e uma pistola | Foto: SOE

 

 

Coragem e determinação

Sob o codinome Madeleine, passou a integrar o grupo Prosper de resistência e, apesar de saber que havia um espião nazista infiltrado no grupo, ela continuou seu trabalho sem ligar para o perigo, ainda que seus superiores insistissem em sua volta à Inglaterra.

 

Sozinha, liderou uma célula de resistência, até que foi capturada pela Gestapo, com seu grupo. Enviada para Pforzheim, na Alemanha, ficou presa e acorrentada na solitária por ser considerada uma agente altamente perigosa pelos nazistas. Em setembro de 1944, a espiã foi transferida para o campo de concentração de Dachau, onde foi executada.

 

Em sua biografia Spy Princess: The Life of Noor Inayat Khan (ainda não publicada em português), a biógrafa Shrabani Basu chama a atenção para um fato desconhecido para a maioria dos ocidentais: “Dois milhões e meio de indianos entraram na guerra como voluntários. Foi o maior exército voluntário. E Noor Inayat Khan fazia parte disso.”

 

 

Mulheres no comando

De pequenos, Tom e Sue escutavam a mãe, a médica Marianne Steinberg Ostrand, contar histórias sobre sua infância e juventude passadas na Alemanha na década de 30. Eram recordações felizes, cheias de piqueniques, férias de verão e competições esportivas. Nas lembranças de Marianne, sempre estavam presentes sua mãe Selma e sua tia Henny como se fossem o centro da vida daquela vasta família. As crianças, entretanto, nada sabiam do que tinha se passado com a chegada de Adolf Hitler. E nem perguntavam, pois sabiam que Marianne sofria ao revelar um ou outro detalhe.

 

Em 2002, Sue encontrou na casa de sua mãe, então com 91 anos e sofrendo de mal de Alzheimer, vários pacotes de correspondências trocadas por seus parentes entre os anos 20 e 40 e até mesmo depois da 2ª Guerra, vindas de outros países como Chile e Israel. Boa parte das correspondências estava escrita em alemão.

 

O perigoso programa atômico que a Alemanha desenvolveu na 2ª Guerra Mundial

 

Em dúvida do que fazer com mais de 600 cartas, bilhetes, fotografias e cartões postais, a bióloga Sue foi procurar a amiga Rebecca Boehing, professora de História da Alemanha na Universidade Baltimore County, de Maryland. A historiadora, então, convidou sua colega Uta Larkey, professora de História do Goucher College, também em Baltimore, para trabalharem juntas naquele rico material que cobria mais de 80 anos de história.

 

O resultado foi o livro Sob o Fantasma do Holocausto – A Vida, a Morte e a Perda de Identidade de uma Família Judaica na Alemanha de Hitler, lançado pela Editora Cultrix em junho de 2013. É uma biografia coletiva da trajetória dos Kaufmann-Steinberg – uma família judaico-alemã que foi comandada por mais de duas décadas pelas irmãs Selma e Henny, respectivamente avó e tia-avó de Sue. As duas empresárias, em uma época em que a classe empresarial era dominada pelo sexo masculino, fizeram um esforço colossal para manter as famílias unidas e com coragem para enfrentar o terror que se alastrava entre as comunidades judaicas de uma Europa mergulhada em duas grandes guerras em um período de 20 anos.

 

 

Os anjos da FEB

Foi dessa maneira poética que ficaram conhecidas as brasileiras que embarcaram em 1944 para a linha de frente na Itália. Na verdade, até 1943, o governo brasileiro não contava com enfermeiras em suas tropas, até porque era proibido que mulheres fizessem parte dos quadros das Forças Armadas.

 

Porém, com a entrada do Brasil na guerra, o governo de Getúlio Vargas, cedendo a um pedido (quase uma intimação) dos aliados norte-americanos, criou um corpo de profissionais em enfermagem para auxiliar o corpo médico americano que, além de sobrecarregado, não tinha ninguém que falasse português.

 

Elza Cansanção Medeiros | Foto: Gradosielska family archive and Kresy-Siberia

 

A primeira a se alistar foi a carioca Elza Cansanção Medeiros que fez parte da primeira turma do Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército. Como falava fluentemente inglês, Elza também foi a primeira a embarcar para a Itália em julho de 1944. Chegando à Nápoles no dia 15 de julho, teve a missão de receber os soldados brasileiros do 1º Escalão da FEB que desembarcaram do navio de guerra USS General Mann. Logo no início, Elza enfrentou sua primeira batalha fora do campo de combate. Como enfermeiras de 3ª Classe e sem patente militar, as brasileiras sofriam humilhações constantes por parte de suas colegas norte-americanas, todas oficiais. Elas não podiam frequentar a cantina dos oficiais e nem o refeitório dos pracinhas, pois não pertenciam a nenhuma das categorias. Elza, então, levou o problema ao general Mascarenhas de Moraes, comandante da Força Expedicionária Brasileira, que, de um dia para o outro, alçou todas brasileiras ao posto de 2º tenente que, dessa maneira, pelo menos, tinham um lugar para fazerem refeições.

 

A entrevista que ajudou a derrubar Vargas

 

 

Serviço duro

Mas os problemas não pararam por aí. Em uma clara demonstração de racismo, as autoridades militares americanas proibiram que fossem convocadas enfermeiras brasileiras negras, ainda que devidamente capacitadas para exercer sua função. Mesmo assim, entre as 67 profissionais que embarcaram, três mulatas seguiram para a Itália.

 

Os trabalhos nos quatro hospitais de campanha para as quais foram designadas eram insano, pois não atendiam só brasileiros e americanos. O socorro era prestado a civis e prisioneiros de guerra. Em seu livro de memórias Nas Barbas de Tedesco, Elza conta que seus pacientes alemães eram muito mais fáceis de tratar do que os brasileiros.

 

A situação era tão catastrófica que 13 não aguentaram a vida dos acampamentos e foram desligadas antes do término do conflito. Porém, 54 continuaram até voltarem para o Brasil no fim de 1945. Entre elas, estava Elza que, mesmo depois de terminada a guerra, continuou no Exército brasileiro. Ela foi também a mais condecorada brasileira da história, com 36 medalhas. A major Elza Cansanção Medeiros faleceu no Rio de Janeiro, aos 88 anos de idade, no dia 8 de dezembro de 2009.

 

 

Adaptado do texto “Heroínas de todas as frentes”

Revista Leituras da História Ed. 66