Heróis do Holocausto

Seis milhões de judeus foram assassinados durante a 2ª Guerra Mundial. O número de mortos teria sido maior se não fosse a coragem e a solidariedade de milhares de anônimos que lutaram contra as atrocidades do 3º Reich

Por Rose Mercatelli | Foto: Fabiana Neves | Adaptação web Caroline Svitras


Aos 21 anos, John Schoen vivia com sua família em Amsterdã, Holanda, quando uma amiga da resistência holandesa pediu a seus pais que abrigasse uma criança judia de cinco anos. A família de Suze van der Bijl (1939- 1999) foi mandada para Auschwitz. Só a garotinha se salvou por estar brincando na casa vizinha.

 

Os Schoen sabiam do risco ao abrigar Suze, mas nem por um minuto pensaram em negar ajuda. No início, a criança acordava todas as noites aos gritos chamando pelos pais, mas, com o tempo, foi se apegando à mãe de John: “Suze amou demais a minha mãe, assim como foi amada por ela”, conta ele no livro.

 

Suze van der Bijl | Foto: JWW

O pai de John era ferroviário e como tal fez parte de um boicote das ferrovias holandesas, dificultando o transporte de tropas nazistas. O movimento fracassou e a represália veio feroz. A família Schoen saiu de casa e se escondeu em uma gráfica que pertencia à resistência holandesa, da qual seus pais faziam parte. Até que um dia, os homens da Gestapo fizeram uma batida no local à procura de rebeldes. E nem desconfiaram que aquela garotinha morena, de olhos levemente puxados que lhes indicou o caminho do sótão, diferente do resto da família loura de olhos azuis, era judia.

 

John sabia que os amigos de seus pais preferiam garotas judias. O risco era menor. Se fosse um menino, poderia ser facilmente reconhecido pela Gestapo como judeu, por ter sido circuncidado ao nascimento, o que seria um indicador de sua origem. Antes mesmo de terminar a guerra, Suze passou por outros abrigos, mas nunca se desligou dos Schoen, mesmo depois de imigrar para os Estados Unidos. Até o fim de sua vida, em 1999, Suze e sua “família” adotiva mantiveram contato.

 

O Schindler português: Aristides de Souza Mendes (1885-1954)
Aristides de Souza Mendes | Foto: Reprodução

Católico devoto, filho de uma tradicional família da região de Viseu, Portugal, Aristides ingressou na carreira diplomática logo após ter se formado na Universidade de Coimbra. Foi adido cultural nos consulados de São Luiz do Maranhão, Curitiba e Porto Alegre.

 

Em 1939, no posto de cônsul-geral em Bordeaux, França, começou a criar problemas para o governo do ditador Antonio Salazar. Apesar de se declarar neutro, o governo de Portugal emitiu a Circular 14, na qual proibia a concessão de passaportes e vistos de entrada aos estrangeiros de nacionalidade indefinida ou apátridas e aos judeus expulsos de seus países e despojados de sua nacionalidade.

 

Souza Mendes considerava as ordens da Circular 14 inconstitucionais, já que a própria Constituição portuguesa garantia o direito a todos, independente da religião que professassem. Mesmo sabendo dos riscos, continuou a enviar pedidos de visto aos cidadãos judeus que eram sumariamente negados pelo governo de Lisboa.

 

Em 1940, com a queda da França frente aos exércitos alemães, os refugiados invadiram Bordeaux, desesperados para conseguir uma rota de fuga. Por ordem de Souza Mendes, todas as dependências do consulado e sua própria residência ficaram abarrotadas de judeus sem ter para onde ir, suplicando por um visto de saída.

 

Consciência em paz
Mário Soares | Foto: Claude-Ngoc Truong

Mesmo colocando em risco sua carreira diplomática, o embaixador, em 16 de junho de 1940, com dois filhos mais velhos, trabalhou sem parar durante três dias assinando milhares de vistos. Uma semana depois, ainda seguiu uma multidão até a fronteira da França com a Espanha, onde concedeu mais outros tantos vistos, mesmo sabendo das conseqüências que viriam a seguir.

 

Em agosto do mesmo ano, Souza Mendes voltou a Lisboa e teve de responder a 15 diferentes acusações. Apesar de ter sido punido com um rebaixamento de carreira por um tribunal constituído, Salazar o forçou a abandonar a carreira diplomática, causando-lhe a ruína financeira, pois nem pensão ele teve o direito de receber. O ex-embaixador só conseguia sustentar seus 12 filhos com o auxílio da comunidade judaica local.

 

Aristides faleceu em 1954 completamente na miséria. Apesar de todos os seus esforços jurídicos para resgatar o posto que lhe foi tirado, Souza Mendes só foi reconhecido e homenageado em 1986 pelo presidente Mário Soares, ele mesmo um exilado do governo Salazar.

 

Destinos cruzados: Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa (1908-2011)

Uma era judia, a outra brasileira. Ambas morreram com 102 anos com um intervalo de 10 dias entre uma e outra. Maria Margarethe Bertel Levy morreu no dia 21 de fevereiro de 2011 e, Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa, na madrugada de 3 de março do mesmo ano.

 

Mais do que uma coincidência, foi o desfecho perfeito para uma história de amizade que começou em 1938, quando Margarethe procurou o consulado brasileiro de Hamburgo para pedir um visto para o Brasil, fugindo da perseguição nazista. Lá encontrou Aracy. Com 26 anos, desquitada, fluente em várias línguas, Aracy passou a mão no filho pequeno e veio para a Alemanha em 1934 fugindo do preconceito brasileiro.

 

Aracy de carvalho | Foto: Divulgação

 

“Sem ser diplomata, Aracy ocupava no consulado de Hamburgo um cargo administrativo que se mostraria da maior importância estratégica. Desde 1936, ela era responsável pelo setor de passaportes, tratava diretamente da concessão de vistos, ainda que não tivesse autoridade para assiná-los, devendo submeter os pedidos ao cônsul-geral”, conta Mônica Raisa Schpun, autora de Justa, livro sobre a história daquela que foi o grande amor do escritor Guimarães Rosa.

 

Desobediência civil

Em 1938, entrou em vigor no Brasil a Circular Secreta 1.127 que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou a circular e continuou preparando vistos para judeus. Entre seus truques, estava o de colocar os vistos entre as pilhas de papéis que o cônsul brasileiro assinava sem prestar atenção. Ou, então, simplesmente omitia a letra J, em vermelho, que identificava nos documentos quem era judeu. Outra especialidade sua era conseguir documentos e atestados de residência falsos, tanto para judeus como para alemães que fugiam da perseguição nazista.

 

Dessa maneira audaciosa, desacatando frontalmente a autoridade de Vargas, Aracy salvou dezenas de famílias judias. Entre elas, a de Maria Margarethe Bertel Levy. O destino as reuniu de novo depois do término da 2ª Guerra, quando Aracy voltou ao Brasil acompanhada do escritor Guimarães Rosa, com quem se casou no México (ambos eram desquitados).

 

Holocaustos no continente africano

 

Em 1982, por seu trabalho em Hamburgo, Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, conhecida como o Anjo de Hamburgo, plantou sua árvore no Jardim dos Justos, no Museu do Holocausto, em Jerusalém. Até 2008, 22 mil nomes de “Justos entre as nações” foram inscritos no Yad Vashem, em Israel.

 

O anjo do gueto de Varsóvia:Irena Sendler (15 de fevereiro de 1910 – 2 de maio de 2008)

Ela cresceu vendo o pai como um exemplo de responsabilidade profissional e solidariedade ajudando os mais necessitados sem perguntar se era pobre, cristão ou judeu. Em 1917, durante epidemia de tifo que assolou os subúrbios de Varsóvia, seu pai foi o único médico a atender os doentes, mesmo sabendo que poderia vir a morrer pelo contágio, o que realmente aconteceu.

 

Irena Sendler| Foto: Divulgação

 

Irena Sendler seguiu pelo mesmo caminho paterno. Depois de formada como assistente social na década de 1930, ingressou no serviço público de Varsóvia e ficou encarregada de cuidar dos refeitórios populares que acolhiam órfãos, idosos e pobres. Entretanto, sua solidariedade ia além de suas funções e ela começou a distribuir alimentos, roupas, medicamentos e dinheiro entre os católicos e judeus carentes da cidade.

 

Solidariedade e destemor

Depois da invasão da Polônia em 1939, o governo nazista criou o bairro judeu em Varsóvia (1940). Em duas semanas, a população local de 160 mil pessoas saltou par
a 400 mil habitantes. Sem se conformar com as atrocidades que via acontecer por atrás dos muros do gueto de Varsóvia, como ficou conhecido, Irena, como assistente social, polonesa e católica, tinha passe livre para entrar e sair do local. Assim, começou a contrabandear remédios, roupas e alimentos na tentativa de aliviar o sofrimento de milhares de crianças e idosos que perambulavam pelas ruas.

 

Com a ajuda dos membros da Zegota, organização da resistência polonesa e de amigos, começou a tirar crianças do gueto, antes que morressem de fome, frio ou doença. Ela se valia de túneis subterrâneos, malas, caixões de defunto, caminhões de lixo, caixotes de ferramentas, baús e cestos, até ambulâncias oficiais alegando que os pequenos estavam com tifo, para tirar as crianças do local. Em um ano e meio, conseguiu resgatar mais de 2500 crianças judias do gueto e entregá-las aos cuidados de famílias e colégios católicos.

 

Sofrimento atroz

Entretanto, em 20 de outubro de 1943, suas atividades foram descobertas pela Gestapo. Na prisão de Pawiak, foi brutalmente torturada. Suas pernas e pés foram quebrados a pauladas. Mas não disse uma palavra, seja a respeito dos companheiros de resistência ou das crianças resgatadas. Condenada à morte, Irena foi salva pelos membros da Zegota que subornaram os responsáveis por sua execução. Seu nome constava da lista dos executados, mas Irena viveu até o final da guerra escondida e sob a proteção de um nome falso.

 

Ao longo de um ano e meio, até à evacuação do gueto no Verão de 1942, conseguiu resgatar mais de 2.500 crianças por várias vias. começou a recolhê-las em ambulâncias como vítimas de tifo, mas logo se valia de todo o tipo de subterfúgios que servissem para os esconder: sacos, cestos de lixo, caixas de ferramentas, carregamentos de mercadorias, sacos de batatas, caixões… nas suas mãos, qualquer elemento se transformava em uma via de fuga | Foto: Divulgação

 

Quando terminou a guerra, sua primeira providência foi desenterrar dois vidros que escondera no jardim de uma vizinha com listas dos nomes verdadeiros junto aos falsos usados pelas crianças resgatadas. Sua intenção era dar a oportunidade às “suas” crianças de encontrarem as famílias verdadeiras e resgatar sua identidade judaica. As notas foram entregues a Adolf Berman, o primeiro presidente do Comitê de Salvação dos Judeus Sobreviventes. Porém, a maior parte das famílias das crianças tinha sido morta nos campos de extermínio nazistas.

 

Homenagem à heroína

Em 1965, a organização Yad Vashem de Jerusalém lhe outorgou o título de Justa entre as Nações e nomeou-a cidadã honorária de Israel. Contudo, Irena não pode sair da Polônia para buscar seu prêmio, pois seu país ainda estava sob o regime comunista.

 

Heroínas da 2ª Guerra Mundial

 

Poucos conheciam sua história na Polônia até que, em novembro de 2003, o presidente Aleksander Kwaśniewski lhe concedeu a mais alta distinção civil do país, a Ordem da Águia Branca. Desta vez, Irena estava presente com seus familiares e com Elżbieta Ficowska, uma das crianças salvas por ela.

 

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Leituras da História Ed. 53

Adaptado do texto “Heróis do Holocausto”