História do calçado

De palha, couro, ferro ou madeira. Rasteiro ou extravagante. Sólido, duro ou confortável. Mais do que uma invenção humana para proteção dos pés, o calçado sempre foi um símbolo de status e poder

Por Rose Mercatelli | Fotos: Reprodução | Adaptação web Caroline Svitras

 

Em 2008, na Armênia, na fronteira entre Irã e Turquia, a arqueóloga Diana Zardaryan, do Instituto de Arqueologia e Etnologia da Armênia, ficou impressionada com o estado de preservação de um par de sapatos de couro descoberto por ela em uma caverna. O calçado, depois de submetido a testes por radiocarbono e espectometria no laboratório de Oxford (Inglaterra), revelou-se o mais antigo encontrado até hoje, com 5.500 anos de idade e certamente foi usado para cobrir os pés de um homem (ou mulher) de Cro-Magnon, que viveu na Europa entre 2500 a 1800 a.C., durante o período Calcolítico.

 

“Os sapatos da caverna eram semelhantes a outras descobertas mais novas, o que indica que esse tipo de calçado foi usado por milhares de anos em regiões de climas bem distintos”, escreveu Ron Pinhasi, da Universidade de Cork, autor do artigo publicado na revista científica de acesso livre PLoS ONE.

Entretanto, outras evidências mostram que a história do calçado começou há, pelo menos, no período paleolítico (10000 a. C). Pinturas rupestres e utensílios de pedras usados para raspar couros, encontrados em cavernas da Espanha e do sul da França, indicam que o homem já sabia como proteger seus pés dos terrenos ásperos e das condições climáticas desfavoráveis. Além do couro de animais, os calçados pré-históricos também eram feitos com folhas, cascas de árvores, cipós e peles.

 

 

 

Nas tumbas dos faraós

Os primeiros registros sobre o calçado vieram das pirâmides egípcias. Um desenho de parede descoberto em Tebas mostra um artesão produtor de sandálias trabalhando em sua oficina. A pintura, do período do reinado da rainha egípcia Hat-Shep-Set (1600 a.C.), apresenta artefatos de sapateiro como formas de solas penduradas nas paredes, facas de corte e tiras para amarrar.

 

 

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No Egito Antigo, usar calçados era privilégio da nobreza, dos sacerdotes e dos soldados de alta patente. Decorações em tumbas de faraós mostram que as sandálias de sola dupla eram destinadas à high society. O grau de sofisticação dos artesões era tal que eles mantinham um mostruário com modelos exclusivos adequados ao status do usuário.

 

 

 

Símbolo de poder e humildade

As sandálias, em geral, usadas pelos homens, eram símbolos de alta dignidade e, ao mesmo tempo, de humildade. Uma pintura da primeira dinastia (cerca de 3.000 a.C.) encontrada em uma pirâmide mostra o próprio faraó descalço ao se aproximar do deus Horus. Ao seu lado, um oficial carrega suas sandálias.

 

 

 

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As peças usadas pelo faraó Tutankamon em cerimoniais e encontradas em seu túmulo em 1922 pelo arqueólogo inglês Howard Carter são verdadeiras obras de arte confeccionadas há 3000 anos. Feitas de madeira revestida em marchetaria, o par é todo trabalhado em folhas de ouro sobre uma base de estuque. As correias são ornamentadas com desenhos e folheadas a ouro. Figuras de escravos negros e asiáticos adornam o solado interno enquanto os divinos pés se apoiam sobre elas. Desenhos representando seus inimigos contornam o solado interno, indicando, dessa maneira, que o Faraó, em sua grandeza, esmaga seus oponentes sem piedade.

 

 

 

Democracia a serviço dos pés

A Grécia Antiga, berço da cultura ocidental por sua arte e sua filosofia, também se superou no ramo calçadista ao lançar a moda de modelos diferentes para os pés direito e esquerdo. “Para os gregos, o sapato era um objeto cheio de significados. Em uma cultura na qual as performances de todos os tipos eram marcadas por rituais, o calçado virou símbolo de status. Estar descalço ou calçado fazia toda a diferença entre o que era proveniente da natureza ou o que era hábito do social. Representava ambiente interno e externo, público e privado, masculino e feminino, cidadão comum ou do alto escalão”, explica o arquiteto Luis Fernando Campanella Rocha, designer de calçados e professor dos cursos de Design de Moda e Arquitetura na Universidade Anhembi Morumbi (SP).

 

 

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Entre os gregos, o uso de sandálias também foi exclusivo da aristocracia. Durante o período clássico de sua história, (século 6 a.C.), quando Atenas e Esparta estavam em seu apogeu, Licurgo, o poderoso jurista espartano determinou que os sapatos seriam usados apenas para a caça e para a guerra. Entretanto, com o surgimento da democracia, por volta de 500 a.C., as camadas populares, em especial os mercadores, pequenos proprietários e artesãos, começaram também a reivindicar como prerrogativa o uso de sandálias.

 

 

Os modelos femininos se pareciam com meias sem costuras moldando os pés. As phaecasia, sandálias confeccionadas em couro ou tecido, eram usadas pelos sacerdotes em cerimônias religiosas, enquanto as endromidas eram as preferidas dos gladiadores e atletas olímpicos. O luxo também marcou presença entre os poderosos. Ouro, prata, marfim e pedras preciosas constituíram adornos comuns para os nobres pés das classes superiores.

 

 

Legiões em marcha

No apogeu do Império Romano, a grandiosidade dos calçados chegou às raias do absurdo. A tzanga era a sandália imperial, de cor vermelha, tonalidade usada apenas por homens, decorada com brasões em ouro, pedras preciosas e pérolas. Qualquer súdito que ousasse ter uma era punido com o exílio e o confisco de seus bens. O máximo do exagero, dizem os historiadores, ficou por conta do imperador Júlio César (100-44 a.C.) que chegou a encomendar um sapato de ouro maciço para usar em suas aparições públicas.

 

 

 

Divisão de classes

Cada casta possuía seu modelo. Os patrícios utilizavam meias-botas até a panturrilha enquanto os calçados plebeus atingiam apenas os tornozelos. Os escravos, claro, andavam descalços. Já os camponeses e as classes urbanas mais humildes tinham permissão para usar tamancos. Um avanço democrático se comparados aos egípcios e gregos do mesmo nível social.

O calçado militar tinha diferentes versões de acordo com a finalidade e a patente de seu proprietário. Os legionários usavam um tipo de bota de cano curto que deixava os dedos descobertos. Fazia parte do uniforme legionário a caligae, sandália rústica de couro pesado e solado grosso, presa com taxas de bronze que permitia às legiões que marchassem por toda Europa, Norte da África e Ásia Ocidental. Após os combates, as caligaes recebiam nos solados internos peles das faces de seus inimigos, um símbolo de sua derrota e aniquilamento. Os vitoriosos, ao voltarem das guerras, substituíam as taxas e adornos de suas caligaes de bronze por peças de ouro e prata.

 

 

 

 

Pontas e bicos

A Idade Média foi uma das melhores épocas da história para os artesões sapateiros, seja porque podiam dar vida à sua arte com modelos cada vez mais bizarros, seja pelo lucro obtido pelas encomendas dos pequenos senhores feudais, dos nobres e do clero. O primeiro estilo marcante da época foi o chapim, uma peça de couro ajustada aos pés que subia até a metade da perna. Porém, o modelo campeão, que ficou séculos em moda, foram os sapatos de forma pontiaguda em couro, que surgiu sob a influência do Império Otomano e chegou à Europa trazida pelos cruzados.

 

 

Mas, no fim da Idade Média, os sapateiros perderam o bom senso e começaram a exagerar no tamanho das saliências pontiagudas, genericamente conhecidas como Crakow. Por elas, media-se o grau de nobreza de seu usuário. Aos cavaleiros eram permitidos comprimentos de até 46 cm, aos nobres 61 cm. Aos príncipes cabia o grande privilégio de exibirem pontas de até 76 cm. As poulaines, como eram conhecidos esses tipos de calçado, eram fabricadas em couros, veludos, brocados e bordados em fios de ouro. Até as armaduras seguiram esse gênero com sapatos de ferro e bico revirado.

 

 

Até que o papa Urbano V (1310-1370) e o rei Charles V, coroado em 1364, decretaram o fim dos exageros, tanto para o clero quanto para os nobres britânicos. Foi na Idade Média que também surgiram as primeiras normas de manufatura de calçados. Eduardo I, da Inglaterra, em 1305, usou sua engenhosidade para facilitar a vida dos artesãos. O rei inglês decretou a polegada como medida oficial. Esta deveria equivaler ao tamanho de três grãos secos de cevada dispostos lado a lado. Os sapateiros ingleses gostaram da ideia e passaram a fabricar, pela primeira vez na Europa, sapatos em tamanho padrão, tomando por base a polegada. Desse modo, um calçado infantil medindo treze grãos de cevada passou a ser conhecido como tamanho 13 e assim por diante.

 

 

 

Nas alturas

Durante o Renascimento, período da história que vai do fim do século 13 até meados do século 17, os calçados ganharam alturas inimagináveis. Os bicos finos da Idade Média continuaram na moda até que o rei Francisco I (reinado de 1.515 a 1.547), da França, decretou o fim definitivo deste tipo de calçado. O rei Henrique VIII (reinado de 1.509 a 1.547), da Inglaterra, foi no embalo e aboliu definitivamente as poulaines do território inglês. Como tinha pés largos e inchados, o monarca preferia os chinelos rasteiros com base larga e muito mais confortáveis. Inspirados no modelo real, os sapatos masculinos ganharam na Europa uma forma quadrada e larga, mais cômodas e que permitiam transpiração. As botas que até então só eram utilizadas pelos militares começaram a ser usados por todos e chegaram até a altura das coxas.

 

Por essa época, as mulheres descobriram que se elevassem apenas os calcanhares em saltos ou plataformas ganhariam uma silhueta mais sexy. Daí surgiu a chopine, sandália com plataforma na qual a altura do solado indicava o nível social da dama. Algumas nobres eram tão zelosas de sua posição social que suas plataformas chegavam a ter até 70 cm de altura. Para caminhar, precisavam de dois criados, um de cada lado, para dar apoio. “As damas da corte em Veneza eram fãs desse tipo de calçado que, basicamente, era um tamanco de madeira revestido de couro ou tecido. A altura e a beleza do calçado revelava a importância ou não da figura que o portava. Damas da corte ou cortesãs usavam chopines em ambientes fechados, raramente nas ruas. Já o tamanco comum, o oposto de uma chopine, era usado tanto por homens quanto por mulheres”, explica o designer de sapatos Luis Fernando Campanella Rocha.

 

 

A primeira grande encomenda de calçados aconteceu em 1642. Thomas Pendleton forneceu 4 mil pares de sapatos e 600 pares de botas para o Exército. As campanhas militares dessa época iniciaram uma demanda substancial por botas e sapatos.

 

 

Idade Moderna

No século 18, a moda de vestuário e calçados, de forma sistemática e organizada, firmou-se como fenômeno cultural, social e de costumes. Os calçados, ainda em produção artesanal e feitos à mão, passam a atender as novas exigências de praticidade e funcionalidade da sociedade da época. O uso do elástico para os sapatos masculinos, por exemplo, veio para facilitar a vida na hora de calçar.

Mas a grande revolução calçadista chegou no século 19, com a máquina de costura América, inventada por Isaac Merrit Singer, Elias Howe e Walter Hunt. O processo tornou o calçado mais barato e permitiu que o uso do sapato fosse massificado na maior parte do planeta. “No início do século 20, as mulheres usavam o borguezim, um tipo de botina, porque passaram a trabalhar nas fábricas e precisavam de proteção”, finaliza Ida Helena Thön, professora da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo (RS), e coordenadora do Museu Nacional do Calçado, mantido pela instituição educacional.

 

 

Adaptado do texto “Em cima do salto”

Revista Leituras da História Ed. 54

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