História dos bandeirantes

Eles ampliaram e colonizaram parte considerável do território brasileiro, enfrentando matas virgens. Mas, também, praticaram truculências antológicas contra índios e foram excomungados pelo Papa. São os bandeirantes, talvez os protagonistas mais mitológicos e paradoxais da história do Brasil

Por Tiago Eloy Zaidan* | Foto: historiazine.com | Adaptação web Caroline Svitras

Os paulistas e a vila de São Paulo

Os hábitos desvairados dos exploradores paulistas chocavam os jesuítas que, frequentemente, se levantavam contra o modo de vida “anticristão” dos colonos. Estes se comportavam como e contra os nativos, proliferando bastardos. Da mestiçagem em larga escala, entre brancos e índias, surgiram uma multidão de mamelucos peculiares. Assim vivia a maior parte da população de São Paulo.

 

Cada índio escravizado em 1628 era vendido por um valor inferior ao do escravo africano. Chegavam a custar um quinto destes. O negócio era, ainda assim, rendoso, o que motivava os paulistas a embrenharem-se pelo sertão, desbravando terras nunca exploradas, sem se preocuparem em relatar o que viam. Suas intenções eram, unicamente, mercantis.

 

Localizados no interior da capitania de São Vicente, após a dificultosa serra do Mar, os habitantes da paupérrima vila de São Paulo de Piratininga, viviam em estado de penúria. Desfavorecidos no tocante a produção da cana-de-açúcar em relação às prósperas capitanias da Bahia e de Pernambuco, restou aos moradores locais sobreviverem, a princípio, da lavoura de subsistência. Cultivavam milho, trigo e mandioca, dentre outros. Pela ingrata posição, de isolados naturais do oceano pela serra do Mar, os paulistas se viam impossibilitados de exportar suas rudimentares produções, como também de importar o que era necessário para uma vida minimamente confortável. Em função da situação, os colonos eram obrigados a se autoabastecerem, fabricando toscamente seus objetos, vestuários e demais utensílios. Diante da miséria explícita e do isolamento com relação à metrópole e aos demais centros bem-sucedidos hábitos e leis próprias foram forjadas. O abandono da Coroa fez surgir um forte sentimento de rebeldia. Em pouco tempo a metrópole possuía escassa voz ativa naquelas paragens que, na ocasião, estava longe de ser a pujante metrópole dos dias de hoje.

 

Fundação de São Paulo | Imagem: Antônio Parreiras

 

Mesmo tendo sido, São Paulo, fundada a partir de um colégio jesuíta, em 1554, a educação, definitivamente, não era prioridade entre os seus colonos. A miserável vida que levavam forçava uma objetividade estúpida em busca da sobrevivência. Somente o trabalho rude poderia “salvá-los”. Até que no início do século 17, um episódio fatídico da história do Brasil ascendeu o ímpeto mercantil dos paulistas. A atividade de caça aos índios, já praticada em menor escala, acenou como um lucrativo negócio aos olhos de quem há tempos já não se apiedava com gentios, além de desprezarem os apelos jesuíticos.

 

Tal episódio foi a ocupação holandesa no Nordeste brasileiro, a partir de Pernambuco. Os batavos invasores também trataram de dominar as fontes de abastecimento de escravos africanos, causando um colapso no “rebanho” de trabalhadores braçais dos infernais engenhos das regiões da Bahia e do Rio de Janeiro, livres da invasão holandesa. Sedentos por manterem a ávida produção, os senhores de engenho finalmente voltaram-se para o interior do Brasil, recorrendo aos índios dos prosaicos paulistas. Dessa forma, aos habitantes da vila de São Paulo de Piratininga, surgiu um promissor mercado, baseado na arrogância e na truculência. Para completar, os índios eram mercadorias facilmente transportadas pela serra do Mar (quiçá as únicas). Assim, sob praguejamento dos jesuítas, estava aberta, definitivamente, a temporada assombrosa de “caça aos homens”. Enquanto isso, na Europa, Portugal vinculava-se à Espanha, no período chamado de União Ibérica.

 

A captura e escravização de índios

O principal objetivo dos bandeirantes era aprisionar indígenas para escravizá-los | Imagem: portalsaofrancisco.com.br

Existem registros, de caça a índios na região, de 1532, quando, de forma oportunista, os vicentinos se aproveitavam dos fustigamentos entre os Tupiniquins e os Carijós e Tupinambás. Com o advento da gestão do sétimo governador geral do Brasil, Dom Francisco de Sousa, no final do século 16, tem-se início a fase conhecida como bandeiras defensivas, ocorridas em São Paulo e nos vales do Tietê e Paraíba. O pretexto era o de proteger a frágil vila, ainda em consolidação, dos hostis Tamoios e Carijós, que reagiam à ocupação de suas seculares terras. Assim, os paulistas uniam o “útil ao agradável”, pois, ao passo em que salvaguardavam a região da vila, escravizavam com justificativa os índios nativos, os primeiros moradores do local. Tal ação serviu de apavorante aperitivo para o que ainda estava por vir, com a intensificação das bandeiras e sua expansão pelo interior do continente. No alvorecer do século 17, a brutalidade dos colonos paulistas em seus empreendimentos ganhou ainda mais corpo. Registros dão conta que de 1614 a 1639, foram comercializados cerca de 300 mil indígenas.

 

Aproveitando-se da confusa condição das fronteiras da América portuguesa com a espanhola, durante a vigência da União Ibérica, os paulistas se enfurnavam nas matas virgens cruzando, sem hesitação, a linha de Tordesilhas. Em relato de Willhelm Glimmer, holandês que integrou a expedição de André Leão em 1601, publicado em 1648, encontramos passagens curiosas a respeito da tensão vivida diante do perigo eminente que sofriam as bandeiras. “Observamos (…) algumas vezes a fumaça que se levanta, visto que por esses sertões vagueiam alguns bárbaros, com suas mulheres e filhos, sem habitação fixa, comendo do que encontram, sem nenhuma preocupação de cultura. (…) Soubemos que além dos montes habitava uma nação bárbara, muito populosa, os quais informados (não sei por que meio) da chegada destes europeus, mandarem um deles, para nos observar…”.

 

Não demorou muito para os paulistas terem as suas atenções atraídas pelas reduções jesuíticas e logo começassem a atacá-las sucessivamente. As missões jesuíticas eram redutos onde padres jesuítas catequizavam e “domesticavam” índios, passando-lhes noções de cultura ocidental e ensinando-lhes o oficio de trabalhos rurais. Tais redutos eram frequentes na América espanhola por possuírem apoio da Coroa ibérica, que almejava a criação de “comunas religiosas” em sua colônia. Apesar de dirigidas pelos mandamentos cristãos, as missões eram sujeitas à soberania do rei da Espanha. Sua violação, por expedicionários paulistas, era proibida, sob todos os aspectos. Entretanto, os bandeirantes seguiram a tradição insurgente ignorando a Coroa e a Igreja. Ninguém mais era capaz de segurá-los.

 

Vila de São Paulo do Piratininga | Imagem: Jean-Baptiste Debret

 

Os prisioneiros dessas investidas eram mais valorizados pelos compradores. Os cativos já “civilizados” pelos jesuítas eram facilmente aprisionados por se encontrarem concentrados em grandes aldeias. Segundo afirmado no livro Brasil história: texto e consulta, colônia, de Antônio Mendes Júnior, Luiz Roncari e Ricardo Maranhão (1991), de 1628 a 1631, 60 mil índios foram desfalcados das reduções. O que sobrava eram escombros e cinzas. Há registros terríveis de tais invasões. Uma delas ocorrida em 1637, durante incursão a San Francisco Xavier, no Tape. Aqui, os bandeirantes atearam fogo em uma igreja abarrotada de nativos. Desesperados, em fuga, os índios buscavam a sobrevivência fugindo por uma única fenda disponível. Do lado de fora, à espera dos infelizes, os expedicionários aguardavam com espadas e machados, golpeando-lhes mortalmente, sem piedade, abrindo crânios, rasgando corpos e truncando membros.

 

Semelhantes momentos de horror obrigaram os jesuítas espanhóis a recuarem seus postos de catequização, abandonado a área em 1632. Desta forma imensas áreas banhadas de sangue de gentios foram anexadas à colônia portuguesa, após o fim da União Ibérica. O Brasil continuava assim em sua guinada territorial ao oeste do continente. Mesmo após a transladação dos jesuítas para entre o alto Paraná e o Paraguai, as gananciosas investidas bandeirantes continuaram. Bem armados e mergulhados em um inexplicável rancor insano, os desbravadores só foram contidos com o providencial armamento dos índios, fornecidos pelos próprios jesuítas.

 

Revista Leituras da História Ed. 88

Adaptado do texto “Heróis ou vilões?”

*Tiago Eloy Zaidan é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB) e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco.