Ku Klux Klan, ódio e terror

Uma das mais cruéis seitas secretas que existiram até hoje começou como uma “brincadeira” de jovens soldados sulistas, entediados pelo fim da Guerra Civil americana que assolou os Estados Unidos entre 1861 a 1865

Por Rose Mercatelli | Montagem: Fabiana Neves | Adaptação web Caroline Svitras

 

Véspera do Natal de 1865. Seis jovens veteranos da confederação sulista, Calvin Jones, Frank McCord, Richard Reed, John Kennedy, John Lester e James Crowe, para espantar o tédio na pequena Pulaski, no Tennessee, um dos Estados devastados pela Guerra de Secessão, reuniram-se para fundar uma associação para matar a saudade de outras agremiações formadas por companheiros de armas.

 

Era importante descobrir um nome diferente. Por isso, o universitário do Kentucky John Kennedy resolveu mostrar erudição e escolher a palavra Kuklos, que em grego quer dizer “círculo” para iniciar o mistério. James Crowe gostou da brincadeira e dividiu a palavra em duas. John Lester, por sua vez, observando que todos eram de origem escocesa, acrescentou o Klan, uma modificação proposital da palavra “clã”, muito usada nas Highlanders para designar famílias (clãs) rivais. Foi também ideia de Crowe criar as vestes e os capuzes dos membros da fraternidade e de seus cavalos, improvisados com lençóis roubados, de acordo com a lenda.

 

Nos primeiros tempos de sua existência, segundo historiadores, a KKK não tinha nenhuma base esotérica nem ideologia política, a não ser a intenção de praticar vandalismo por pura diversão. Mas, com o número sempre crescente de adesões à nova organização, a história mudou seu rumo e começou a ganhar um contorno sinistro.

 

Klansmen usando chapéus com as iniciais KKK e, à frente deles, crânio e ossos dispostos no chão, 1870 | Foto: (Marian S. Carson Collection (Library of Congress)

 

 

O pavor como arma

A brincadeira favorita dos jovens encapuzados era desfilar pelas ruas das cidadezinhas do sul e pelos campos para aterrorizar os escravos recém-libertos pela Proclamação da Emancipação, assinada por Abraham Lincoln em 10 de janeiro de 1863. Supersticiosos e analfabetos, os negros ficavam apavorados com a aproximação a galope do que acreditavam serem os fantasmas dos soldados mortos na guerra.

 

Assim que os negros fugiam aterrorizados, os encapuzados saiam em sua perseguição. Alguns levavam ossos de esqueletos escondidos nas vestes para apertar as mãos dos negros e, dessa maneira, aumentar a credibilidade em suas brincadeiras maldosas.

 

Em 1862, Abraham Lincoln proclamou a emancipação dos escravos nas áreas confederadas a fim de enfraquecer economicamente os estados do sul. Enquanto isso, os estados escravistas optaram por se aliar ao norte. A Abolição da escravatura ocorreu em 6 de dezembro de 1865, após a morte de Lincoln | Foto: C.S.Reinhart

 

A sinistra agremiação ganhou notoriedade pelas redondezas até atingir outros Estados vizinhos. Um dos grupos formados no Estado do Alabama, da pequena comunidade de Athens, foi o primeiro a ultrapassar os limites da “brincadeira” tenebrosa e a usar força bruta com os negros. Como não havia impunidade, os atenienses serviram de inspiração para centenas de outros grupos, um mais cruel que o outro.

 

Regras mais definidas

Para evitar denúncias entre seus próprios membros, era fundamental manter suas identidades em segredo. O uso do capuz ajudava nessa empreitada. Caso algum membro recém-admitido, depois de passar por uma iniciação impiedosa, desse com a “língua nos dentes”, era severamente punido: o infeliz, dentro de um barril, era empurrado para rolar barranco abaixo. A adesão foi de tal tamanho que, com apenas dois anos de vida, a KKK já contava com cerca de 500 mil associados.

 

Membros da KKK nos disfarces com que foram capturados, 1872, Mississippi | Foto: U.S. Library of Congress

 

Com a enxurrada de membros de classes sociais e categorias morais diferentes, a organização logo degringolou, quando em 1867, o núcleo original de Pulaski resolveu tomar as rédeas da KKK. Seus veteranos fundadores resolveram proclamar os princípios fundamentais da sociedade secreta definida como “instituição humanitária, misericordiosa e patriótica composta por cavalheiros”.

 

Por essa época, a fraternidade começaria a mostrar sua verdadeira face ao criar o slogan The Union as it was, the Constitution as it is (em português, a União como ela foi, a Constituição como ela é). Em seu brasão, a figura de uma família negra com a frase: pior que a escravatura.

 

 

Esquema medieval

Pela primeira vez, a organização apresentava também uma hierarquia aos moldes de uma sociedade da Idade Média, estabelecida da seguinte forma: cada Estado era considerado um reinado comandado por um Grande Dragão. Cada distrito era dirigido por um Grande Titã, enquanto um condado ou província seguia as ordens de um Grande Gigante. Todo o conjunto formava o Império Invisível, dominado pelo Grande Feiticeiro, o chefe supremo. Os iniciantes, com poucas atribuições nas decisões, eram chamados de Grande Monge, Grande Escriba ou Grande Turco.

 

A principal meta, segundo os estatutos da Klan, era a manutenção da supremacia da raça branca na América. Seus fundadores justificavam seu objetivo com uma teoria simplória e auto-promocional que afirmava: “O Criador nos elevou acima do nível ordinário dos humanos com o propósito de nos conceder sobre as raças inferiores um poder que nenhuma lei humana pode nos retirar de maneira permanente.”

 

Os problemas econômicos vivido pelo país favoreceram a ideia de que a KKK era a salvadora da Pátria e dos valores morais. O ódio entre o sul e norte (que apoiava as políticas antiescravagistas) reforçava ainda mais esse cenário | Foto: Weekly Harper

 

A partir dessa premissa, o membro da fraternidade, ainda que jurasse respeitar a Constituição americana, reservava-se o direito de desobedecer às leis federais que julgasse arbitrárias e ilícitas. Dessa forma, a Ku Klux Klan se tornou uma agremiação detentora de um poder oculto, à margem das leis constitucionais do país.

 

É bom lembrar também que os escravos, além da liberdade, receberam o direito de votar, portar armas e frequentar escolas. Nem é preciso dizer o quanto esses direitos enfureceram os brancos sulistas membros da KKK que começaram a perseguir também os políticos. O primeiro a sofrer um ataque dos encapuzados foi o congressista James Hinds, assassinado por representantes do grupo em 1868, por ter sido um dos responsáveis por uma lei que igualava negros e brancos. Em consequência da morte do congressista, inúmeros klansmen, como ficaram conhecidos os integrantes da KKK, foram presos em 1869.

 

Presidente invisível

A maioria dos seus associados era uma mescla de brancos do sul, composta, em geral, por ex-soldados confederados e dos, outrora, ricos fazendeiros empobrecidos pela disputa militar, pelos saques patrocinados pelos yankees, juntamente com a perda de mão de obra escrava libertada por Lincon. Os ataques eficientes aos negros se deviam, na maior parte, ao comando de antigos oficiais sulistas, acostumados às estratégias militares. Um dos heróis da guerra, o conhecido general Robert Edward Lee, até declinou o convite para ser o primeiro chefe supremo da KKK, porém extraoficialmente aceitou o cargo, tornando o primeiro presidente invisível da sociedade.

 

Mas quem assumiu oficialmente como grande líder em 1867 foi outro general confederado, o Nathan Bedford Forrest, que havia acumulado uma fortuna como mercador de escravos. Era o comandante perfeito para a organização. Na época da guerra, ele comandou seu pelotão no massacre aos negros que faziam parte de uma tropa nortista e que se refugiaram no Fort Pillow. Uma de suas estratégias, em 1869, foi dissolver a KKK em um ato solene. Com sua farsa, o general Forrest pretendia colocar seu império na clandestinidade para poder agir impunemente.

 

Violência sem precedentes

Sob o comando do general Forrest, a KKK deflagrou uma onda de terrorismo claramente de cunho racista. Uma de suas estratégias preferidas era a de visitar negros no meio da noite e distribuir chibatadas em quem desejasse votar nos democratas (os republicanos eram tidos como leais inimigos do norte). Pouco a pouco, a tática deu resultado porque os negros, atemorizados, resolveram votar nos candidatos apoiados pela KKK.

 

A Klan também combatia a livre associação entre os cidadãos negros, principalmente aos que aderiram a Loyal League, uma organização liberal que autorizava seus membros ex-escravos a portar armas. Durante o primeiro semestre de 1868, Forrest percorreu os Estados sulinos convocando os brancos a cerrarem fileiras contra os “desmandos” dos negros, segundo declarou a um jornal de Cincinnati. O Grande Feiticeiro também afirmava que os cidadãos americanos, que tiravam os detentos negros de suas celas e os enforcavam em árvores, estavam preocupados com sua própria segurança e em manter a ordem em sua comunidade.

 

Certificado de registo anual dos cavaleiros da Ku Klux Klan. Inc., Fulton County , Georgia, 1946 | Foto: Ed Clark/Getty Images

 

Os membros do KKK também perseguiam e matavam ex-escravos que conseguiram juntar algum dinheiro no pós-guerra. Um dos casos mais famosos foi o de Perry Jeffers que, como meeiro, trabalhava com sua família em uma plantação na Geórgia. A Klan, na sua ausência, atacou sua família, quando um dos filhos de Jeffers revidou e matou um membro da Klan.

 

A resposta foi brutal e covarde. Os encapuzados voltaram e enforcaram sua mulher e queimaram seu filho mais novo na fogueira. O médico que conseguiu salvar a mulher, posteriormente, também foi assassinado pela Klan. Jeffers tentou fugir de trem com os filhos vivos. Entretanto, o vagão onde estava foi invadido e os Jeffers fugitivos foram mortos a tiros.

 

 

Assassinato no tribunal

A KKK também sonhava em acabar com os funcionários federais, em especial, os professores do norte contratados para dar aulas aos negros do sul. As repressões aos professores do Mississipi foram as mais violentas. Considerados traidores, eram insultados, ameaçados e roubados até que voltassem aos seus estados de origem. A punição a quem resistisse era a morte.

 

O diretor da First Coloured School, John Dunlap, bem que tentou, mas sucumbiu ao terror e fugiu quando 50 homens mascarados a cavalo e armados com pistolas fizeram toda a sorte de ameaças.

 

A Klan não recuou nem diante do Congresso americano ao assassinar o senador republicano Stephens, apunhalado em pleno tribunal. Diante da situação violenta, em 20 de abril de 1871, o presidente Ulysses S. Grant assinou a lei na qual considerava a KKK um grupo terrorista e ilegal, banindo-o dos Estados Unidos da América. No decreto, o presidente autorizava, inclusive, o uso da força para dissolver os grupos de associados.

 

Seis meses mais tarde, entrou em vigor a lei marcial na Carolina do Sul. Membros do Exército nortista, leais ao presidente, foram enviados para os Estados sulistas e fizeram milhares de prisioneiros. Porém, a maioria foi solta por falta de provas. Entretanto, a organização sentiu o golpe. Para escapar à perseguição, os membros da Klan se espalharam e fundaram novas fraternidades como a White League, a Shot Gun Plan e o Rifle Club. Mas a Ku Klux Klan original, para todos os efeitos, tinha sido aniquilada.

 

Klan, o retorno

Quando se imaginava que a perversa associação tivesse acabado de vez, surgem dois fatores que contribuíram para o seu renascimento. Um deles aconteceu em 1915, quando estreou no cinema O Nascimento de uma Nação (The Birth of a Nation), um filme mudo dirigido por D.W. Griffin. O roteiro, que tratava da segregação racial, mostrava os membros do Klan como heróis.

 

Pegando carona no filme, um antigo pregador metodista, o William Joseph Simmons, começou a espalhar que, 14 anos antes, teve um sonho revelador, no qual um bando de cavaleiros vestidos de branco que passaram por sua casa como se fosse uma nuvem, declarou a ele: “Liberte a América dos estrangeiros.” Era o que faltava para os novos associados estenderem a perseguição aos judeus, católicos, comunistas e sindicatos de trabalhadores.

 

Cidadãos negros de Lakeland enfrentam a Ku Klux Klan na Florida Avenue, em agosto de 1938 | Foto: Dan Sanborn/Lakeland Public Library

 

A conjunção desses dois fatores funcionou e mexeu com a opinião pública já aterrorizada com o programa de recrutamento de soldados que deveriam ir lutar na Europa durante a 1ª Guerra Mundial, a ponto da KKK voltar a agir com força total.

 

 

Novos símbolos

Depois de ser repaginada, a fraternidade incorporou ao seu uniforme branco e ao capuz uma de suas insígnias mais conhecidas, a cruz em chamas, que se transformou também em sua marca registrada. Além do medo que provocava, a cruz ainda poderia ser vista de longe, sinalizando aos mais destemidos as barbáries cometidas em suas comunidades.

 

A segunda versão da sociedade entrou em declínio em 1944, segundo alguns historiadores, por divergências internas. Outros estudiosos afirmam que veio a sucumbir com a Declaração dos Direitos Humanos em 1948, a qual se opunha veementemente às ideias de segregação racial. Entretanto, nos anos 50, com o surgimento de leis americanas contra a segregação racial nas escolas e locais públicos, a KKK ganhou um novo alento.

 

Marcha de integrantes da KKK em Washington, em 1928, com uma variação no traje que preserva o chapéu pontudo, mas não a máscara | Foto: National Arch ives and Records Administration

 

Entre 1954 e 1966, vários atentados a escolas, igrejas católicas, líderes sindicais e ativistas civis foram atribuídos aos membros ainda ativos da Ku Klux Klan, principalmente no Alabama, Mississipi e Geórgia. Em 1964, um atentado largamente divulgado pela imprensa e pela indústria cinematográfica matou três defensores dos direitos civis. Era o fim da KKK.

 

 

Ódio se aprende…

Em 5 de setembro de 1992, representantes da Ku Klux Klan realizaram uma manifestação em Gainesville, ao norte da Geórgia (EUA), com o objetivo de revitalizar o grupo. Mas como não tinham o apoio local, soldados foram escalados para evitar um possível conflito.

 

Entre eles, estava Tropper, homem de pele negra. De repente, um pequeno menino com a capa do KKK resolveu tocar seu escudo. Movido pela curiosidade infantil, ele apenas queria verificar sua imagem refletida no objeto brilhante. A situação era irônica. Enquanto a criança, que já recebia lições para odiar, não se importava nem entendia o que lhe era imposto pela ignorância dos adultos, o soldado negro estava lá para proteger o direito dos brancos, que organizavam mais um comício racista.

 

 

No entanto, a inocência do pequeno o fez esboçar um sorriso triste. Embora o menino estivesse predestinado a ser corrompido por ideologias sectárias, ele não havia nascido racista.

 

Adaptado dos textos “O império do terror” e “Ódio se aprende…”

Revista Leituras da História Ed. 62