Lendas urbanas de São Paulo

Lendas criadas em cima de fatos comprovados? Ou registros sobrenaturais de sofrimentos causados por tragédias reais? A linha divisória entre a história oficial e o imaginário popular nem sempre é tão marcante como gostariam os historiadores

Por Rose Mercateli | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Toda cidade, assim como todo teatro digno de nota, tem seus fantasmas favoritos. No Reino Unido, eles são atrações turísticas tão conhecidas como o Big Ben ou a Torre de Londres. Os escoceses são fãs incondicionais de suas almas penadas. Sejam nobres, como os fantasmas do Castelo de Glamis, que inspiraram o dramaturgo William Shakespeare a escrever a tragédia Macbeth, ou plebeus que ainda passeiam assombrados pelos becos escuros da Mary King´s Close, um dos lugares mais tenebrosos de Edimburgo, na Escócia. Todos são igualmente reverenciados pelos escoceses porque fizeram parte da história e agora são excelentes fontes geradoras de empregos e renda para o turismo do país.

 

 

 A ronda da meia-noite

Portas que abrem e fecham sozinhas. Gemidos e gritos. Louras que caminham pelo corredor. Tudo isso pode ser visto ou ouvido pelas noites de São Paulo, dizem os vizinhos de prédios famosos como o Joelma e o Martinelli, um dos cartões postais da cidade. A suspeita é que todos esses fenômenos são causados por espíritos que não conseguiram descanso.

 

Mas essas lendas têm explicação: “Em geral, histórias fantásticas surgem a partir de algum fato violento. Com o tempo, os relatos se adaptam ao perfil regional de onde se manifestam”, conta Rosana Schwartz, 46 anos, professora de História e de Sociologia da Universidade Mackenzie, SP.

 

 

A Capela dos Aflitos

No pequeno beco escondido entre as ruas Galvão Bueno e Glória, no bairro da Liberdade, encontra-se a Capela dos Aflitos que, segundo historiadores, recebeu esse nome em homenagem a Nossa Senhora dos Aflitos. A pequena igreja foi construída quatro anos após a inauguração do primeiro cemitério de São Paulo, em 1774, onde eram enterrados indigentes, escravos que não pertenciam à Irmandade do Rosário e os condenados à morte por forca. O cemitério ficava próximo ao Largo da Forca (hoje Largo da Liberdade). Nos séculos 18 e 19, muitos sentenciados saíram de lá diretamente para o Cemitério dos Aflitos.

 

 

O caso mais famoso foi o do soldado Francisco José das Chagas, que fazia parte do destacamento do 1º Batalhão de Caçadores, em Santos. Chaguinhas, como ficou conhecido, foi condenado à morte por ter comandado uma revolta no batalhão que reivindicava seus soldos atrasados. Junto ao companheiro de armas Joaquim José Cotintiba, foi condenado a morrer na forca na manhã de 20 de setembro de 1821.

 

Na hora do enforcamento de Chaguinhas, misteriosamente, a corda usada arrebentou por três vezes. Só na quarta tentativa, o sofrimento do soldado acabou. Devido ao fato, que muitos atribuíram a um milagre, a Capela dos Aflitos passou a ser lugar de peregrinação de devotos que, até hoje, vão lá pagar promessas. Conta a lenda que ele passou sua última noite preso em uma cela na capela de Nossa Senhora dos Aflitos. Moradores do local relatam que, até hoje, Chaguinha anda pelo bairro da Liberdade, inconformado com o seu fim e com o de muitos outros em situações tão desesperadoras quanto a sua.

 

 

A casa da Dona Yayá

Os moradores próximos à casa 353 da Rua Major Diogo, na Bela Vista, mais conhecida em São Paulo como bairro do Bexiga, são capazes de jurar que, à noite, a antiga residência de Dona Yayá se enche com seus gritos angustiados. O local que era uma chácara foi totalmente adaptado para abrigar Sebastiana de Mello Freire, herdeira de uma das famílias mais ricas da cidade. No local, foi construído um solário com altas paredes de vidro, para evitar sua fuga. Dona Yayá viveu reclusa em sua casa por 36 anos  (1925 a 1961), por conta dos distúrbios mentais que afetaram sua saúde quando tinha 32 anos.

 

 

 

Loucura e solidão

A história da família Mello Freire é marcada por tragédias inexplicáveis. Uma de suas irmãs morreu asfixiada aos 3 anos no berço. A outra faleceu com tétano por se espetar em um espinho de laranjeira. No fim do século 19, em um intervalo de dois dias, seus pais morreram em lugares diferentes, sem que um soubesse da doença do outro.

 

Sebastiana e seu único irmão sobrevivente, Manuel de Almeida Mello Freire Junior, então com 17 anos, passaram a viver sob a tutela de Albuquerque Lins, que mais tarde viria a ser presidente (atual governador) do Estado de São Paulo.

 

Sebastiana de Mello Freire

 

Ela foi uma das mulheres mais ricas de seu tempo, mas a doença fez com que perdesse a riqueza e a juventude, juntamente com sua lucidez. Viveu de forma trágica, alheia ao mundo que a cercava e a si mesma. Com a sua morte, extinguiu-se também a linhagem de uma das mais poderosas famílias paulistanas.

 

 

O castelo da Rua Apa

“De todos os imóveis históricos abandonados da cidade de São Paulo, talvez nenhum outro desperte tanta atenção e curiosidade das pessoas como o célebre Castelinho da rua Apa”, diz o jornalista e historiador Douglas Nascimento.

 

No dia 12 de maio de 1937, na casa que se assemelha a um castelo medieval, situada em uma travessa da Avenida São João, aconteceu um dos crimes mais marcantes do Brasil. Depois de discutirem, os irmãos Armando e Álvaro Reis acabaram trocando tiros. No calor do momento, Álvaro perdeu a cabeça e matou o irmão.

 

 

A mãe, Maria Cândida dos Reis, teria surgido no exato momento do tiroteio. Ao tentar apartar a briga, a senhora supostamente acabou alvejada e morreu. Em outra versão, Álvaro matou também a mãe e se suicidou em seguida. Na época, a rápida apuração das autoridades policiais teria levantado suspeitas sobre se os irmãos teriam realmente um matado o outro ou se o assassinato havia sido encomendado. “O posicionamento dos corpos de Armando e Álvaro teria sido um dos principais combustíveis para que muitos achassem que os irmãos teriam sido, na verdade, assassinados”, conta Nascimento.

 

 

Símbolo de um sonho de imigrante

Giuseppe Martinelli, que chegou ao porto do Rio de Janeiro em 1889, foi tão bem sucedido que, em pouco mais de duas décadas de Brasil, havia construído um respeitável patrimônio. Além de uma empresa de navegação em Santos, o comendador Martinelli decidiu erguer em São Paulo o mais alto arranha-céu da América do Sul. Construído entre 1922 e 1930 pelo próprio comendador , o arranha-céu tinha pisos e escadas em mármore de Carrara, ferragens inglesas, portas e janelas em pinho-de-riga e cimento rosa importado da Suécia, sinais de luxo e sofisticação para a época.

 

Contudo a construção levou o Comendador à ruína, que teve de vender o edifício para o governo da Itália. Mas em 1943, por causa da 2ª Guerra Mundial, no Brasil houve o confisco de todos os bens italianos e o Martinelli passou a ser propriedade da União, sendo rebatizado como Edifício América.

 

 

No fim dos anos 60 e início dos 70, o prédio entra em rápida decadência e se torna uma favela vertical, em péssimas condições de salubridade e conservação. Ocupado por famílias de baixa renda, crianças brincavam em seus corredores e assistiam o vaivém de prostitutas e ladrões. O lixo começou a ser amontoado no poço dos elevadores parados, deixando no ar um cheiro terrível. Nesse cenário, o esperado é que acontecesse muitas brigas e algumas mortes. Uma delas foi o de um garoto, Davilson, violentado, estrangulado e jogado no poço do elevador.

 

 

A loura misteriosa

O fantasma mais famoso do Martinelli, até hoje, não teve sua identidade revelada. Antigos funcionários juram que viam sempre uma loura de cabelos compridos sobre o rosto para escondê-lo, usando trajes da época da construção do prédio. Durante a noite, ao caminhar pelos corredores escuros, o som do toc-toc de seus saltos reverberam pelas paredes. Entretanto, outros frequentadores do prédio acreditam que o som, junto com barulhos de portas abrindo e fechando sozinhas, vem de máquinas de escrever dos antigos escritórios chiques do local.

 

 

Marcado por tragédias

Sexta-feira, 1º de fevereiro de 1974. Às 8h45 daquela manhã abafada, um curto-circuito iria se transformar em um dos maiores incêndios já vistos em São Paulo. O curto-circuito no 12° andar do edifício Joelma, com apenas três anos de inaugurado, espalhou-se rapidamente por seus 25 andares, repletos de salas com divisórias de madeira, carpetes, móveis e forros de fibras, altamente inflamáveis. Dos 756 ocupantes do edifício, 188 morreram e mais de 300 ficaram feridos.

 

Mas 26 anos antes, no mesmo terreno, uma outra tragédia abalou os paulistanos da época. Novembro de 1948. O Brasil era comandado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra e o mundo se preocupava com o início da Guerra Fria. Mas a vida do professor de Química da Universidade São Paulo, Paulo Ferreira de Camargo, de 26 anos, transcorria normalmente. Solteiro, o engenheiro químico morava com a mãe Benedita Ferreira de Camargo e suas duas irmãs, Maria Antonieta e Cordélia na rua Santo Antônio, 104, quase na esquina da Av. Nove de Julho, em São Paulo. No dia 5 de novembro, Paulo informou aos amigos que faria uma viagem com a família para o Paraná. Dias depois, enviou notícias de que suas irmãs e sua mãe teriam falecido em um acidente de carro próximo a Curitiba. Vizinhos e amigos, entretanto, desconfiaram da história, quando começaram a especular sobre a falta de um sepultamento dos corpos.

 

Denúncias fizeram com que a polícia começasse a investigar o caso. Foi quando se descobriu, por exemplo, que Paulo havia construído um poço no quintal da casa no fim de outubro. Como suas alegações eram imprecisas, a polícia solicitou a ajuda do Corpo de Bombeiros para examinar a escavação. E qual não foi a surpresa, quando os bombeiros encontraram os corpos e as cabeças de sua mãe e suas irmãs no fundo do poço. Paulo, que estava detido dentro da própria casa, pediu licença para ir ao banheiro. Lá, pegou uma arma e se matou.

 

Dias depois um bombeiro que trabalhou no local morreu por infecção causada pelo contato com material cadavérico. O motivo do crime? Ninguém sabe ao certo. Mas o burburinho dava conta de um romance com uma enfermeira que foi totalmente desaprovado pela mãe e irmãs. A casa ficou fechada até o fim da década de 1960 quando foi demolida com as vizinhas do quarteirão.

 

Adaptado do texto ” Os fantasmas de São Paulo”

Revista Leituras da História Ed. 54