Líder indígena comenta a situação dos nativos no Brasil

Limitar Ailton Krenak a rótulos e definições de líder indígena, ambientalista e escritor, é negar a existência de um indivíduo que vive para os outros, reconhece as realidades que lhe circundam e, de forma constante, luta para melhorá-las

Por Morgana Gomes | Foto:Cainã Gabriel | Adaptação web Caroline Svitras

Nascido em 1954, no Vale do Rio Doce, Minas Gerais, aos 17 anos, Ailton Krenak migrou com seus parentes para o estado do Paraná. Alfabetizou-se aos 18 anos, tornando-se, em seguida, produtor gráfico e jornalista. Mas, na década de 1980, a determinação de manter vivo todo o universo que fez parte de sua formação o impulsionou a se dedicar exclusivamente à articulação do movimento indígena, tanto que, em 1987, no contexto das discussões da Assembleia Constituinte, pintou o rosto de preto com pasta de jenipapo enquanto discursava no plenário do Congresso Nacional – em sinal de luto pelo retrocesso na tramitação dos direitos indígenas. O registro captado pela imprensa comoveu a opinião pública.

 

Um ano depois, participou da fundação da União das Nações Indígenas (UNI), fórum intertribal que objetivava estabelecer uma representação nacional do movimento indígena. Em 1989, prestigiou o movimento Aliança dos Povos da Floresta, que reunia povos indígenas e seringueiros em torno da proposta da criação das reservas extrativistas, que visavam proteger tanto a floresta quanto a população nativa. A partir de então, sua batalha persistente nunca parou, nem mesmo quando se recolheu em seu lugar de origem para ficar mais perto do seu povo.

 

Reconhecido internacionalmente como um pensador nato, ele sempre contesta a realidade, por meio de reflexões provocativas de longo alcance, que extrapola a luta pelos direitos das culturas ameríndias e a relação delas com a sociedade brasileira. Tal atitude que fundamenta sua personalidade complexa, mas bem coerente, dá para ser sentida na entrevista que segue.

 

Leituras da História – No início de julho, a ONG Global Witness disse que o Brasil vem se mantendo em primeiro lugar no ranking de países onde mais se mata ativistas que lutam por terra e em defesa do meio ambiente. Já em meados do mesmo mês, o Ministério da Justiça afirmou em nota que “o governo brasileiro é um dos mais atuantes nas políticas de erradicação de conflitos agrários”. Como o senhor vê e nos explica essa ambiguidade?

O Brasil se mantém em primeiro lugar no ranking de países onde mais se mata ativistas

Ailton Krenak – O Itamarati, como órgão do governo brasileiro, já foi desmentido na Comissão dos Diretos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) em maio, pois o relatório apresentado mascarava a realidade grave das comunidades quilombolas, indígenas e dos pequenos agricultores que vêm sofrendo pelo fato de que, só esse ano, 177 lideranças quilombolas e de pequenos agricultores, inclusive indígenas, foram trucidadas por ministros e particulares, com a colaboração de polícias locais a mando de fazendeiros. Isso sem falar dos pistoleiros que insistem em perseguir e até mutilar o povo que está lutando para proteger os rios e a floresta. No caso do Pará, os assassinatos são ocasionados por disputas de terra.

No estado, a situação fundiária é tão embaralhada que a mesma porção é disputada por posseiros, outros proprietários e pelos índios, entre os quais os Gamelas que, quando não assassinados, sobrevivem mutilados, pois muitos deles tiveram as mãos e os pés amputados. Essa notícia rodou o mundo inteiro, desmentindo a conversa do representante brasileiro na ONU e nos fóruns internacionais. Então, a gente fica batendo boca com o governo sobre o estado real de segurança que vivem essas pessoas, não um ou outro ambientalista, mas uma imensa população composta de integrantes de comunidades indígenas e de ribeirinhos. No caso de Belo Monte, se fosse visto o que as empresas de segurança fazem com os moradores locais, todo mundo ficaria horrorizado. Elas forçam o despejo. Forçam a remoção das famílias das áreas ribeirinhas e obrigam essa gente negociar em condição desigual a troca por uma moradia em um lugar deserto, onde não têm sociabilidade, não tem família junto a eles, não tem infraestrutura nem saneamento. Essa é a compensação que Belo Monte tem feito para aqueles que foram retirados para que construíssem a grande hidrelétrica. Mas têm muitos outros casos espalhados pelo Brasil afora de violência contra famílias inteiras. Quando denunciamos que o Brasil é campeão nessa situação, citamos só uma parte do que acontece, porque tem muitas ocorrências não registradas. Nos fundões do nosso país, há muitos prefeitos e fazendeiros mancomunados para tomar as terras e assaltar os recursos naturais do território. Na Bahia, por exemplo, o povo Tupinambá vem sofrendo constante assédio das polícias locais e regionais, o que configura uma situação grave, não uma brincadeira. O governo brasileiro ser apresentado como campeão de resolução de conflitos é um cinismo intrínseco a um mando golpista, pois a realidade nacional é bem diferente.

 

LH – Apesar do avanço, pelo menos na formalidade, tanto na legislação ambiental quanto nos direitos sociais garantidos pela Constituição de 1988, como é possível preservar unidades de conversação, quilombos e terras indígenas diante da lista de emendas que desembocam na PEC-215 e visam retirar direitos da Carta Magna Brasileira? A quem interessa esse golpe?

Krenak – A gente vê a toda hora um sujeito andando com uma mala “pra lá e pra cá”. Até em escritórios e corporações, como a Odebrecht, a Vale ou a Petrobras; com diretório em fundação do Banco do Brasil. Há gente transitando com milhões, envolvendo ministros, autoridades do judiciário, do executivo e do legislativo. Tudo isso deve interessar a eles, que estão ganhando muito dinheiro com essa situação. O que não me parece é que a gente esteja em condições de confrontar esse imenso sistema de corrupção que envolve a sociedade brasileira, no qual empresários, políticos e autoridades do executivo vivem na maior promiscuidade, com um depositando dinheiro na conta do outro, pagando a conta e dando presente para a mulher do outro. Tudo virou uma zona. Além disso, historicamente, tanto os quilombolas quanto povos indígenas sempre foram prejudicados pelas políticas do Estado brasileiro. Da Constituinte de 1988 para cá, alguns direitos desses dois segmentos foram realçados e buscados com muita dedicação e ativismo das lideranças dessas comunidades. O retrocesso nesses direitos ofende a luta dessas pessoas e a memória daqueles que morreram por isso. Mas não desamina a nossa luta, porque lutamos há muito tempo. A gente não começou ontem. Esse governo golpista principiou a edição de medidas provisórias, mas nós também fomos muito assediados por medidas provisórias no tempo do governo da Dilma, que removeu a população que estava vivendo na Volta Grande do Xingu, para poder construir Belo Monte, que removeu comunidades de Rondônia para construir as hidrelétricas de Jirau e Santo Antonio, assim como seguem empurrando comunidades inteiras de seus lugares de origem para incrementar o agronegócio, que está avançado de Mato Grosso através de Goiás, chegando até o Piauí. Nós estamos sendo assaltados, nós os brasileiros, não só os indígenas e os quilombolas. Mas acredito que essas comunidades que resistem a 200 ou 300 anos, desde que a República substituiu o Segundo Império, são povos que foram testados nas lutas e que sabem, como diz o poeta [Mario Quintana], que esses ladrões passarão e nos passarinhos. [em referência ao Poeminha do Contra]

 

Integrantes do MST | Foto: José Cruz/Agência Brasil

 

LH – Com o aculturamento que os brancos tentam impor desde 1500, os indígenas, que já sofreram o choque de se encontrar com os colonos, de perder a língua e espaços inteiros de sua visão de mundo para outras culturas, correm ameaça de extinção?

Krenak – De extinção não. Nós atravessamos a linha vermelha da extinção na década de 1980. Considero que a Constituição brasileira, apesar de aviltada e violentada todo dia pelo sistema jurídico do país, continua tendo a objetividade de animar a nossa luta contra a injustiça e assegurar que, enquanto existir um índio, nós estamos resistindo.

 

LH – Tratando, agora, de um assunto pouco conhecido, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) já reconheceu os indígenas, oriundos de pelo menos 11 estados que, acusados de vadiagem, consumo de álcool, pederastia e outras infrações, foram encarcerados em prisões de Minas Gerais durante o regime militar, como presos políticos?

Krenak – Na verdade, o relatório da Comissão não teve a coragem de sustentar as denúncias apresentadas. Eles fizeram a escolha de criar uma relatoria separada, não na peça principal do relatório, sobre as violações dos direitos indígenas. Então, fomos tratados apenas como um apêndice dos direitos humanos, o que mostra que a Comissão da Verdade ficou submissa à realidade brasileira. Lá na Argentina, o general que comandou a violência, as torturas e as prisões arbitrárias foi condenado e morreu na prisão. Aqui, eles ganham medalhas e participam de desfiles do Dia 7 de Setembro para mostrar a diferença entre nós e os argentinos.

 

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Adaptado do texto “O Brasil na visão de um nativo”