Manifestações culturais e corporais

Elas são tão antigas quanto a história do próprio ser humano e, ao longo de uma trajetória milenar, têm desempenhado vários papéis na sociedade. São elas, tatuagens, piercings, implantes, perfurações e tantas outras modificações que possuem como foco de grandes discursos culturais: o corpo humano

Por Ávany França | Foto: Rita Willaertn/Creative Commons | Adaptação web Caroline Svitras

 

Entre os dias 23 e 24 de abril de 1500, época dos primeiros relatos sobre o descobrimento do Brasil, uma carta de Pero Vaz de Caminha descrevia os indivíduos encontrados na colônia recém-descoberta: “Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas… ali andavam outros, quartejados de cores, a saber, metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, a modos de azulada, e outros quartejados de escaques [quadriculados].” Dois séculos mais tarde, em 1769, desembarcava no Taiti o explorador James Cook. O cenário deslumbrante da ilha não foi suficiente para chamar a atenção de Cook, extasiado com os nativos que traziam em seus corpos traços, cores e desenhos. Foi a primeira vez que a palavra tatau, uma primeira versão da palavra em inglês tattoo (tatuagem), iria reverberar no mundo, fazendo alusão ao som das marteladas provocadas durante o processo de pintar o corpo sob a epiderme.

 

Chega-se ao século 21, e as imagens tribais presentes em quase 40% do corpo do jovem produtor de moda Rick Salgado passam despercebidas ou quase, no acelerado vai e vem da capital paulista, São Paulo. Mas, o que conecta personagens tão distintos em épocas igualmente diferentes? Essa resposta está intrinsecamente ligada a mais de 5 mil anos de história, passando por várias culturas, vertentes e indagações onde se tem como objeto principal o corpo. Os quartejados de escaques citados por Pedro Vaz, assim como as cores e desenhos nos corpos dos nativos taitianos observados por Cook, são os mesmos traços que desenham o corpo do jovem Rick Salgado, que hoje chamamos de tatuagens e estão longe de causar tanto estranhamento quanto nos tempos de outrora. No entanto, a tatuagem é apenas uma das muitas intervenções que fazem parte da body art (arte no corpo), também conhecidas como modificações corporais.

 

 

Doença psiquiátrica?

No Brasil, a tatuagem se popularizou na década de 1950, impulsionada pela disseminação da prática vinda da Europa. A chegada da TV, o fervor cultural e artístico, além da necessidade de se construir o novo, formaram o cenário perfeito para um processo de renovação estética. Assim, novos movimentos foram ganhando força no cinema, teatro, literatura e, sobretudo, na arte. A classe média dos grandes centros urbanos e grupos de jovens universitários faziam ecoar o discurso pela necessidade de mudanças. Dessa forma, expressar-se passa a ser a palavra de ordem. Derrubam-se velhos conceitos estabelecidos durante a guerra e abraça-se tudo de novo e extravagante. Nos Estados Unidos, os jovens passam a contemplar o rock’n roll e a pop art, refletindo em outras formas de expressão, sejam elas por meio do vestuário ou utilizando-se do próprio corpo. Nesse contexto, tatuagens e piercings se tornam elementos comunicadores, símbolos de independência e, sobretudo, da repulsão dos padrões impostos na década anterior.

 

Diante desse cenário tido por muitos como transgressor, no fim dos anos de 1960, a tatuagem é vista como doença psiquiátrica e associada a comportamento criminal. A popularidade, a influência das mídias e a liberdade que se instalou no fim da década de 1970 fortaleceram cada vez mais as intervenções do corpo no mundo, principalmente as tatuagens. Movimentos eclodiam entre os punks ingleses e gurus californianos que, além das tatuagens, começavam a utilizar também as perfurações corporais.

 

Início do século 20, Maud Wagner perpetua a mulher na história da tatuagem dos USA, tornando-se a primeira tatuadora americana | Foto: Gus Wagner

 

Entre os adeptos, gays e lésbicas faziam do corpo um espelho para reforçar a sua opção sexual. Performistas e atores apropriaram-se da body art levando ao público produções artísticas que rompiam com todo o formalismo, chocando e causando indignação pela intensidade que se propunham. O corpo passa de objeto de representação para ferramenta principal, envolvendo autoflagelação e intervenções de grande impacto.

 

A chegada da década de 1980 diminui as labaredas desse movimento, principalmente pela associação com a marginalidade. Para os mais conservadores, as modificações corporais eram vistas como comportamento impróprio, associado a prostitutas, frequentadores de áreas portuárias e de rebeldes sem causa. No entanto, o clima de exibicionismo volta a ser exaltado na década seguinte e, assim, escarnificações, línguas bipartidas e chifres se tornam ainda mais presentes na década de 1990. É também nesse período que o ideal de beleza passa a ser associado à possibilidade de modificar o corpo. Aumenta-se a procura pelos implantes de silicone, cresce o interesse pela busca do corpo perfeito e a moda do piercing no umbigo.

 

 

Modificações ao longo da história

Novas técnicas, variações e a popularização da body art nos meios de comunicação fizeram com que todo o tabu acerca das modificações tomasse novo prisma. A Internet prega um papel fundamental nesse processo, uma vez que rompe com as barreiras físicas, propondo a dialética e o acesso à informação. Da mesma forma que as tatuagens e os piercings passam a ser banalizados, outras ramificações das modificações corporais vão sendo incorporadas no cotidiano dos grandes centros, sendo absorvidas sem grandes constrangimentos. No século 21, torna-se sinônimo de modismo, e diferentemente do que aconteceu no século 20, muito menos associada à marginalidade, como afirma a psicóloga Nancy Etcoff no livro A Lei do Mais Belo. Para ela, as modificações corporais estão diretamente ligadas a uma alta dose de autoestima, em que o indivíduo já não compactua com o senso comum e utiliza-se do seu próprio corpo para expressar sua ideologia.

 

Não há precisão de datas sobre a trajetória das transformações corporais, porém, há fortes indícios da prática ter surgido há pelo menos 5 mil anos a.C. O contexto histórico e principalmente as motivações diferem de época a época e de cultura para cultura. O registro mais antigo já encontrado sobre a prática de se introduzir tinta sob a epiderme foi revelada no ano de 1991, quando uma múmia de aproximadamente 5 mil anos foi descoberta entre a Itália e a Áustria, intitulada de Homem de Gelo ou Ötzi. Nela, foram identificadas cerca de 50 linhas desenhadas por todo o corpo.

 

A múmia descoberta entre a Itália e a Áustria – conhecida como Homem de Gelo ou Ötzi – tem 50 tatuagens no corpo feitas a partir de pequenas incisões na pele preenchidas com carvão vegetal. Detalhe das tatuagem das costas | Foto: The South Tyrol Museum of Archaeology

 

Múmias egípcias femininas também haviam sido localizadas portando traços e pontos escritos na região do abdômen, o que simboliza a presença da tatuagem como representação da fertilidade. Entretanto, outras transformações completam o mosaico das intervenções corporais ao longo da história. O piercing nos lábios e língua, comuns aos esquimós do Alasca, representavam a passagem da idade infantil para a adulta, iniciando o jovem indivíduo à caça. Enquanto para os faraós a perfuração no umbigo era uma exclusividade da família real, os sacerdotes maias adornavam lábios, narizes e orelhas como parte de um ritual em que acreditavam se conectar com seus deuses. Para Rick Salgado, as muitas tatuagens que customizam seu corpo possuem poder de expressão, além de carregar informações de arte, estilo e defesa espiritual.

 

 

Corpo personificado

É inevitável não alinhar a presença dos piercings à história da tatuagem, já que se estima que ambos surgiram no mundo no sentido de exprimir escolhas individuais e estão quase sempre associados a um rito sagrado e a status, o que, na sociedade contemporânea, toma um carácter diferenciado, voltado muito mais para a expressão estética e associação com a moda.

 

Se as tribos do século 21 buscam marcar o corpo para atender a modismos e até mesmo no desejo do indivíduo de se fazer pertencer a um grupo, no passado, a presença das transformações estavam muito mais ligadas à necessidade de individualização, ritos de passagem e a rituais religiosos. Para os primeiros cristãos, por exemplo, peixes, cruzes, letras gregas e a inscrição IHS se tornaram a mais importante forma de identificação, numa época em que ser cristão era algo clandestino.

 

Escarnificações modernas são feitas com diversas técnicas: bisturi (foto), queimura por ferro e nitrogênio, ácidos nítrico ou salicílico | Foto: BME

 

Cook estranhara o design impresso nos corpos dos taitianos e, por não pertencer àquele grupo, não conseguira traduzir, por exemplo, que as nádegas encobertas com tinta preta das taitianas representava a passagem da mulher jovem para a idade da procriação. Uma simbologia que continua presente até os dias atuais. A tatuagem também se faz presente nos ritos de passagem no Havaí, onde o período de luto é revelado por três pontos tatuados na língua.

 

 

Culto à beleza

Se o culto ao corpo perfeito do homem da atualidade está atrelado a formas bem definidas conseguidas em academias e clínicas estéticas, para os homens de uma tribo localizada ao nordeste da Índia, os Konyak Naga, a beleza sempre esteve associada ao afunilamento da cintura. O objetivo era obter a silhueta triangular evidenciando-se os ombros. Para conseguir esse feito, lascas da cana-de-açúcar e bambus eram extremamente amarrados à cintura, garantindo o formato afunilado.

 

Curiosamente, essa preocupação com a parte central do corpo, sendo objeto de perfeccionismo, também atormentavam homens e mulheres seis séculos mais cedo, quando eles se utilizavam de utensílios como corpetes, corseletes e, por fim, o espartilho, exacerbadamente explorados até o fim do século 18. A atmosfera de erotismo e sensualidade feminina fortes no Renascimento acentuou ainda mais as cinturas marcadas e os seios fartos, resultados da compressão provocada pelos corpetes pespontados, armados com hastes de lâminas sólidas feitas de madeira, madrepérola e marfim.

 

Cinturas afinadas pelo uso dos espartilhos modelavam os corpos das mulheres já no século 14 | Foto: Reprodução/beautifully-invisible.co

 

Em uma das muitas subcomunidades tailandesas chamada Kayan Lahwi, as crianças do sexo feminino nascidas no período de transição entre a Lua nova e a cheia, por tradição, devem receber anéis em torno do pescoço. À medida que a criança vai crescendo, o anel em forma espiral vai sendo substituído até a fase adulta. Com o uso contínuo por muitos anos, acabavam por provocar uma impressão de alongamento ao pescoço. Os motivos pela qual a tradição foi iniciada são divergentes, porém alguns estudiosos acreditam que o uso dos anéis teria surgido com o objetivo de diferenciar as mulheres kayans de outras tribos. Independente das reais motivações para a tradição secular, as mulheres kayans, popularmente conhecidas como mulheres-girafa foram, e são, sinônimo de beleza pelo excêntrico ornamento aclopado ao pescoço.

 

Foto: Mary Rose Loria

 

Na Índia, para as mulheres da tribo Apatani, os alargadores de narizes eram incorporados como proteção e no sentido de enfear as mulheres, tidas como as mais belas da região. A tradição que perdurou até a década de 1970 preservavam as mulheres de sequestradores de outras tribos.

 

Mulheres da tribo Apatani que vivem no vale de Ziro, na Índia: os alargadores de narizes eram incorporados como proteção e no sentido de enfear as mulheres, tidas como as mais belas da região | Foto: SOAS, Nicholas Haimedorf

 

Intervenções corporais

A escarnificação é tida hoje como um dos movimentos modernos mais extravagantes das modificações corporais. Porém, assim como as demais intervenções, já esteve presente em outras culturas, sobretudo nas tribos indígenas africanas. Vista com repulsa pela maioria, a prática de criar cicatrizes intencionalmente no corpo,fazendo uso de ferramentas cortantes, ganhou forma na década de 1990, mais precisamente nos Estados Unidos, quando alguns grupos neotribais decidiram reviver os rituais indígenas sob o pressuposto de atingir ápice espiritual.

 

Desse modo, surge uma nova roupagem de corpos marcados por texturas e alto-relevos. Para o socióloga portuguesa Maria Fátima Suarez, a nova vertente de aficcionados pelas modificações extremas do corpo não comungam da necessidade de chocar pelo novo, mas pelo reavivamento de ritos do passado, visando o retorno das tradições. À vista disso, os corpos recortados dos homens das tribos africanas, que ao longo da vida participam de rituais de passagem como sinal de bravura, ressurgem nos corpos dos adoradores da body art contemporâneos. No entanto, as marcas que os jovens da atualidade exibem aparecem contextualizadas por meio de símbolos macabros e outros tantos personagens do imaginário moderno. Assim, a bravura é suplantada pela busca da beleza agressiva.

 

Processo de escarnificação | Foto: Shutterstock

 

No contexto feminino, ao contrário de exaltar a fertilidade, como se propunham as negras das tribos etíopes, os motivos femininos do século 21 estão muito mais associados a igualar-se aos homens no que tange as intervenções corporais. Um bom exemplo dessa contextualização se dá pelo uso de alargadores. Eles viraram febre nas últimas décadas, principalmente entre os mais jovens que passaram a alargar cada vez mais exageradamente os lóbulos da orelha. Uma intervenção vista na atualidade como futilidade, porém cultivada desde sempre em tribos de todo o mundo. Outra prática, que completa o leque das intervenções extremadas, tem deformado corpos por meio da inserção de pequenas peças de titânio e silicone: conhecida como “implantes”, propõe deformações que geram um efeito visual agressivo, com a intenção de reproduzir formas animais. Os mais comuns são conhecidos como chifres, em que alguns praticantes inserem peças em formato de chifres na testa, na busca de uma aparência animal.

 

Implantes na testa e alargadores nas orelhas, antes usados em tribos seculares, hoje são símbolos de modernidade e manisfestação da identidade | Foto: BME

 

Extremadas ou não, moldadas sob o discurso de individualidade ou ideologia, as manifestações corporais tem feito parte da cultura humana desde sempre e é impossível negligenciar o fato de que o homem de diferentes credos e culturas tem utilizado o corpo como ferramenta de expressão. O que nos resta é dialogar com corpos customizados que falam por si só.

 

Revista Leituras da História Ed. 66