Mistérios da Mona Lisa

Mesmo antes de ser finalizada em 1502, a obra de arte mais célebre do mundo, a Mona Lisa, já gozava de certa popularidade na Europa. Não era pra menos, pois seu autor era Leonardo da Vinci (1452-1519), o famoso artista e projetista de Anchiano – vilarejo da Toscana –, uma figura já bastante relacionada à esfera da poderosa Casa Borgia

Por Átila Soares da Costa Filho* | Foto: Museu do Louvre | Adaptação web Caroline Svitras

 

Desde os primórdios a obra esteve envolvida em polêmicas – gerando várias imitações. Assim, a existência de, aproximadamente, 60 pretensas “Monas Lisas” – ou “Giocondas” – espalhadas pela Europa, Estados Unidos e Japão, implica diretamente sobre as questões de autenticação para cada uma delas – se é que, de fato, exista mesmo alguma palavra final sobre essa atribuição na História da Arte.

 

Na verdade, a maioria dos especialistas vem concordando mais e mais que a única certeza sobre autorias em Arte – com raras exceções – é a de que não existem certezas absolutas; e inclui-se, aí, boa parte das obras que podem ser admiradas nos mais importantes museus e coleções do mundo.

 

Entretanto, uma dessas 60 versões parece se destacar em relação às demais: a discreta e furtiva “Mona Lisa de Isleworth” (o nome, sugerido pelo autor John Eyre, refere-se a um de seus últimos paradeiros), um óleo sobre madeira pouco maior (84,8 cm X 64,8 cm) que a sua festejada versão do Louvre (78,8 cm X 53,3 cm), Paris, e, talvez, mais antiga. Basicamente, as duas pinturas são muito parecidas e, a princípio, chama a atenção o fato da modelo dessa versão de Londres mostrar-se mais jovem – e, na opinião de vários especialistas, mais bonita.

 

Mona Lisa de Isleworth | Foto: Reprodução

 

As origens do quadro apontam para quando ele deixa o Palácio de Francesco del Giocondo – seu primeiro proprietário –, na metade do século 18, para embarcar direto à Grã-Bretanha, onde faria parte do patrimônio de um aristocrata de Somerset durante quase dois séculos. No decorrer da 1ª Grande Guerra, por razões de segurança, a pintura é enviada aos Estados Unidos. Em seu retorno, é adquirida pelo conservador do Holburne of Menstrie Museum of Art, de Bath, o sr.William Hugh Blaker, perito e célebre colecionador de arte, que logo a transfere para sua residência em Isleworth, subúrbio oeste de Londres (essa aquisição teria ocorrido em janeiro de 1914).

 

Mais tarde, em 1962, o cientista e especialista em Arte, dr. Henry F. Pulitzer, juntamente com um consórcio suíço, passaria a ser o novo proprietário da obra. Nesse tempo, ela permaneceria em seu apartamento de Kensington, também Londres; contudo, não se sabe se assim permanece. Pulitzer é autor do mais amplo estudo sobre a pintura até hoje, o livro Where Is the Mona Lisa? publicado, provavelmente, em 1966 – na obra não há referências exatas do ano de sua publicação. Mas, o que vem a ser, na verdade, a “Mona Lisa de Isleworth”, e que implicações traz para o meio histórico-artístico?

 

A personagem de Isleworth, na opinião do dr. Pulitzer, seria a verdadeira Mona Lisa (em que Mona, do italiano antigo, significa “senhora”), uma jovem 19 anos mais nova que a retratada no Louvre – que teria 34 anos à época da execução do quadro. A modelo, de nome Lisa Maria de Noldo Gherardini, foi esposa de um comerciante de sedas florentino, um rico emergente chamado Francesco Bartolomeo del Giocondo, e, na ocasião, enlutada pela morte da pequena filha. De fato, nota-se um fino véu de luto que cobre sua cabeça, algo não tão claro na outra versão.

 

Já nessa última, a jovem seria a amante de Giuliano de Medici, Constanza D’Avalos, a “Gioconda”, cuja silhueta fora supostamente usada no mesmo esquema de desenho mantido da versão anterior. Assim, o termo “Gioconda”, ou “sorridente”, nada teria a ver com “Giocondo”, apenas significando a expressão da retratada em seu idioma de origem. Mas a seguir, após a encomenda da obra a Leonardo, Giuliano rompe com a moça por conta de um casamento de interesses e, depois de três anos e meio, ele abandona a ideia do quadro. Ao artista, só restara levá-lo consigo para Cloux, França onde, aos 64 anos, iria viver a velhice em um castelo a convite de Francisco I, rei da França e seu admirador.

 

Francisco I da França

 

Para alguns pesquisadores, a verdadeira identidade de “La Gioconda” seria, ainda, Isabella Gualanda – uma outra amante de Giuliano –, ou Isabella d’Este ou, mesmo, Cecilia Gallerani (a modelo de “Dama com um Arminho”, hoje em Cracóvia), ambas figuras da sociedade italiana daquele tempo, assim como, talvez, alguma cortesã espanhola.

 

 

Uma teoria polêmica
Mona Lisa exposta no Louvre

Enquanto considerados como das mais tradicionais fontes sobre a versão do Louvre (Leonardo, ao que parece, nunca realizou uma anotação sobre o quadro), os escritos do artista e maior biógrafo da Renascença italiana, Giorgio Vasari, poderiam, praticamente, pôr um termo decisivo na polêmica. Entretanto, o dr. Pulitzer questiona a validação desses textos quando sustenta que Vasari nunca chegou sequer a ver a Mona Lisa do Louvre, pois contava com apenas quatro anos quando ela seguiu para a França e o próprio jamais visitara o país. Porém, ele descreveria com detalhes uma pintura com as mesmas características de “Isleworth” na casa de Francesco del Giocondo, seu amigo. Além disso, mesmo os textos originais de Vasari sobre Leonardo jamais foram achados, deixando ainda mais incerto em até que ponto realmente se deu a proximidade do escritor com “La Gioconda”.

 

Pulitzer também afirma que o pintor e notável cronista milanês Giovanni Lomazzo (1538-1600), em seu Trattato dell’arte della Pittura Scultura ed Architettura, publicado em 1584, faz menção a duas obras as quais identifica por della Gioconda E di Mona Lisa, fazendo clara distinção entre esta e aquela. Ademais, na carta de um procurador de Isabella D’Este há referência sobre Leonardo estar trabalhando em dois retratos – e, pela data, podemos concluir serem, então, duas versões da Mona Lisa. Mais: em Cloux, o secretário do cardeal de Aragão, Antonio Beatis, toma nota das conversas deste com Leonardo, e põe bem claro das referências da obra do Louvre como sendo a que seria encomendada para Giuliano de Medici (daí, Constanza).

 

Segundo o que parece, então, onde se acreditava serem dois nomes para o mesmo quadro – no caso, a versão “original” de Paris –, na verdade, seriam dois títulos para duas pinturas totalmente dissociadas: uma, “Mona Lisa”; e outra, “Gioconda”. Outros intrigantes dados apresentados por Pulitzer:

1) As enciclopédias italiana, americana, católica e britânica nas respectivas edições de 1933, 1955, (novamente) 1955 e 1962 deixam dúvidas sobre a obra do Louvre ser, de fato, a “Mona Lisa” – a Enciclopédia Americana iria retirar tais referências em nova tiragem ainda naquele ano.

2) Um dos técnicos chamados para os exames na “Gioconda” – após ser roubada do Louvre em 1911 – o prof. comendador Lorenzo Cecconi, dá como um “autêntico Leonardo” a versão de Londres.

Isabelle di Aragona (Isabel de Nápoles) como Mona Lisa | Foto: Galeria Doria Pamphilj

3) John Eyre, padrasto de Hugh Blaker e também colecionador de arte, em sua publicação The Two Mona Lisas (1924), havia alertado para as mãos e o rosto na versão de Isleworth – à época em Somerset – como marcas inquestionáveis de Leonardo.

4) Segundo um artigo da The Century Magazine, assinado por Walter Littlefield, mais outra versão, a recém-restaurada Gioconda Velata, do Museu do Prado (Madri), teria sido adquirida por Carlos I de Espanha apenas para competir com Francisco I da França – e a sua “original”. Essa pintura era tida como autêntica à época, mas toda a glamourização e mística em torno da de Paris foram gradativamente “embaçando” sua importância e legitimidade. Seja como for, a atribuição mais aceita agora à Velata páira sobre os nomes de Salaino ou Francesco Melzi, assistentes de Leonardo. Ora, todo o fundo da obra – antes negro – fora removido revelando um cenário análogo àquele do Louvre quando um ou outro teria imediatamente preparado uma cópia a partir da “Mona Lisa”.

 

Entretanto, já surgem afirmações da possibilidade dessas duas modelos serem, na verdade, uma única e jovem mulher (seguindo-se a versão da Espanha, em melhor estado). E mais: para sustentar a tese, teria, então, ocorrido um equívoco a respeito da idade da personagem da versão clássica devido a vernizes e craquelês – que a teriam tornado uma mulher de meia-idade…

 

O problema com essa teoria é que, se assim o fosse, tudo o que se escreveu e discursou nos últimos séculos sobre pinturas antigas deveria ser descartado, já que grande parte delas sofreu os mesmos processos de envelhecimento e isso nunca fora empecilho para que os experts entendessem a idade de qualquer retratado. Além do mais, tais efeitos de desgaste só se tornam perceptíveis quando o rosto de um modelo for visto mais de perto, o que obrigaria ao expectador fugir da proposta renascentista da contemplação da figura humana em sua totalidade – e que só se consegue a certa distância.

 

Daí concluirmos que craquelês e afins nunca terem o poder de interferência a ponto de, sutilmente, deixar-se confundir juventude com maturidade. Em minha opinião, se a modelo de Paris aparenta ser mais velha que sua prima madrilenha, foi porque assim se pretendeu – ou seja, apesar de alguns pontos de similaridade, não se tratam da mesma pessoa – nem em idades distintas –, ainda que tenham se baseado em um mesmo cartone. Então, na verdade, a juventude que se vê em “Velata” apenas corroboraria “Isleworth”, já que as evidências sugerem-na ter saído de uma original…

 

Gioconda Velata | Foto: Galleria Palatina

 

E, finalmente, Pulitzer ainda argumenta que os catedráticos tendem a não gostar quando surge uma obra inédita de algum gênio, visto que correm grandes riscos de ter de mexer em muito de sua fonte de produção de pesquisas, teorias arduamente construídas – e invalidar o que pode ser, em alguns casos, um nome ou uma vida acadêmica.

 

Sobre aspectos da composição, na pintura, as mãos e o rosto da retratada, segundo vários especialistas, são suspeitamente “leonardescos” demais, devendo ter sido, mesmo, executados pelo próprio. Do contrário, o tratamento dado ao restante da composição, como a paisagem de fundo – muito simples –, parece apontar para um trabalho em colaboração, tendo em vista o gosto de Leonardo pela minúcia, assim como seu grande interesse sobre temas naturais. Outro ponto interessante é que essa versão apresenta a jovem entre duas colunas gregas – um apelo claramente renascentista – inexistentes na de Paris, mas presentes em um esboço feito por Rafael Sanzio (de 1504) – também no Louvre: ou seja, no mesmo período em que Leonardo trabalhava nessa Mona Lisa. Vale observar que exames recentes dão conta de que a “Gioconda” jamais teve suas laterais cortadas – um procedimento corriqueiro à época e séculos subsequentes, visando um perfeito encaixe da pintura com uma moldura previamente arranjada.

 

O quadro chegou a passar por uma bateria de exames de laboratório – todos documentados no livro de Pulitzer – com testes microscópicos, de comparação de marcas digitais (com outras obras genuínas do artista), de radiografias e raios-X. Segundo o autor, os resultados foram todos a favor. Porém, ainda muito se discute sobre a autenticidade da Mona Lisa londrina. A literatura a respeito é tremendamente escassa, sendo, ao que tudo indica, Where Is the Mona Lisa? (publicada sob seu selo “Pulitzer Press”, e já há muito fora de circulação) é o material mais completo de que se dispõe sobre sua própria aquisição.

 

Isabelle di Aragona (Isabel de Nápoles) como Mona Lisa | Foto: Galeria Doria Pamphilj

É claro que poderíamos imaginar se tamanha exclusividade não implicaria em um modo tendencioso de se auto-favorecer à certificação da pintura. Mas também não haveria nenhuma incongruência lógica no sentido contrário: ou seja, ele ter comprado a obra justamente por crer de maneira sincera em sua legitimidade. Seja como for, hoje a “Mona Lisa de Isleworth” soma-se a um tanto de outras pinturas que, por falta de estudos mais aprofundados em decorrência de razões diversas, são classificadas na categoria “Escola Lombarda” ou “de Leonardo da Vinci” – o que, por si só, já confere uma forte marca de elegância e seletividade. Daí, fizeram parte pupilos, assistentes e aqueles que tiveram uma maior influência artística despontada a partir do mestre.

 

 

Assim, devemos considerar que, saber avaliar e refletir “Isleworth” – ainda que cópia, ou “novo original” – decerto poderia ampliar nossa compreensão sobre o próprio “original”, sobre Da Vinci, sua (s) modelo (s), sua cidade, sua época, e o universo onde todos esses elementos se harmonizam: enfim, o fascinante mundo que cerca os estudos sobre a transição da Idade Média para a Renascença, ou a Idade Moderna.

 

 

*Átila Soares da Costa Filho é palestrante e professor de História da Arte, Filosofia e Sociologia; bacharel em Desenho Industrial pela PUC-Rio, especialista em História da Arte e em Filosofia e Sociologia.

Adaptado do texto “Mistérios de Gioconda”

Revista Leituras da História Ed. 50