Misteriosos túneis escavados na Europa. Descubra o segredo que eles guardam

A palavra mistérios deriva do grego muô, ou: o ato de “fechar a boca”. Tudo o que é secreto, escondido do resto do mundo. Talvez por isso sejam tão fascinantes e atraentes – e não só em nossa cultura, mas em todas as que já existiram

Por Morgana Gomes | Foto: Wikipedia | Adaptação web Caroline Svitras

Em 2011, a família Greithanner se surpreendeu quando uma cratera se abriu abaixo de uma vaca que estava no pasto e a engoliu até o quadril. No dia seguinte ao acidente bovino, o senhor Rudi resolveu examinar o buraco. Abaixou-se e colocou a cabeça dentro dele, mas contemplou só a escuridão. Pensou que poderia ser o esconderijo de algum tipo de tesouro e decidiu explorar a cratera, momento em que descobriu que se tratava de um túnel estreito que percorria diagonalmente a terra. Rapidamente, ele percebeu que o ar estava ficando sufocante e, sem alternativa, terminou sua breve exploração.

 

Mas intrigado com o acontecimento inexplicável, no final de junho, decidiu chamar geólogos e agrimensores do Working Group for Erdstall Research para esclarecer o mistério. De tanto insistir, pela primeira vez, também conseguiu chamar a atenção de uma agência arqueológica alemã para o fenômeno antigo e extremamente comum em algumas regiões do Velho Continente, que sempre fora explorado amadoramente. Pouco depois, durante a visita oficial à fazenda, Dieter Ahlborn, líder do grupo Erdstall, entrou no buraco e rastejou por uma passagem de aproximadamente 70 cm de altura. Seu colega, Andreas Mittermüller, o seguiu, mas de forma ligeira voltou à superfície em decorrência de uma forte dor de cabeça, causada pela falta de oxigênio no túnel.

 

Nesse ínterim, Ahlborn, que continuava rastejando, encontrou vestígios de um pedaço de madeira que trouxe para a superfície como se fosse ouro. Até então, ele acreditava que poderia estabelecer a idade da caverna que, graças a um grupo do Escritório Estadual de Preservação Histórica de Munique, também teve sua área superficial demarcada com fita colorida.  Em meio à exploração, Rudi não demorou em saber que, abaixo de sua propriedade que fica na cidade de Glonn, havia um erdstall de, pelo menos, 25 metros de comprimento!

 

Informações superficiais

Embora a descoberta não tenha sido inovadora, pois muitos túneis já eram conhecidos, a notícia não demorou a se espalhar pela Alemanha. Contudo, a novidade veio em agosto do mesmo ano. Nesse mês, um artigo não assinado que trazia a informação de que havia sido descoberta uma rede de túneis subterrâneos interligados, de 12 mil anos, que cruzava a Europa, da Escócia até a Turquia, começou a circular na internet e empolgou muita gente.

 

Afinal, tratava-se de uma construção da Idade do Ferro que já estava sendo explorada por vários arqueólogos, incluindo o alemão Heinrich Kush, que não perdeu tempo em escrever o livro Segredos da porta subterrânea para um mundo antigo (em alemão: Tore zur Unterwelt). Na obra, ele afirma que os túneis megalíticos, em sua maioria, encontrados embaixo de dezenas de assentamentos neolíticos, eram usados ​como estradas, que tanto permitiam a movimentação das pessoas quanto a conexão com lugares distantes.

 

Em meio a tantas suposições, o achado tinha tudo para revolucionar o campo da arqueologia e ainda provocar uma revisão na História, pois se fosse mesmo da Idade de Ferro, comprovaria que o homem daquela época não passava seus dias só caçando e coletando frutos como sempre acreditamos, mas que também se dedicava a trabalhos de engenharia que requeriam enormes recursos intelectuais. Contudo, uma série de detalhes foi omitida…

 

Primeiro, temos que lembrar que, a existência de qualquer túnel subterrâneo escavado em rochas abaixo do nível do mar, principalmente onde já houve assentamentos neolíticos, sempre terá algumas seções com resíduos minerais do mesmo período. Depois, também é preciso observar que nem todos os túneis que, por sua vez, não cruzam, mas estão espalhados entre a Escócia e a Turquia, estão interligados. Conforme algumas explorações já realizadas por especialistas, somente alguns deles têm essa peculiaridade.

 

Erdstall de corredores pequenos na parte alta da Áustria | Foto: Erhard Fritsch

 

Além disso, quando a notícia começou a circular, de imediato a revista  alemã semanal Der Spiegel ressaltou que um dos primeiros exploradores dessa rede foi o sacerdote Lambert Karner, que viveu entre 1841 e 1909: “ao se arrastar pelos buracos com a ajuda de uma vela, ele depois os descreveu como estranhas passagens com correntes de ar”.

 

Portanto, a descoberta também não é nem um pouco recente, tanto que muitos historiadores antigos já haviam defendido que os tais túneis foram usados como bairros de inverno pelas tribos teutônicas ou como masmorras para deficientes, mas sem considerar alguns detalhes. No inverno, por exemplo, alguns se enchem de água e em, praticamente, nenhum deles há evidências de fezes ou outros materiais que possam indicar a presença de homens ou de animais.

 

Escavação da entrada do erdstall chamado de Schrazelloch ou buraco do goblin | Foto: Braun

 

Apesar dessas omissões, que parecem normais quando o assunto são os erdstall, somente na Baviera, Alemanha, existe mais de 700 túneis, enquanto na Áustria é encontrado cerca de 500 deles, em grande parte sem dutos de ar e com um comprimento que varia entre 20 e 50 metros. Alguns têm passagens com altura suficiente para que as pessoas possam andar, mesmo que seja em uma posição curvada, mas outros são tão pequenos que os exploradores têm que se agachar, quando não se colocar de quatro, para tentar percorrê-los.

 

Entre aos vários túneis que, supostamente, foram construídos por pessoas que sabiam o que estavam fazendo, pois adotaram a forma de zigue-zague nas escavações e, assim, puderam dispensar o uso de vigas estruturais, têm alguns com setores maiores ou menores, nos quais há conjeturas de assentos e de ambientes que podem ser comparados com salas de armazenamento, características que também se repetem em estruturas semelhantes encontradas na Espanha, Hungria, França, Inglaterra, Irlanda, Escócia e até mesmo na Bósnia. Curiosamente, apenas a Suíça e a Floresta Negra fogem a regra.

 

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Adaptado do texto “Em busca da verdade”