Mitos na história de da Vinci

Até onde a dramaticidade se choca com a História em Da Vinci’s Demons?

Por Átila Soares* | Foto: Fabiana Neves | Adaptação web Caroline Svitras

 

É bem corriqueiro, em qualquer filme ou seriado de bases históricas, a fuga de um compromisso maior com o fato real. Tratam-se de recursos artísticos, de licença poética, que, por seus mecanismos facilitam a absorção de certos enredos pelo expectador e, no seriado exibido no Brasil pela FOX a coisa não foge à regra. Ora, o próprio Leonardo em muito se valeu de tais métodos em sua arte, tão simbólica e alegórica. Entretanto, não se pode deixar de ceder à inevitável comparação sobre o que somente se vê em Da Vinci’s Demons e o que possa, historicamente, ter se desenrolado.

 

A série, de David S. Goyer e produzida pela americana Starz, foi iniciada em 2013, e narra os percalços de um jovem Leonardo – lembrando uma montanha-russa onírica –, sempre atormentado por sua mente genial, porém situada na herança de um dos momentos tido como um dos mais obscuros na História Ocidental. Então, vamos à análise de oito dos principais temas e elementos circunstanciais que conduzem o seriado na obra de Goyer.

 

1 – O DA VINCI INVENTOR: “GÊNIO SOLITÁRIO”?

Um dos pontos de grande interesse na série Da Vinci’s Demons é, sem dúvida, aquele que diz respeito às invenções do mestre. De fato, ele foi um dos maiores artistas de todos os tempos, pioneiro na representação 3D de uma imagem, assim como genial na maneira metafísica de tratar os temas em suas várias representações do drama humano e da Criação. Tudo isto, por si só, já seria capaz de se lhe imputar uma importância quase ímpar dentre as maiores mentes que já passaram por aqui.

 

Da Vinci, além de pintor, era inventor. Este é um sketch várias máquinas, entre elas de um tanque de guerra (esquerda inferior) | Foto: Creative Commons

 

Alma inquieta e investigador nato sobre as grandes questões que cercam o universo, entretanto, não nos parece que Da Vinci tenha sido alguma espécie de “Harry Potter mil e uma utilidades” no encerramento da Idade Média. Na vida real, a grande força de Leonardo parece ter sido, realmente sobre sua Arte – e tanto é assim que a imagem mais conhecida na História e ícone da representação humana é justamente um de seus trabalhos: A Mona Lisa ou Gioconda. Curioso, inclusive, nos apercebermos que esta pintura nunca fora formalmente batizada por seu criador, e jamais assunto em quaisquer de suas tantas anotações.

 

Pois bem, o que parece ser o mais provável em toda a mística envolvendo o nome de Leonardo, segundo os mais recentes e sérios estudos, é que, basicamente, o artista se baseou em estudos de projetos já desenvolvidos por um contemporâneo seu, o engenheiro sienense Mariano Taccola (1382-c.1453). Autor de dois tratados, o De ingeneis, de 1433; e o De machinis, de 1449, o “Arquimedes de Siena” deu uma das mais importantes contribuições nos estudos de engenharia hidráulica, engenharia de arquitetura e máquinas bélicas.

 


Mariano Taccola, o “Arquimedes de Siena”: inspiração e ponto de partida ao Da Vinci inventor: modelo mecânico para estudos de Cinemática | Foto: Creative Commons

 

Entretanto, sua maior fraqueza era se prender à estrutura medieval de representações esquemáticas, ignorando quase que por completo a perspectiva moderna, para mais de um observador – algo revolucionário  que se despontava à época e onde Leonardo dominava – e desenvolvia – de maneira sobrenatural. E, ao que consta, este foi o “erro fatal” de Mariano; ou seja: assim como hoje, não bastava “ser”, devia-se também “parecer ser”. Da Vinci, por outro lado, conseguiu legar à humanidade a inventividade de Taccola – sem jamais atribuir a si algum invento do mesmo – de maneira fácil de entender e apreender. Finalmente, as ideias daquele audaz engenheiro poderiam passar à História… mas através das mui talentosas mãos de Leonardo.

 

 

2 – O CONVIDADO DE DRÁCULA

Deixando-se de lado suas propriedades “vampirescas” de vida eterna, um eventual encontro entre Leonardo da Vinci e “Drácula” (Princípe Vlad Tepes da Valáquia), caso ocorresse de fato, seria  naturalmente viável como demonstrado em Da Vinci’s Demons.

 

Como “O Empalador” havia sido morto (ao que tudo indica) pelos turcos aos 45 anos de idade, em 1476, Leonardo já contava com seus 24 anos, que é a idade média em que aparece na série.

 

Ainda que em muito associado a um alto grau de perversidade se tratando de punições contra os inimigos, “Drácula” é celebrado como herói nacional na Romênia e Moldávia até hoje, sendo ele responsável por grande parte do bloqueio ao expansionismo islâmico sobre o Leste Europeu.

 

 

3 – LEONARDO, UM HEREGE?

Seria verdadeira a noção na qual, como mostra o seriado da Starz, Da Vinci fosse um herege, sempre em rota de colisão com o poder da Igreja e seus dogmas?

 

Não há absolutamente nada documentado que comprove, de fato, a ideia de um gênio revoltado contra a milenar instituição romana, mas, dependendo da interpretação de uma série de desenhos e pinturas suas, até que é possível que se delineie a imagem de uma mente questionadora a balançar as bases da religião oficial. Um forte exemplo disto é sua grande inclinação para uma tradução intuitiva sobre a natureza e seu devir, assim como a teoria a respeito de que fosse ele o autor da imagem do Santo Sudário de Turim, comumente atribuída a um milagre direto, da ressurreição de Cristo após sua crucificação. Os autores deste estudo são dois pesquisadores ingleses: a autora Lynn Picknett e o historiador Clive Prince, ambos invariavelmente acusados de fazerem sensacionalismo frente a certos temas históricos. Porém, a questão aqui é: ainda que pudessem ser propagadores de afirmativas pouco convencionais, seria o caso,  então, de se lhes anular quaisquer construções baseadas na mais fidedigna lógica racional, em documentação autêntica, estudos acadêmicos sérios, e em suposições plenamente coerentes e razoáveis? Penso que a resposta seja “não”, é óbvio. Como a própria Lynn escreveu, uma régua na mão de um leigo irá marcar um valor diferente se estivesse na de um acadêmico?

 

Cesare Bórgia | Foto: Reprodução/Creative Commons

 

Entretanto, o que discordo na teoria do casal é que, contrariamente à ideia da imagem no lençol mostrar o “autorretrato” de Da Vinci, por meio de técnicas “protofotográficas” – a fim de que gerações presentes e futuras o “adorassem”, pensando adorar ao Filho de Deus, um jeito de zombar a Igreja –, acredito que a intenção fosse outra. Este estudo já foi tema de uma de minhas publicações na Leituras da História, “Jesus, Da Vinci e Bórgia”, onde trouxe evidências de, na verdade, a imagem no rosto do Sudário ser a de Cesare Bórgia, a quem Da Vinci tanto temia, e a quem seu pai, o Papa Alexandre VI – ou Rodrigo Borgia –, pretendia imortalizar como o próprio Salvador do mundo.

 

 

4 – LEONARDO E O NOVO MUNDO

Contrariamente ao que vemos no seriado, é fato que Leonardo jamais pisou no continente americano – ou em qualquer outro que não o seu natalício: a Europa. E o curioso é que, mesmo seu legado material é objeto altamente rarefeito no Novo Mundo.

 

Retrato de Ginevra de Benci | Foto: National Gallery of Art

 

De suas pinturas, apenas UMA (de autoria comprovadamente autênticas) se acha nas Américas: o Retrato de Ginevra de Benci, na Galeria Nacional de Washington. Até bem pouco tempo, chegou a existir uma segunda, o “Salvator Mundi”, em Nova Iorque,como peça de uma coleção particular encabeçada pelo especialista em Arte Antiga Robert Simon, e vendida a um colecionador particular. Ainda que levemos em conta que todas as pinturas executadas pelo gênio de Milão fossem, de qualquer jeito, em número reduzido, a tendência é esta soma se expandir, graças ao desenvolvimento de novas técnicas científicas e a novas linhas de pesquisa que, pouco a pouco, ajudam a trazer à luz novos “autenticados” advindos do estúdio do artista – individualmente, ou em colaboração com outros artistas. Um dos casos mais recentes (além do próprio Salvator Mundi) é o de A Jovem Mona Lisa (Earlier Mona Lisa), atualmente em Genebra, propriedade de um consórcio internacional.

 

Salvator Mundi | Foto: Private collection/New York City

 

 

5 – QUAL A APARÊNCIA DO JOVEM DA VINCI?

Sem dúvida, distante da do ator Tom Riley – na série, a partir dos 25 anos de idade. As crônicas da época apontam para o jovem Leonardo como um rapaz de imensa beleza física, loiro e de olhos azuis – diferentemente do tipo mais latinizado de Riley. Um dos biógrafos a confirmar estes dados foi o também pintor Giorgio Vasari (1511-1574), célebre por sua “Vida dos Artistas”. Tobias e os Três Arcanjos (1469-70), quando Da Vinci contava com dezessete anos, encarnando São Miguel Arcanjo. Botticini, assim como Leonardo, também trabalhava no ateliê de Andrea del Verrocchio naquele momento. O quadro se encontra hoje exposto na Galleria degli Uffizi, Florença. Verrocchio, por sua vez, também o teria tomado como modelo para uma escultura em bronze do Davi da Bíblia.

 

Tobias e os Três Arcanjos, Miguel (Da Vinci) Rafael e Gabriel, por Francesco Botticini | Foto: Francesco Botticini

 

 

6 – O ORNITÓPTERO DE LEONARDO

Dentre os estudos de engenharia de Da Vinci, talvez, o mais ousado de todos deva ser o protótipo para um avião – uma máquina que, pela primeira vez na História, guiaria o Homem nas altitudes fazendo, assim, que a força da gravidade fosse controlada… um sonho tido por muitos como mero delírio.

 

Como de costume, espelhou-se o artista na Mãe-Natureza a fim de entender a mecânica do voo, ao que seu produto seria, praticamente, uma imitação da estrutura das aves – ainda que, aparentemente, se assemelhasse mais a um quiróptero. Ao esquema deu o nome de “ornitóptero”, ou seja, “objeto alado como os pássaros”, finalizado em 1488. O próprio funcionamento do engenho – à base de cordas – reproduziria os detalhes dos batimentos das asas dos pássaros, sendo possível controlá-lo por mãos e pés, enquanto o corpo do piloto repousaria por sobre uma prancha central. Fosse como fosse, Leonardo jamais viria a construir a máquina por razões não muito claras, e os especialistas sempre torceram o nariz em relação à funcionalidade do objeto.

 

Ornitópterono é um aeródino cuja sustentação e a propulsão são dadas pelo movimento alternativo de suas asas, assim como as aves, morcegos e insetos voadores | Foto: Creative Commons

 

Em 2010, um grupo de engenheiros canadenses chefiado pelo engenheiro estrutural Cameron Robertson, da Universidade de Toronto, traria à realidade um ornitóptero – seu princípio técnico teria alguma semelhança ao de Da Vinci. Este ornitóptero pesava apenas 42,73 quilos, e com envergadura de 32 metros. Com uma velocidade de 25,6 km/h, a curta duração do voo foi de 19,3 segundos, traçando uma distância de 145 metros.

 

 7 – TERIA SIDO UMA QUASE  NOVIÇA, AMANTE DE LEONARDO DA VINCI?

No roteiro de Da Vinci’s Demons, a ação eletrizante é invariavelmente embalada pelo tórrido romance entre a bela Lucrezia Donati e o protagonista da série, Leonardo da Vinci. Entretanto, o casal mais romântico da Renascença italiana – e uma das prováveis inspirações para a história de “Romeu e Julieta” –, seria, sim, a aristocrata Lucrezia Donati (1446?-1501) e… o governante Lorenzo de Medici, cuja poderosa família de banqueiros chegara a expulsar os Donati de Lucrezia da disputada Florença. No início, a jovem precisou abandonar um convento para onde tinha se instalado – a fim de pagar uma promessa por conta de ter se curado da peste negra – devido à paixão e insistências de Lorenzo. Foi a partir daí que ela também se apaixonou por este. Era, de fato, um amor ainda mais inviável levando-se em conta o fato desta estar previamente prometida ao mercador florentino Niccolò Ardinghelli, 17 anos mais velho.

 

Leonardo Da Vinci e Lucrezia Donati, interpretados por Tom Riley e Laura Haddock, do seriado Da Vinci’s Demons, exibido pela FOX | Foto: Divulgação/FOX

 

Apaixonados, Lucrezia e Lorenzo (três anos mais jovem que sua pretensa consorte) chegam a participar de uma cerimônia de união secreta em 1464, quando contava ela com 17 anos de idade, e ele, com 14. Entretanto, por força das alianças estratégicas de suas respectivas famílias, os dois se veem obrigados a seguir a vida casando-se com outras figuras importantes: Lucrezia confirma com o próprio Ardinghelli, e Lorenzo, com Clarice Orsini – outra muito influente linha genealógica. A partir daí, o inconformado Medici (dito “o Magnífico”) resolve homenagear a amada estampando sua imagem – pintada pelo mestre de Leonardo, Andrea del Verrochio – nas bandeiras de suas cavalarias e, durante um torneio, resolve expor em uma declaração pública seu caso de amor proibido – o que, obviamente, rendeu a ambos a rejeição popular… E os dois jamais se veriam novamente, jurando unirem-se, finalmente, no além. Em tempo, Lucrezia era musa, na verdade de outro gigante das Artes na Renascença: Sandro Botticelli. E, quanto àquela relação incandescente entre Lucrezia e Leonardo da Vinci… esqueçam.

 

 

8 – A ESCRITA REVERSA DE LEONARDO

Dentre tantas peculiaridades associadas ao gênio mais ou menos inconformado de Leonardo da Vinci, das mais referidas é sobre seu hábito de escrever os famosos estudos de trás pra frente, em sentido reverso. Aquela dita “memorável” seria a que se lhe quer atribuir o plano de “esconder” o conteúdo de suas ideias altamente subversivas ou inventivas dos “ladrões intelectuais” de plantão… Particularmente, qualquer criança apontaria em menos de um minuto a chave para este “grande” segredo. Achar que pessoas adultas, estudiosas do alto clero da Igreja, da Filosofia, Política, da Geometria, da Aritmética e da Álgebra não pensar, por um instante, na possibilidade da escrita de Leonardo estar de trás pra frente, é um grande escárnio para com estas grandes mentes do passado.

 

Outra destas superficiais teorias aponta para o desejo do artista, que era canhoto, em não sujar sua mão de tinta. Plausível, mas Leonardo era, essencialmente, um desenhista e pintor. Então, sujar-se em nome de algo maior – no caso, fazer nascer um texto ou obra de arte, sublimação do Humano sobre o mundo material – não seria apenas consequência natural do ofício, mas um fatum e um prazer. Semelhante a esta, também há quem defenda que a intenção seria “economizar” a tinta que escorreria pelo lado esquerdo da pena, ficando inutilizável no documento. Acho que, para Da Vinci, “economizar” nunca foi objeto de muita preocupação: muitos de seus magnânimos projetos atestam isto. Além de quê, em relação à tinta, esta poderia ser escolhida dentre as mais baratas, abundantes e fáceis de se produzir em sua época. Já migrando para a área médica, seus supostos problemas de dislexia apenas são mencionados justamente em razão da escrita invertida a qual, não necessariamente, poderia vir da doença.

 

E o seriado Da Vinci’s Demons nos sugere que, para que não se perdesse tempo com mais nada, Leonardo executaria, aqui e ali, duas tarefas ao mesmo tempo: uma, com a mão direita (como pintar uma tela, por exemplo), e outra, com a esquerda (como fazer estas anotações dos Codices). Curioso, mas pouco prático, na verdade… Para tal o artista deveria estar desviando constantemente sua atenção de uma das duas atividades, cortando-se, assim, a linha e o desenvolver de uma ideia, por exemplo. Extremamente improvável para quem tanto prezava o pensamento puro e perfeito, disciplinadamente formulado e erigido.

 

Ora, entender a prática da escrita reversa em Leonardo apenas estaria abrindo extensão à sua crença em uma realidade multifacetada que nos envolve, onde a simetria está por toda parte, em total equivalência dentre quaisquer pontos de referência. Escrever, pintar e realizar tarefas deveria indicar, também, a uma correspondência contrária, oposta, já que, assim como tudo, abriga duas possibilidades, ou apresentações de uma mesma realidade. Para o Homo universalis, íntegro, total, expansivo, escrever ao contrário terá que ser tão natural quanto da forma destra e no sentido “normal” (da esquerda para a direita): estamos falando da potencialidade plena incutida em qualquer coisa.

 

 

*Átila Soares da Costa Filho é especialista em História da Arte, Filosofia e Sociologia; autor do livro A Jovem Mona Lisa (Ed.Multifoco); e colaborador da Mona Lisa Foundation (Zurique).

Adaptado do texto “Deturpando da Vinci”

Revista Leituras da História Ed. 80