Nazismo e fascismo influenciaram políticas do Estado Novo

O governo de Getúlio Vargas, que naquela época declararia guerra à Alemanha, passou do apoio aos integralistas – num primeiro momento – à perseguição a eles

Por Luiz Muricy Cardoso | Foto: Reprodução/A Revoada dos Galinhas Verdes – Uma História da Luta Contra o Facismo no Brasil/Fúlvio Abramo | Adaptação web Caroline Svitras

Com o fim do Estado Novo de Getúlio e da guerra, passou, de acordo com historiadores, a envidar esforços no sentido de negar sua simpatia ao fascismo e figurar como arauto da democracia. Tendo apoiado a candidatura de Juscelino Kubitschek, foi nomeado diretor do Instituto Nacional de Imigração e Colonização. Já em 1964, durante o governo do esquerdista João Goulart, ajudou a organizar e participou ativamente da “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade”, a famosa passeata que reuniu uma grande multidão em São Paulo pedindo uma atitude militar contra Goulart que redundaria no golpe de 1964 – que teve o apoio dos integralistas.

 

Plínio, apoiando o golpe que estabeleceu a ditadura militar que aqueles denominaram Revolução, em 1964, elegeu-se deputado mais duas vezes pela ARENA (Aliança Renovadora Nacional), o partido governista. Plínio militou na política até 1974. Sua trajetória começou a se desenhar bem antes, em 1916, aos vinte anos, quando fundou o jornal Correio de São Bento. A vida de Plínio Salgado foi marcada por dois acontecimentos infelizes: a morte de seu pai quando ele tinha 16 anos o transformou num jovem algo amargurado. Posteriormente, em 1919, a morte de sua esposa Maria Amélia Pereira, apenas quinze dias após o nascimento de sua filha única Maria Amélia Salgado foi mais um baque em sua existência. Por isso o político passou a rejeitar a filosofia materialista e a psicologia, que tinham-lhe sido objeto de estudo e voltou-se para a doutrina católica, como um lenitivo ao impacto da morte de sua esposa, ele que só se casaria novamente em 1936, com Carmela Patti.

 

Intelectual de direita

Longe de ser um bronco rude e bruto – ao contrário da fama de violentos intransigentes e grosseiros dos integrantes da sua AIB – Plínio era um intelectual de cultura refinada, que escreveu diversos livros, fundou jornais e – membro da Academia Paulista de Letras – foi amigo de pensadores como o poeta Menotti Del Picchia e dos escritores Cassiano Ricardo e Cândido Mota Filho. Ele foi um entusiasta da cultura indígena, que ele identificava como a mais legítima expressão de brasilidade e, nacionalista, lançou, em 1926, o livro Literatura e Política, em que defende seus pontos de vista antiliberais, pró-agrários e – autoritário que era, não obstante – contrário ao sufrágio universal.

 

imagem do Chefe Integralista Plínio Salgado durante comício no Paraná | Foto: Arquivo Público Paraná

 

Plínio Salgado, escritor, político, teólogo e jornalista fundou a Ação Integralista Brasileira (AIB). Baseada nos postulados do Fascismo italiano do caudilho Benito Mussolini, organização de extrema direita que era. Entretanto Salgado condenava publicamente o racismo, contrariamente às teses dos nazistas, aliados dos italianos e japoneses que acabariam movendo juntos a guerra contra os países democráticos – e também contra o comunismo e os judeus. A posição que sustentava – pelo menos oficialmente – se confirmava pelo fato de que a AIB tinha negros atuantes em suas fileiras. Era o caso de Abdias Nascimento e João Cândido. Segundo afirma a História ele realmente rejeitava o racismo e o antissemitismo, mas muitos membros de seu partido eram sabidamente racistas segundo os documentos que nos chegaram até hoje. O que parece ser plausível, pois registros oficiais dão conta de que a AIB chegou até a compartilhar o edifício sede de sua organização com o Partido Nazista na cidade catarinense de Rio do Sul, por exemplo.

 

Racistas?

O fato de haver negros filiados à AIB deixa margem a conjecturas diversas a respeito das verdadeiras motivações e da veracidade das afirmações sobre os postulados de Hitler e seus simpatizantes – e de seu embasamento ideológico. E oferece aos revisionistas um prato feito, um campo de discussões e permite conclusões adversas que vão de encontro à ideia de que Adolf Hitler e seus partidários eram monstros racistas que não toleravam senão aqueles concordes com a tese da superioridade ariana. Dá o que pensar, por exemplo, o fato de que Anuar Sadat, aquele que foi presidente do Egito, foi nazista. Se, árabe, o governante da nação muçulmana não era considerado negro, pelo menos era homem de pele bem escura e cabelo crespo. Qual era, a propósito, a cor da obscura mulher de Hitler? Pelo menos no nome Eva Braun era morena (Braun – a conhecida palavra “brown” em Inglês, quer dizer marrom – o termo está relacionado com a expressão “brunette” que significa morena e assim o nome da companheira de Hitler era, traduzido, Eva Moreno, um sobrenome bastante conhecido entre nós brasileiros).

 

Sabe-se também que Hitler ofereceu seus préstimos e hospitalidade a Albert Einstein, o genial cientista judeu. O físico foi convidado a retornar à Alemanha nazista – de onde havia se exilado na 2ª Guerra – “…esquecendo-se o fato de ser judeu” nas palavras do chanceler alemão, que fez a sugestão. É relevante também que um navio cheio de judeus a caminho da Alemanha sob o jugo nazista, cuja tripulação fora inteiramente cristianizada pelo Papa Pio XII, chegando a seu destino, tenha sido poupado da morte. Sabe-se também que Krupp, o fabricante de armas da Alemanha nazista era judeu (cristão novo?). Seu nome é provavelmente uma corruptela, uma germanização da palavra inglesa Crop quer dizer “colheita”).

 

Fotografia de desfile integralista, em 1930, cujos membros usavam uniformes e defendiam um Estado Totalitário | Foto: Creative Commons

 

Não devemos esquecer que a História atualmente contada sobre a 2ª Guerra Mundial o é pelos vencedores, que talvez não tenham resistido a falsear, ou pelo menos maquiar certos aspectos dos acontecimentos até 1945, criando uma versão própria dos fatos. Parece ser inegável, entretanto, que Adolf Hitler tivesse tido motivação racista em relação aos judeus. Haja vista, por exemplo, as referências que nos chegaram, ao seu livro Mein Kempf (Minha Luta). A obra, porém, não pode ser lida em nosso país, porque está censurada.

 

O nazismo não teria sido senão uma reação natural ao avanço do comunismo, talvez seu principal adversário? A Revolução Russa, que estabeleceu esse regime ideológico na Europa a partir de 1917 tinha por preceito básico a luta de classes e a exportação de sua oposição bélica à “burguesia” e aos governos capitalistas, de economia privada e liberal-democráticos. Outra motivação, talvez a mais importante, foi o fato de que a Alemanha, por volta dos anos 1930, quando o chanceler subiu ao poder, era uma nação empobrecida, miserável mesmo, e Hitler, estabelecendo seu Socialismo próprio (Nazismo significa, na sigla, Nacional Socialismo), passou a confiscar os bens dos judeus, então as pessoas mais ricas do país, que eram o capital indispensável e mais a mão de que o Führer dispunha para levar adiante seus objetivos econômicos, financeiros, sociais e finalmente bélicos. Não é o caso de se canonizar Hitler, mas pelo bem da verdade histórica convém que se considere corretamente os fatos e que se investigue com isenta honestidade as evidências e os documentos que até hoje são vedados ao exame dos estudiosos.

 

Mas não! Qualquer conjectura revisionista que tente negar o racismo em Hitler parece falaz. Ora, quem há de contradizer que o nazismo estava baseado na tese da superioridade da raça ariana? Não são os atuais neonazistas pessoas – até prova em contrário – invariavelmente intolerantes em relação àqueles que não são considerados arianos ou que discordem de suas ideias, como todo regime discricionário? Assim, parece que a transigência do Führer a alguns judeus e negros é apenas algo que se pode comparar ao chamado “Pacto Maldito”, o acordo de não agressão que o chanceler alemão firmou com o ditador russo Josef Stalin. Ou seja, algo circunstancial e destinado a durar pouco, como de fato aconteceu: Hitler, afinal, traindo o agreement invadiu a Rússia, numa empreitada em que, afinal, deu como os burros n’água, ou melhor, no gelo, ou na lama do qual suas tropas acabaram atoladas sucumbindo ao rigorosíssimo inverso russo – 60 graus abaixo de zero! Não é à toa que os membros da AIB, como relata a História, espancaram não alguns, mas dezenas de negros em um desfile da facção no centro do Rio em 1936. Alguns falam até em centenas de afrodescendentes agredidos.

 

Muito elogiado por gente como o escritor Monteiro Lobato, Plínio Salgado foi, entretanto, odiado por outros por causa de suas convicções. Foi o caso de gente como Jorge Amado, que o chamou de “idiota”. Assim Monteiro Lobato, apesar de ter sido preso pela ditadura Vargas e acusado de ser favorável à esquerda, não era, entretanto, um comunista. Já o escritor baiano Jorge Amado sintomaticamente namorava com a URSS. Plínio foi um criterioso investigador da Filosofia. Leu Rousseau, Locke, Hobbes, Nietzsche, Comte, William James, Freud, Marx.

 

Plínio Salgado, que rejeitava as abordagens “mutiladoras” do ente indivíduo humano, era contra a limitação ao cidadão que as ideologias impunham. Pregou também a vida agrária e o esforço moral do indivíduo no sentido de encontrar a felicidade na satisfação de suas tendências morais principalmente católicas e no cumprimento das diretrizes traçadas pela Bíblia, pautando sua conduta pela trajetória histórica seguida na leitura do Velho e do Novo Testamento, o principal manancial de sua formação intelectual. Apesar das acusações de apoio a causas genocidas, Salgado considerava-se um “amigo do gênero humano”.

 

Revista Leituras da História Ed. 95

Adaptado do texto “O Fascismo com cara de Brasil”