Nazistas entre nós

Se o povo mais simples conviveu com nazistas sem saber ao certo quem eles eram, grande parte das autoridades das nações capitalistas preferiu se mostrar omissa diante deles, principalmente para usufruir dos conhecimentos científicos e técnicos que possuíam, no intuito de combater o comunismo

Por Morgana Gomes | Foto: Reprodução/History & The Holocaust | Adaptação web Caroline Svitras

O Anjo da Morte, Josef Menguele (à direita), sorri debochadamente em foto com amigos, captada em data desconhecida na América do Sul

De um modo geral, todos os nazistas foram responsáveis pelo Holocausto, mas no final da 2ª Guerra Mundial a culpa pela matança desmedida recaiu somente sobre Adolf Hitler e os demais sentenciados nos julgamentos de Nuremberg. Devido a tal inversão de valores, a grande maioria dos criminosos teve uma nova chance de vida e, assim, eles puderam se espalhar pelas Américas e alguns países do mundo, onde foram aceitos apenas como estrangeiros livres de qualquer dolo. Havia muitos interesses nessa aceitação. Para os Estados Unidos, por exemplo, beneficiar-se dos conhecimentos que traziam consigo para combater o comunismo era um deles.

 

Passaporte falso, obtido junto à Cruz Vermelha Internacional, já com o nome de Ricardo Klement, que foi usado por Adolf Eichmann para entrar na Argentina | Foto: Fundacion Memoria del Holocausto, Argentina

Consequentemente, o período de Guerra Fria, ao cooperar com o esquecimento deliberado deles, acabou por colocá-los entre nós, por meio de um amplo círculo de proteção e acobertamento mantido com o objetivo de ajudar importantes funcionários do Reich a escapar dos tribunais militares instalados pelos Aliados. Em decorrência desse esquecimento de verdades históricas – que ainda foi acrescido de muitas mentiras – a vida dos nazistas que nunca se preocuparam com o fardo do mal que carregavam e, em muitos casos, nem mudaram os próprios nomes antes de se integrarem nas sociedades que os receberam, foi totalmente facilitada e, aos poucos o silêncio em relação a eles tomou forma e ganhou várias versões, como nos explica Marcos Guterman, autor da obra Nazistas entre nós.

 

Nela, além de tentar desvendar os capítulos de um passado recente que acobertou os criminosos, mas cujo contexto ambíguo e liberal por um lado justificava práticas de violência – caso da explosão da bomba atômica no Japão –, mas por outro, também via eclodir movimentos sociais que, ao lutar por ideais de igualdade, cidadania e democracia, adquiriram força em meados do século 20, o nosso entrevistado também registra como as vítimas do Holocausto foram penalizadas por duas vezes: primeiro, quando sofreram brutalmente nas mãos dos nazistas e, depois, quando, impotentes, viram seus algozes tanto escaparem da Justiça após a guerra quanto viverem uma vida normal, que os sobreviventes do genocídio, depois de destroçados nos guetos e nos campos da morte, nunca puderam ter.

 

Já no que se refere especificamente ao Brasil, aqui, como nos demais países das Américas, sempre imperou a chamada vista grossa, fato que dá para ser constatado com a descoberta da presença e, logo após, com a morte de Josef Menguele. Apesar das inúmeras matérias que ocuparam lugar de destaque na mídia nacional, nenhuma explorou os nomes ou as razões que motivaram certas pessoas a oferecerem proteção ao Anjo da Morte.

 

Diante da eminência de uma guerra nuclear, o mundo ocidental optou por esquecer o horror do Holocausto | Foto: Alexander Voronzow/Belarusian State Archive

 

Leituras da História – Por que os nazistas que chegaram ao Brasil, como em outros países das Américas, conseguiram encontrar um lugar confortável nas respectivas sociedades que, durante a 2ª Guerra, diziam repudiar os atos deles?

Marcos Guterman – Houve diversas vias pelas quais os antigos oficiais nazistas deixaram a Europa e chegaram ao Brasil e a vários outros países das Américas. A mais conhecida foi a que teve participação de integrantes do Vaticano e da Cruz Vermelha e que permitiu, por exemplo, que Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pelo planejamento do extermínio dos judeus, tivesse uma nova vida na Argentina. Mas muitos nazistas conseguiram entrar e se fixar nos Estados Unidos, porque o governo norte-americano, interessado nos serviços deles na luta contra os comunistas, resolveu fazer vista grossa.

 

LH – De que forma se deu a dissociação deles do Holocausto, cuja responsabilidade aparentemente coube apenas a Adolf Hitler?

MG – Hitler tornou-se o símbolo do nazismo e do extermínio dos judeus para que todos os demais elementos da máquina do Holocausto pudessem recomeçar suas vidas. Isso aconteceu porque são poucos os alemães contemporâneos do nazismo que podiam alegar desconhecimento do que estava acontecendo. Logo, todos também poderiam ser considerados culpados, ao menos, por omissão. Mas a verdade é que a maioria dos alemães ou apoiava os nazistas explicitamente, ou era indiferente. Por essa razão era necessário criar uma narrativa segundo a qual o nazismo se resumia a Hitler e aqueles que haviam sido sentenciados nos julgamentos de Nuremberg.

 

A violência das guerras

 

LH – Como esses mesmos nazistas, anteriormente combatentes dos países aliados, tornaram-se ativos participantes na luta contra os comunistas durante o período da Guerra Fria?

MG – Porque os países Aliados na 2ª Guerra entendiam que eles eram especialistas na luta contra os comunistas e poderiam ser úteis, especialmente nos serviços de inteligência e espionagem.

 

LH – Que tipo de cooperação eles desenvolveram junto os países capitalistas?

MG – Eles trabalharam basicamente nos serviços de inteligência, mas muitos cientistas e médicos foram úteis em programas oficiais, especialmente nos Estados Unidos, mas também na Argentina.

 

LH – Alguns deles também se tornaram apoiadores das ditaduras da América Latina? Nesse caso específico o senhor poderia citar nomes e ações empreendidas pelos nazistas?

MG – O caso mais emblemático, nesse aspecto, é o de Klaus Barbie, conhecido como o Açougueiro de Lyon. Ele emprestou suas grandes qualificações como torturador de rebeldes franceses durante a guerra para que a ditadura boliviana controlasse a oposição. Barbie chegou a ter razoável influência no governo da Bolívia.

 

Klaus Barbie (à esquerda) e seu amigo Álvaro de Castro, fotografados em Lima, capital da Bolívia, por Peter McFarren em 1983, semanas antes sua expulsão para a França | Foto: Reprodução/YouTube

 

LH – Dá para dizer que entre os nazistas, alguns chegaram realmente a rejeitar a ideologia em prol de uma nova vida ou só aprenderam a usar as palavras para se isentarem dos crimes contra os judeus e demais minorias?

MG – Nenhum dos oficiais nazistas que eu pesquisei demonstrou o menor traço de arrependimento. Pelo contrário, sempre que podiam, reafirmavam a certeza de que haviam feito a coisa certa e que, se necessário, fariam de novo.

 

LH – A sociedade não se atentou para esse detalhe ou ela apenas se mostrou alienada em relação aos criminosos alemães a fim de esquecer as atrocidades que simplesmente deixou acontecer aos outros povos?

MG – A necessidade de superar a guerra levou à consolidação da ideia de que os nazistas já haviam sido punidos em Nuremberg. Portanto, a página do Holocausto podia ser virada. Era muito conveniente para todos, especialmente diante do fato de que o grande inimigo, depois da guerra, era o comunismo soviético. A perspectiva de uma guerra nuclear e a necessidade de engajar a Alemanha na luta contra a União Soviética ajudaram o mundo ocidental a, rapidamente, esquecer o Holocausto.

 

A face da justiça

 

LH – O que moveu membros do Vaticano e de diversos serviços secretos do mundo a ajudar tanto a escapada dos nazistas da Justiça quanto a proteção posterior deles em novos lugares?

MG – Mais uma vez, o que moveu alguns bispos do Vaticano a ajudar os nazistas foi, antes de tudo, o feroz anticomunismo. Mas havia também entre eles sinceros simpatizantes do nazismo.

 

LH – O que diferencia o contexto de fuga dos nazistas para o Brasil, Argentina e Estados Unidos?

MG – O Brasil não era o destino preferencial deles. A Argentina já era, por sua afinidade europeia e pelo engajamento do governo de lá na causa nazista. Por sua vez, em razão de seu desenvolvimento e da oferta de trabalho, os Estados Unidos também se tornou um lugar desejado.

 

Senador americano Alben W. Barkley, membro do comitê que investigava os crimes nazistas, ao lado de corpos de prisioneiros do campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha| Foto: The German Federal Archives or Bundesarchiv

 

LH – Por que a América Latina é chamada de o refúgio da escória?

MG – Porque os nazistas entendiam que a região era remota o bastante para servir como um bom esconderijo e porque muitos governos latino-americanos estavam tomados de autoridades afinadas com o nazismo.

 

LH – Como foi possível reconstituir a trajetória dos principais oficiais de Hitler que seguiram para países das Américas?

MG – Por meio de pesquisa de documentos e de material de imprensa brasileira, americana, argentina e alemã, além da razoável bibliografia já existente sobre o tema.

 

Heroínas da 2ª Guerra Mundial

 

LH – O que fomentou a rede de articulação de ex-oficiais nazistas para ajudar os companheiros recém-chegados da Europa?

MG – O que formou as redes de auxílio aos ex-nazistas foi a óbvia necessidade de proteger camaradas e também porque, em alguns casos, esperava-se que essas redes fossem o núcleo de uma retomada do nazismo, como partido político, em algum momento no futuro.

 

Franz Stangl, ex-comandante do campo de extermínio nazista de Treblinka, após passagem pela Síria, chegou ao Brasil em 1951 e, com a ajuda de amigos, foi trabalhar na fábrica da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, usando seu próprio nome, até ser extraditado para a então Alemanha Ocidental em 1967 | Foto: Reprodução/Daily Mail

LH – Por que Josef Mengele, Franz Stangl e Gustav Wagner escolheram o Brasil como destino?

MG – Mengele não escolheu o Brasil. Veio para cá depois de ter passado por Argentina e Paraguai. Stangl foi primeiro para a Síria e só depois veio para o Brasil, graças à perspectiva de encontrar trabalho rapidamente, a mesma razão pela qual Wagner também veio para o nosso país.

 

LH – Embora alguns tenham sido capturados e julgados, o Brasil, principalmente durante o período ditatorial, também foi omisso em relação aos nazistas que aqui estavam?

MG – Pode-se dizer que o Brasil tenha sido indiferente e descuidado, permitindo que nazistas viessem e se instalassem sem maiores dificuldades. Mas o fato de que vivíamos numa ditadura não foi essencial para esse descuido. Não se pode relacionar uma coisa à outra.

 

LH – Como a sociedade atual trata o Holocausto? Ela realmente acredita que é um capítulo passado da História, mesmo sendo tão recente?

MG – Infelizmente, o Holocausto está cada vez mais na categoria das narrativas fantásticas, daquelas que rendem boas bilheterias no cinema, e menos como objeto historiográfico, que poderia levar a sociedade à reflexão sobre seus erros e sua responsabilidade diante do que aconteceu há tão pouco tempo.

 

LH – Além de alertar a sociedade sobre o perigo de esquecer o nazismo e seus responsáveis, quais os demais objetivos de seu livro?

MG – Além da história fantástica da fuga desses ex-oficiais nazistas, eu queria demonstrar como o mundo rapidamente superou seu horror em relação aos crimes nazistas, particularmente contra os judeus, em nome da necessidade de seguir adiante.

 

LH – Pesquisas recentes apontaram que, mesmo sendo multiétnico, nosso país tem 180 mil leitores de ideologias neonazistas só na internet…

MG – Não vejo nisso um grande problema. O Brasil não tem espaço para o desenvolvimento substancial de uma ideologia ultranacionalista como a que inspirou o nazismo. Mesmo que muitos se interessem por textos neonazistas, isso não os torna automaticamente neonazistas nem os torna, necessariamente, um risco para o país. São necessários muitos elementos, ausentes no Brasil, para que o nazismo prospere aqui, em especial o ódio ao imigrante estrangeiro e uma noção sanguínea de pátria.

 

*Marcos Guterman, é historiador formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mestre pela mesma instituição, doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. É também especialista em nazismo e antissemitismo. Jornalista profissional, trabalhou por 14 anos na Folha de S. Paulo e desde 2006, vem atuando no jornal O Estado de S. Paulo. Além de os Nazistas entre nós, também é autor do livro O futebol explica o Brasil, ambos publicados pela Editora Contexto.

Adaptado do texto “Eles sempre estiveram entre nós”

Revista Leituras da História Ed. 99