Nikolay Voronov e seu legado

Ele se tornou o primeiro marechal das forças armadas na história do antigo estado socialista com certificado emitido pelo presidente do Conselho Supremo e classificação especial de Chefe Marechal de Artilharia

Por Morgana Gomes | Foto: Sputnik / Alamy Stock Photo | Adaptação web Caroline Svitras

 

Filho de Nikolai Terentyvich Voronov, cozinheiro do Império Russo, e Valentina Voronov, Nikolay Nikolayevich Voronov nasceu no dia 5 de maio de 1899, em São Petersburgo. Ainda criança viu o pai perder o emprego logo após a revolução de 1905, em virtude da simpatia que nutria pelo Partido Operário Social Democrata Russo. Três anos depois, teve que conviver com o suicídio da mãe (que tomou cianeto). Apesar de todas as dificuldades, durante a infância estudou em escola particular e sempre foi bom aluno. Porém, em 1914, devido aos problemas financeiros do pai, teve que abandoná-la.

 

Pouco depois, Voronov conseguiu trabalho como secretário de um advogado. Em 1917, por vontade própria retomou os estudos, fato que possibilitou sua entrada no Exército Vermelho em 1918. No mesmo ano, completou dois cursos de artilharia em Petrogrado. Como comandante de um pelotão do 15º Exército lutou perto de Pskiy ao lado de Nikolai Yudenich. Em 1919, ingressou no Partido Comunista da União Soviética (URSS).

 

Em abril de 1920, partiu para a Guerra Polaco-Soviética. Em agosto, sofreu um grave ferimento e perdeu a consciência durante a batalha que ocorreu na aldeia polonesa de Józefów nad Wisłą. Ao recobrar os sentidos, após constatar que tropas polonesas haviam capturado o local, mesmo ferido, tentou fugir, mas foi capturado e ficou preso por oito meses, período em que contraiu tifo e, por duas vezes, quase teve a perna amputada. Com fim do conflito, foi repatriado em abril de 1921.

 

 

De volta à Rússia

Em 1922, Voronov ingressou na Escola Superior de Comandantes de Artilharia, na qual se formou em 1926. Em seguida, como havia se destacado no comando da artilharia do Distrito Militar Bielorusso, recebeu permissão para realizar o exame de admissão para a Academia Militar Frunze, na qual se graduou em 1930. Tornou-se, então, Comandante do Regimento de Artilharia da Divisão de Moscou.

 

Em agosto de 1932, foi enviado à Itália, como parte de uma missão soviética. Dois anos depois, em abril de 1934, retornou a Rússia e foi nomeado Chefe Militar Comissionário da 1ª Escola de Artilharia. No ano seguinte, após uma rápida estadia na Itália, ao retornar a Moscou, foi novamente promovido a Comandante de Brigada, em 11 de novembro. No início de 1936, ainda foi condecorado com a Ordem da Estrela Vermelha pela gestão que desenvolveu na escola de artilharia.

 

Detalhe do clima conturbado de Madri à época que Voronov atuou como conselheiro para os republicanos espanhóis | Foto: Creative Commons

 

No mesmo ano, usando o pseudônimo de Voltaire, atuou como conselheiro para os republicanos espanhóis, ajudando-os na formação de unidades de artilharia na chamada Frente de Madri. Embora o conflito tenha sido ganho pelos nacionalistas da Espanha, o trabalho de Voronov rendeu-lhe tanto o retorno a Moscou quanto mais duas condecorações: a Ordem de Lênin e a Ordem da Bandeira Vermelha.

 

 

Antes da 2ª Guerra…

Em setembro de 1939, durante a invasão soviética no leste da Polônia, Voronov já comandava a artilharia bielorrussa. Nessa época, ele quase perdeu a vida em um acidente enquanto inspecionava as tropas de Leningrado que se preparavam para guerra de inverno. Logo após, ele passou a liderar as unidades de artilharia do 7º Exército na ofensiva contra a Linha de Mannerheim (fortificação construída pela Finlândia para se defender da URSS). Suas ações, por mais uma vez, renderam-lhe a segunda Ordem de Lênin e a promoção para o Segundo Comando do Exército, o terceiro mais alto posto militar do estado socialista.

 

Em 4 de junho de 1940, tornou-se Coronel Geral, momento em que liderou a artilharia especial de Kiev durante a ocupação soviética da Bessarábia e Norte Bucovina. Com a extinção do cargo de chefe da artilharia assumiu a Direção Principal do Ministério da Defesa da Federação Russa, subordinando-se ao comandante e marechal soviético Grigory Ivanovich Kulik.

 

Marechal soviético Grigory Ivanovich Kulik, ao qual se subordinava Voronov no período em que assumiu a Direção Principal do Ministério da Defesa da Federação Russa | Foto: Creative Commons

 

 

Grande conflito mundial

Em 19 de junho de 1941, Voronov foi transferido para o cargo de Chefe da Direção Principal de Defesa Aérea, posição na qual reforçou a defesa do espaço aéreo de Moscou, nos primeiros dias de guerra na Frente Oriental da URSS. Um mês depois, restaurado o cargo de chefe da artilharia, ele o reassumiu e, em 20 de julho, usou a artilharia antitanque que havia organizado na ofensiva de Yelnya. Fracassou e teve que voltar a Moscou, onde, junto ao comandante Leonid Govorov, desenvolveu detalhadas táticas antitanque, que passaram a ser aplicadas pelo Exército Vermelho.

 

Em seguida, por ser membro do Comitê de Defesa do Estado, Voronov foi para Leningrado, onde preparou a defesa antitanque e também a artilharia da cidade. Ao mesmo tempo, enquanto auxiliava na organização dos contra-ataques, ele ainda montou um quartel general de artilharia, que foi liderado pelo comandante Ivan Susloparov.

 

Em setembro, voltou a Moscou tanto para analisar a disponibilidade de reserva na Frente da cidade quanto trabalhar na formação da artilharia e dos regimentos antitanques destinados à defesa local. No final de outubro, retornou a Leningrado para organizar a artilharia na área de Nevsky Pyatachok, na intenção de defender a estrada que levava a Moscou. Logo após, ele passou a trabalhar com fornecimento, aquisição e coordenação das unidades de artilharia nas áreas da Campanha de Inverno.

 

Soldados da artilharia russa durante o cerco das tropas alemãs em Stalingrado | Foto: EFE

 

Já em fevereiro de 1942, ele apresentou a Joseph Stalin a questão da falta de liderança na defesa aérea militar, problema existente desde novembro 1941. Em consequência da comunicação, em 2 de junho, todas as unidades de defesa aérea foram subordinadas aos comandantes de artilharia da frente.  Ainda no mesmo mês, Voronov participou do planejamento e condução de operações no flanco esquerdo da Frente Ocidental. Em julho, foi para Stralingrado com a missão de recuar a 62ª e 65ª divisão do Exército soviético.

 

Em setembro, após visitar várias frentes de guerra na URSS, começou a planejar a artilharia da Operação Urano. Após a aprovação do plano que executou, trabalhou com os chefes de artilharia das frentes e ainda supervisionou a formação de unidades que iriam conduzir à ofensiva. No comando do 21º Exército também emitiu um decreto sobre a criação de divisões de artilharia de reserva em Stavka. Em dezembro, executou o mesmo papel no planejamento, preparação e gestão das operações nas Frentes de Voronezh e Don, momentos em que também supervisionou a eliminação das tropas alemães cercadas em Stalingrado. Após a capitulação das forças do Eixo, foi promovido a Marechal.

 

Em 31 de janeiro de 1943, Voronov interrogou pessoalmente, junto a outros dois oficiais, o Marechal de Campo alemão Friedrich Paulus que se rendeu às tropas soviéticas. No início de fevereiro, foi enviado à Frente Norte para ajudar no planejamento e na operação Demyansk.  Entre maio e junho, supervisionou a formação dos cinco primeiros corpos de artilharia avançados. Em julho, atuou como representante de comando na Frente Bryansk e ainda verificou a preparação do bombardeio na Batalha de Kursk. Em 3 de agosto, foi incumbido de monitorar o planejamento e a condução da batalha de Smolensk na Frente Ocidental. Em seguida, foi enviado à Frente Kalini e, em 20 de outubro, já coordenava as ações da 1ª e 2ª Frente Báltica, além da Frente Ocidental.

 

Da esquerda a para a direita, o General Rokossovsky, o Marechal Voronov e o oficial tradutor Nicolay Dyatlenko interrogando o Marechal de Campo alemão Friedrich Paulus | Foto: Creative Commons

 

Pouco depois, durante a Conferência de Moscou que reuniu aliados da Segunda Guerra, entre 18 de outubro e 11 de novembro, participou como representante da URSS, ao lado de outros militares de seu país, nas conversações com a delegação britânica.

 

No início de 1944, Voronov pediu dispensa do alto comando das forças soviéticas e voltou a Moscou para tratar da saúde. Mesmo assim, ainda ajudou na reimplantação da artilharia no extremo da Frente Oriental. Em consequência, no dia 21 de fevereiro, foi promovido novamente, dessa vez, a Chefe Marechal da Artilharia, condição que, em 20 de março de 1944, o fez estampar a capa da revista norte-americana Time, como o primeiro marechal das forças armadas na história soviética, com certificado emitido pelo presidente e classificação especial, devido à sua força de liderança e heroísmo na luta contra os invasores nazistas.

 

Revista Time de 20 de março de 1944, que traz na capa Voronov, como Chefe Marechal da Artilharia | Foto: Reprodução

 

 

Período pós-guerra

Em maio de 1946, Voronov criou a Academia de Ciências da Artilharia e, logo após, foi eleito deputado do Soviete Supremo da URSS – uma das mais altas instâncias do poder Legislativo da URSS entre 1936 e 1988. Em 1950, após ser libertado de sua posição, assumiu a presidência da academia que criou e da qual se tornou responsável pelo desenvolvimento de armas nucleares estratégicas. Em 1953, foi nomeado Chefe da Academia de Comando de Artilharia Militar em Leningrado. Em outubro de 1958, já com a saúde debilitada, foi transferido para o Grupo de Inspeção Geral do Ministério da Defesa (no qual permaneceu até a própria morte).

 

Em 1963, publicou suas memórias, intitulada em russo como На службе военной (embora não haja traduções da obra para outros idiomas, em português o título poderia ser adaptado para Sobre o serviço militar).  Em 7 de maio de 1965, foi condecorado como herói da URSS no 20º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial.

 

Marechal da União Soviética Leonid Govorov (1897-1955), e Comandante Marshal de artilharia Nikolai Voronov (1899-1968) com um grupo de generais em Leningrado | Foto: Alamy

 

Três anos depois, após ter um tumor detectado, foi operado em 23 de fevereiro de 1968. Permaneceu sem consciência até o dia 28, data em que foi dado como morto. Deixou a mulher Nina, o filho Vladimir e sua grande paixão, o CSKA Moscou, um dos principais clubes de futebol de Moscou que, como parte da uma sociedade das Forças Armadas de Esportes, estava associado ao Exército Vermelho (e que ainda hoje é um departamento do Ministério da Defesa russo).

 

Desde que seus restos mortais foram enterrados na Praça Vermelha, próximo ao muro do Kremlin, Vonorov passou a ser lembrado como um herói, principalmente pela grande contribuição que deu tanto ao desenvolvimento da artilharia, inclusive no período pós-guerra, em virtude das pesquisas que liderou, quanto pela contratação das forças de mísseis de combates.

 

 

Adaptado do texto “Herói da URSS”

Revista Leituras da História Ed. 97