O Brasil vai à guerra

Pressionado pela opinião pública e pelos países aliados, o então presidente Wenceslau Brás decide que o país participe do conflito apesar das condições precárias de suas forças armadas

Por Rose Mercatelli | Foto: Fundação Biblioteca Nacional | Adaptação web Caroline Svitras

Nas primeiras décadas do século 20, o Brasil vivia uma fase de fragilidade em todas as áreas do poder central. A República, consolidada há poucos anos, ainda não apresentava uma coesão de propostas voltadas para políticas públicas, quer no setor econômico ou de desenvolvimento. Não havia também uma unidade de ideias e nem uma continuidade nas ações que diziam respeito à defesa nacional, na época constituída apenas pela Marinha e Exército. As Forças Armadas contavam com um efetivo pequeno, eram mal aparelhadas e não tinham prestígio social. Sequer eram consideradas como legítimas representantes de um povo, o que acontecia em países como Alemanha, por exemplo, que se notabilizava pela excelência de seu Exército e Marinha.

 

A população civil, por sua vez, vivendo em meio a uma imensa desigualdade econômica e social já sofria suficientemente com suas próprias mazelas para se preocupar com uma guerra em outro continente que, nem de longe, imaginava-se poder afetar o território e a segurança nacional. Para completar o panorama, o então presidente Wenceslau Brás, eleito em 1 de março de 1914, parecia não ter a mínima intenção de entrar na briga europeia, que teve seu início oficial em 1 de agosto de 1914, quando o Império Alemão declarou guerra ao imperador russo, internacionalizando dessa maneira o que até então era considerado um conflito regional. Com a Europa oficialmente em guerra, o Brasil levou apenas três dias para declarar sua neutralidade em 4 de agosto de 1914.

 

Queda nas exportações

No início do conflito, a economia brasileira se sustentava basicamente na exportação de apenas um produto agrícola: o café. Como este não era um gênero considerado essencial como o trigo, as exportações e a principal fonte de arrecadação do governo, os tributos advindos da venda de café para os países europeus, em especial para a França, diminuíram consideravelmente. O problema se acentuou mais ainda com o bloqueio alemão e com a proibição à importação de café feita pela Inglaterra em 1917. Devido à precariedade na segurança do transporte marítimo com o Atlântico infestado de submarinos alemães, o Reino Unido considerava o espaço de carga nos navios de suma importância para o transporte de outros produtos alimentícios, muito mais necessários do que os grãos do “ouro negro”, que fazia a riqueza dos cafeicultores.

 

O cultivo e a exportação de café foram essencias para economia brasileira até a década de 20 | Foto: Reprodução/www.revistacafeicultura.com.br

 

Frente a esse cenário difícil, o governo brasileiro pretendia apenas prestar seu apoio às potências aliadas europeias envolvidas na Primeira Guerra com a intenção de conquistar simpatias e posição de destaque na política internacional. A expectativa era de que, terminado o combate, o Brasil teria vez nas discussões dos fóruns internacionais de debates para definir o novo mapa do mundo e os destinos da humanidade.

 

 

Perigo em alto mar

Nos primeiros 20 meses de guerra, somente um navio brasileiro, o Rio Branco, foi afundado por um submarino alemão em 3 de maio de 1916. Na verdade, como o Rio Branco operava a serviço da Inglaterra e a maior parte de sua tripulação era composta por noruegueses, seu afundamento não foi considerado pelo governo de Wenceslau Brás como um ataque ilegal propriamente dito por parte dos alemães, apesar da comoção nacional causada pela notícia. Entretanto, as relações entre Brasil e Alemanha ficaram realmente abaladas quando o Império Alemão decidiu autorizar seus submarinos a afundar qualquer navio que entrasse nas zonas de bloqueio.

 

U-93 desapareceu em alto mar após afundar o Macau,um episódio cuja causa até hoje não foi esclarecida | Foto: Reprodução/www.divemag.org

 

A primeira baixa da marinha mercante brasileira aconteceu em 5 de abril de 1917, quando o vapor Paraná, um dos seus maiores navios, com 4.466 toneladas, carregado de café e navegando de acordo com as exigências feitas a países neutros, foi atacado por um submarino alemão a poucas milhas de distância do cabo Barfleur, na França, e três brasileiros foram mortos. Após sete dias, o Brasil rompeu relações diplomáticas e comerciais com a Alemanha e confiscou 45 de seus navios mercantes aportados no país. Um mês depois, outros dois navios brasileiros, o Tijuca e o Lapa, foram afundados, também por U-boots. Porém a gota d´água foi o torpedeamento do navio Macau pelo submarino alemão U-93 em 18 de outubro de 1917. Este foi realmente o estopim para a entrada do Brasil no conflito.

 

Pressões diplomáticas

A eclosão da 1ª Guerra Mundial encontrou as forças armadas brasileiras totalmente despreparadas e obsoletas. Faltavam ao Exército instalações, armamentos, efetivos e até uniformes. Também não existiam oficiais preparados para atuar em um tipo de ofensiva dessa magnitude. Para a Marinha, um dos maiores problemas era a falta de qualificação técnico-profissional por parte dos marujos para operar os instrumentos e aparelhos de bordo.

 

O afundamento do navio Paraná pelo submarino SM UB- 32, em abril de 1917, resultou no rompimento de relações diplomáticas do Brasil com a Alemanha | Foto: Reprodução/www.revistacafeicultura.com.br

 

Mas com o conflito na Europa em andamento, o governo brasileiro passou a sofrer pressões diplomáticas e econômicas, em especial por parte da Inglaterra e da França, para que se posicionasse a favor das potências aliadas. Apesar dos apertos, o governo de Wenceslau Brás adiava ao máximo a incumbência de aparelhar convenientemente o Exército e a Marinha e declarar guerra à Alemanha. Entretanto, para evidenciar a contribuição do governo brasileiro ao esforço bélico aliado, foram tomadas várias medidas para aplacar os ânimos.

 

Pessoal da Saúde

Porém a ajuda brasileira de maior destaque foi, sem dúvida, a missão médica enviada à França. No total, foram 150 brasileiros – entre médicos, enfermeiros e assistentes – com destino ao hospital brasileiro com 300 leitos, para cuidar de feridos de guerra e vítimas da gripe espanhola.

 

O escritor e jornalista Marcelo Monteiro conta em seu livro U-93 – A entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial: “Em 18 de agosto de 1918, no exato dia em que as autoridades brasileiras confirmavam que o navio Maceió havia sido torpedeado na costa espanhola, a missão partiu do porto do Rio de Janeiro, no navio La Plata, em direção à França. No total, estima-se que cerca de 4 mil pessoas estivessem no cais para assistir à partida da missão médica”.

 

Criada em 10 de julho de 1918, a missão incluía 100 cirurgiões, acompanhados por estudantes de Medicina e de soldados do Exército que seguiam para fazer a guarda do hospital brasileiro já existente em Paris, montado em um prédio cedido pelo governo francês, porém equipado pelo governo brasileiro. O chefe da missão era o general Napoleão Felippe Aché, que atuava sob supervisão do comando único dos exércitos aliados. No total, incluindo médicos, enfermeiras, estudantes e guardas, 161 brasileiros tomaram parte da missão médica. Durante a travessia, o contingente da saúde também foi atingido pela gripe espanhola. Logo após a chegada a Dakar, em 5 de setembro de 1918, quatro profissionais contraíram a doença e acabaram morrendo.

 

Além das operações navais, a participação brasileira ocorreu com o envio de uma missão médica para frente europeia | Foto: Wikimedia Commons

 

Na França, a gripe espanhola acabaria sendo o grande problema a ser combatido, muito mais do que os ferimentos de guerra. Além disso, médicos brasileiros foram designados a atuar em missões especiais. Olímpio Chagas, sediado em Nice, atuou junto às vitimas de gás. Em Tours-sur-Loire, Mario Kroeff cuidou de prisioneiros alemães, enquanto em Nantes, Pedro de Carvalho substituiu o diretor do hospital local.

 

Epitácio Pessoa | Foto: Biblioteca da Presidência da República

Entretanto, no começo de 1919, o governo decidiu extinguir com os trabalhos da equipe médica, o que deixou inconformados os membros brasileiros presentes às conferências de paz.

 

Ao mencionar que ainda existiam pacientes sob os cuidados de profissionais brasileiros, o presidente da delegação na Conferência de Paz, Epitácio Pessoa, afirmou que, em virtude da insignificante colaboração militar brasileira no conflito, a súbita extinção da missão médica, a mais efetiva contribuição brasileira na guerra, causaria péssima impressão aos aliados.

 

Mas o pedido de Epitácio Pessoa não foi atendido. Em 19 de fevereiro de 1919, três dias depois do telegrama, o presidente em exercício Delfim Moreira da Costa Ribeiro declarou extinta a missão médica, menos de sete meses depois de sua criação. O hospital brasileiro ainda seguiria operando por mais seis meses, sob responsabilidade de médicos militares, chefiados pelo general Aché. Depois deste período, porém, os profissionais de saúde do Exército também retornaram ao Brasil. Toda a estrutura usada no atendimento aos feridos foi doada para a Escola de Medicina da Universidade de Paris.

 

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Leituras da História Ed. 81

Adaptado do texto “O Brasil vai à guerra”