O futebol feminino no Brasil

Este caminha praticamente à margem das práticas esportivas, embora tenha muita história de lutas e conquistas. Estas páginas recordarão um passado que já teve proibição presidencial, brigas de casais, um time quase imbatível, entre outras tantas curiosidades

Por Aristides Leo Pardo* | Foto: Montagem Fabiana Neves | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Não se sabe ao certo, onde e como o futebol começou a ser praticado por mulheres no Brasil, mas elas correm atrás da pelota desde as primeiras décadas do século passado, embora essas partidas tivessem caráter beneficente ou de exibição – ou seja, era visto como espetáculo, e não como competição esportiva, como paixão clubista, presente na versão masculina.

 

No âmbito competitivo, o pioneirismo coube ao Esporte Clube Radar, criado  nas areias de Copacabana e que mais tarde migrou para os gramados, rompendo as barreiras do preconceito com uma equipe que fez história nos campos do Brasil e do mundo.

 

A partir da década de 1930, há registros de várias equipes de futebol feminino em diversas partes do país, porém, essas formações eram sazonais e visavam a disputa de torneios, na maioria dos casos, de cunho beneficente ou demonstrações em eventos festivos, sem o caráter competitivo, como foram os casos de Araguari (MG), que se autodenomina pioneira na modalidade, na década de 1940, fato hoje comprovadamente ultrapassado, pois em Campos dos Goytacazes (RJ) e em outras cidades aconteceram partidas entre mulheres bem antes de as mineiras entrarem em campo.

 

Jogadoras do Campos dos Goytacazes | Foto: Divulgação

 

Na cidade Fluminense, existe a figura de Benta Pereira, uma heroína da história local, importante no desenvolvimento do município, homenageada até no brasão oficial, onde se encontra referência à luta das mulheres campistas pela liberdade de sua terra, com a inscrição, “Ipsae matronae hic pro jure pugnant” (Aqui até as mulheres pugnam por seus direitos).

 

Em certa ocasião, nos anos iniciais da década de 1930, do século passado, Monsenhor Severino, diretor do Orfanato São José, viu sua instituição atravessar  uma crise financeira e, com o intuito de arrecadar fundos, para poder fazer uma reforma no local, recorreu aos principais clubes de futebol locais e pediu para que eles montassem equipes femininas para a realização de um torneio, que fora um sucesso e contou com a participação do Americano, Goytacaz, Rio Branco e Industrial.

 

Nessa empreitada, o religioso teve a difícil missão de conseguir a autorização dos pais, namorados, maridos e irmãos das moças para levar a fundo seu projeto, explicando o motivo de sua causa e, assim, acabou por obter ao menos quatro times, com a ajuda de desportistas locais, que admitiram a participação de mulheres de sua família, como foi o caso da goleira Laura, do Americano, irmã de Mário Seixas, um dos destaques do time alvinegro.

 

Jogadoras do Americano | Foto: Divulgação

 

Não entraremos no mérito do debate de onde aconteceram as primeiras partidas, ou entre quem, mas é fato que, nos primórdios do futebol feminino, os jogos eram somente em ocasiões festivas, de exibição, atraindo público para esse fim, sem o sentido de disputas ou campeonatos, com torcedores apaixonados, como já aconteciam na versão masculina – que já vinha desbancando as tradicionais regatas e caminhava a passos largos para se tornar a “paixão nacional” da atualidade.

 

 

O quase invencível radar

Com inspiração nessas disputas do passado, o empresário carioca Eurico Lira, em 1981, teve a ideia de criar o departamento feminino do Esporte Clube Radar, que desde 1932 já ocupava as areias da praia de Copacabana, para a prática futebolística e, assim, da areia para o campo foi um pulo e, na esteira do Radar, outros clubes foram sendo formados no intuito de alavancar o futebol feminino em terras tupiniquins.

 

Lira acumulava as funções de mecenas, presidente e treinador da equipe carioca, que ostentava as cores amarelo-ouro, representando o sol de Copacabana e o azul-oceano, lembrando o mar, retificando, assim, sua origem praiana, que entraria em cena no campo esportivo, logo após a revogação da lei que proibia as mulheres de praticarem alguns esportes, incluindo o futebol, que vigorava desde a “era Vargas”.

 

Jogadoras do Radar, um time de fazer inveja à muitos jogadores homens | Foto: Divulgação

 

Desde então, o clube arrematou todos os títulos que disputou, e ainda realizou uma vitoriosa excursão pela Europa. O Radar disputou 71 partidas, vencendo 66, empatando três e sofrendo apenas duas derrotas, transformado-se em uma lenda no futebol feminino brasileiro e embrião da seleção nacional, que chegaria a conquistar  uma medalha olímpica.

 

O Esporte Clube Radar fez história no futebol feminino brasileiro e hoje é praticamente desconhecido do grande público apreciador do esporte bretão, que não dá o devido valor à nossa história, sobretudo, influenciado pelo machismo, já que no Brasil o futebol ainda é tido como “coisa de homem”.

 

Escudo do Esporte Clube Radar | Foto: Divulgação

 

Com a não realização de competições oficiais, e o descaso por parte da imprensa e patrocinadores, somados com a falta de público, o vitorioso Radar entrou em decadência no início da década de 1990: apesar de ter representado o Brasil no mundial da categoria em 1991, nossas meninas não passaram da primeira fase e o clube acabou fechando as portas, no entanto, escrevendo uma página na história do futebol feminino brasileiro.

 

A semente foi plantada

Embora tendo fechado suas portas, o Radar e outros clubes que mantiveram fortes equipes femininas como o Bangu, também do Rio de Janeiro, e a SAAD, de São Paulo, entre outra dezena de equipes, plantaram a semente que mais tarde daria frutos e a participação brasileira em competições como o Mundial e os Jogos Olímpicos e não mais se restringiu ao status de meras coadjuvantes, mas, sim, na condição de potenciais candidatas às conquistas.

 

De carona na evolução do selecionado nacional, a jogadora alagoana Marta foi alçada ao status de melhor do mundo, segundo a Fifa (órgão dirigente máximo do futebol mundial e suas vertentes, como as modalidades de praia, feminina, de salão), por cinco vezes consecutivas, recorde absoluto, mesmo se comparado com o universo futebolístico masculino.

 

Marta e Cristiano Ronaldo, Melhores do Mundo de 2008 | Foto: Xinhua / Reuters

 

Com o encerramento das atividades no futebol feminino, a modalidade passaria por um período de estagnação, que duraria até 1995, quando mais uma tentativa de alavancar o futebol feminino brasileiro aconteceu, embora, dessa vez, a valorização não estava no talento das atletas com a bola nos pés, mas, sim, em outros atributos.

 

Por sugestão da imprensa e de patrocinadores, os tamanhos dos shorts diminuíram para, assim, valorizar as formas femininas; e a montagem do elenco de alguns times deram preferência à beleza de modelos como Milene Domingues (Corinthians) e Suzana Werner (Fluminense) em detrimento da técnica. Único clube a levar a sério a competição e a montagem de seu elenco, o Vasco da Gama, tornou-se o principal clube desse período e de seus quadros saíram a base para a seleção brasileira que disputaria os Jogos Olímpicos de Atlanta, com destaque para a goleira veterana Meg, única do grupo remanescente do outrora glorioso Radar.

 

Milene Domingues | Foto: Divulgação

 

No ano 2000, enfim, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) resolve impulsionar mais uma vez o esporte e cria competições nacionais e, de carona no sucesso, também nasce a versão feminina da Taça Libertadores da América, a mais importante do continente. Embora a Libertadores continuasse, o Campeonato Brasileiro mais uma vez não avançaria, tendo apenas a Copa do Brasil sido a competição que indicaria o representante brasileiro na disputa continental.

 

Após mais um período sem sua realização, o ano de 2013 marcou o retorno do Campeonato Brasileiro de futebol Feminino, novamente com a organização da CBF e com patrocínio da Caixa Econômica Federal, mas, entre os times da Séria A do Brasileirão, o Vasco da Gama foi o único interessado em entrar na disputa.

 

Além da equipe cruzmaltina, a competição contou com os seguintes participantes: América (São José do Rio Preto/SP), Ascoop (Gama/DF), Botafogo/ PB, Caucaia/CE, Centro Olímpico/ SP, Duque de Caxias/RJ, Foz Cataratas (Foz do Iguaçu/PR), Francana/SP, Iranduba/AM, Kindermann (Caçador/ SC), Mixto (Cuiabá/MT), Pinheirense/ PA, Rio Preto (São José do Rio Preto/ SP), São Francisco/BA, São José (São José dos Campos/SP), Tiradentes/PI, Tuna Luso/PA, Viana/MA e Vitória (Vitória de Santo Antão/PE).

 

 

A pátria de chuteiras (rosas)

A primeira seleção brasileira foi montada em 1988 para representar o Brasil em um torneio que reunira algumas seleções do mundo, que fora ocorrido na China e que seria o embrião para o Mundial da categoria, disputado também no mesmo país.

 

No mundial feminino de 1991, na China, a CBF não liberou verba para que a equipe fosse representar o Brasil. As despesas foram pagas pelo então técnico da equipe, Eurico Lira | Foto: Divulgação

 

A supremacia das cariocas do Radar foi nitidamente comprovada quando, das 18 jogadoras convocadas, nada menos que 16 eram oriundas de seu quadro. Nessa ocasião, as meninas do Brasil perderam na primeira fase para as australianas (1 x 0) e ganharam da Noruega (2 x 1) e da Tailândia (9 x 0), passando para a fase de quartas de final, onde venceu a Holanda (2 x 1), credenciando-se para as semifinais, quando foi derrotada pela Noruega (1 x 2), disputando o terceiro lugar e vencendo as anfitriãs por 4 x 2.

 

Praticamente, o mesmo time foi chamado para o Mundial de 1991, e dessa vez a eliminação viria na primeira fase, após vencer as japonesas (1 x 0) e serem derrotadas pelos Estados Unidos (0 x 5) e Suécia (0 x 2). Uma curiosidade desse torneio é que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não liberou verba para que a equipe fosse representar o Brasil na competição e, diante desse quadro, o sempre presente Eurico Lira, do Radar e chefe da delegação brasileira, arcou do próprio bolso com as despesas e pronunciou: “A partir daqui, ou se decreta a morte dessa modalidade ou impulsionava de vez.”

 

O futebol feminino foi incluído nos Jogos Olímpicos, em 1996, quando foi realizado na cidade americana de Atlanta e a seleção brasileira conquistou um honroso quarto lugar, mostrando que o esporte estava em crescente evolução no país. Nos Jogos de Sydney, em 2000, a mesma colocação, superada em Atenas (2004), quando perdeu as finais para os Estados Unidos, conquistando a medalha de prata, feito repetido em Pequim (2008), quando mais uma vez, na final, perderam para as norte-americanas.

 

Em 2009, Marta é eleita pela quarta vez consecutiva a melhor jogadora do mundo. Aos seu lado, o jogador Messi e Joseph Blatter | Foto: Fabrice Coffrini/AFP

 

O futebol feminino do Brasil enfim, sai do ostracismo e começa ser visto e respeitado como um dos melhores do planeta, fato reconhecido pela Fifa, ao eleger Marta como a melhor do mundo, embora não tenha atendido às expectativas, juntamente com as demais integrantes da equipe que disputou os Jogos Olímpicos de Londres, no qual nem passou da fase inicial.

 

 

A proibição

O universo futebolístico, desde seus primórdios, é caracterizado como um ambiente estritamente masculino e Franzini (2005) nos conta que esse espaço não é apenas no âmbito do esporte, mas também no sociocultural, em que os valores nele embutidos e dele derivados estabelecem limites aos quais a entrada das mulheres em campo subverteria tal ordem, e as reações daí decorrentes expressam muito bem as relações de gênero presentes em cada sociedade: quanto mais machista ela for, mais exacerbadas as suas réplicas.

 

A conotação preconceituosa da participação das mulheres na prática futebolística é bem explícita, pois a cultura brasileira associa o futebol como um esporte masculino, violento e de atrito, além de envolver paixões por seus times, então, soaria estranho, por exemplo, um torcedor santista falar  em uma roda de amigos que seus ídolos são Pelé, Pepe, Robinho, Neymar e Marta, mesmo esta última tendo conquistado para o time da Vila Belmiro um Campeonato Sul-Americano e ser uma das melhores do mundo.

 

Da mesma forma, o jornalista João Saldanha, ex-treinador da Seleção Brasileira, em 1970, que se declarava opositor da modalidade feminina e famoso por sua língua afiada, certa vez disse: “Imagina, o cara tem um filho, aí o filho arranja uma namorada, apresenta a namorada ao sogro e o sogro pergunta a ela: ‘O que você faz minha filha?’ E a mocinha responde: ‘Sou zagueiro do Bangu.’ Quer dizer, não pega bem, não é?”

 

João Saldanha | Foto: Reprodução/www.memoriafutebol.com.br

 

Frente a tais posturas, não surpreende que as mulheres não sejam vistas como mais um sujeito da história do futebol, e que a modalidade feminina seja um tema praticamente inexistente quando se fala sobre a trajetória do “esporte bretão” no Brasil.

 

Além do machismo e do moralismo que essas ditas preocupações com o bem-estar das brasileiras não conseguem esconder, elas revelam que, na verdade, o grande problema não dizia respeito ao futebol em si, mas justamente à subversão de papéis promovida pelas jovens que o praticavam, uma vez que elas estariam abandonando suas “funções naturais” para invadirem o espaço dos homens.

 

A participação das mulheres no âmbito dos esportes não mais como expectadoras, agora como parte integrante das disputas, incomodou uma grande parcela da sociedade, como podemos ver em uma carta endereçada ao então presidente Getúlio Vargas, escrita por um senhor chamado José Fuzeira, com data de 25/4/1940 e que teve grande repercussão na imprensa da época, solicitando “clarividente atenção de V. Ex. para que seja conjurada uma calamidade que está prestes a desabar em cima da juventude feminina do Brasil (sic)”.

 

E segue em sua petição: “Refirome, Sr. Presidente, ao movimento entusiasta que está empolgando centenas de moças, atraindo-as para se transformarem em jogadoras de futebol sem levar em conta que a mulher não poderá praticar esse esporte violento sem afetar seriamente, o equilíbrio fisiológico das suas funções orgânicas, devido à natureza que dispôs a ser mãe (…) Neste ritmo de crescimento, dentro de um ano, é provável que, em todo o Brasil, estejam organizados uns 200 clubes femininos de futebol, ou seja: 200 núcleos destroçadores da saúde de 2.200 futuras mães que, além do mais, ficarão presas de uma mentalidade depressiva e propensa aos exibicionismos rudes e extravagantes… (sic)”

 

Jogadoras do Rio Branco | Foto: Divulgação

 

No mesmo ano, Holanda Loyola, editor da revista Educação Physica, publicou um texto cujo título é ilustrativo dessa informação: “Pode a mulher praticar o futebol?” E seguia concluindo sua opinião que: “Tal acontecimento, pelo sabor da novidade, provocou sensação e a imprensa esportiva explorou-a habilmente através de um noticiário minucioso e de propaganda intensa, aumentando o entusiasmo do público e o “élan” das jogadoras. E as partidas repetiram-se animadas e concorridas, violentas e movimentadas, com todas as características do jogo masculino, sem mesmo lhes faltar esse complemento que parece imprescindível no famoso esporte bretão – as agressões e os socos… As nossas patrícias – belas e gentis – foram completas na exibição de seu futebol, igualaram a popularidade e o prestígio dos Faustos e Leônidas. A propósito desse sensacional acontecimento esportivo, inúmeras teem (sic) sido as consultas a nós endereçadas sobre esse tema: pode a mulher praticar o futebol?”

 

Tantas foram as campanhas contrárias à prática do futebol pelas mulheres, que levaram as autoridades a debaterem o assunto, já que o problema não era o futebol em si, e sim uma subversão de papéis, já que as mulheres deveriam ser as únicas responsáveis pelo lar e sua família, e os homens, mantenedores financeiros e quase proprietários de suas proles e esposas. Com receio de que a os estereótipos de “rainha do lar”, “boa mãe” e “boa esposa” fossem deixados para trás, o governo recomendou que fosse realizada uma campanha de propaganda mostrando os malefícios do futebol para as mulheres.

 

No ano seguinte, depois de acirradas discussões sobre o assunto e a inusitada carta citada do sr. Fuzeira, usada como opinião de uma representativa parcela da sociedade, foi assinado o Decreto-Lei nº 3.199/41, do Ministério da Educação, que trazia em seu 54º artigo a seguinte proibição: “Às mulheres não se permitirão a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”, ficando latente que, entre outras modalidades, o futebol estava entre essas “incompatibilidades”.

 

Com o advento da ditadura militar em meados dos anos de 1960, o então presidente da República Humberto de Alencar Castelo Branco baixou a resolução 7/65 no Conselho Nacional de Desportos (CND), reafirmando a proibição da prática de certos esportes pelas mulheres, o futebol era um deles.

 

Tal determinação pareceu que iria eliminar a prática do futebol pelas mulheres de uma vez por todas, mas, apesar da longa duração, em 1979, a lei deixa de existir e o caminho para a criação dos clubes estava aberto, iniciando uma história com muitas páginas ainda a serem escritas por nossas atletas em atuação pelos gramados do mundo.

 

 

*Aristides Leo Pardo é jornalista, historiador e pesquisador, autor do livro No País do Futebol, Cidade sem Memória: a História Futebolística de Campos dos Goytacazes (AGBOOK, 2010).

Revista Leituras da História Ed. 67