O herói de V de Vingança existiu

Em tempos de globalização, um filme estrangeiro influenciou manifestantes no Brasil durante protestos ocorridos em junho de 2013. A força da mensagem de rebeldia e transformação contida no longa-metragem é tão forte que também motivou a criação de um grupo hacktivista

Por Sergio Batisteli | Foto: AP | Adaptação web Caroline Svitras

As manifestações nas ruas da cidade de São Paulo ocorridas em junho começaram com um grupo de integrantes do Movimento Passe Livre (MPL), em sua maioria estudantes contra aumento do transporte coletivo na capital, que foi reajustado pela prefeitura e pelo governo do Estado de R$ 3,00 para R$ 3,20. Em pouco tempo, as manifestações assumiram maiores proporções e tornaram-se grandes protestos pelo Brasil. Os motivos das reivindicações se ampliaram como, por exemplo, o combate à corrupção, repúdio às privatizações (como a do Maracanã), melhor mobilidade urbana, melhor saúde e Educação.

 

Nas ruas, vimos alguns manifestantes usando algumas máscaras até então desconhecidas do grande público em nosso país. Mas, por qual motivo essas máscaras saíram às ruas, qual foi a inspiração que motivou as pessoas a usá-las publicamente nos protestos? A resposta está nas telas de cinema, pois a sétima arte mostra sua influência nas atuais manifestações em diversas partes do mundo: é uma forma de comunicação e instrumento político, traduzido e simbolizado por meio de discursos e de um adereço fetichizado.

 

O filme V de Vingança é uma adaptação da série de quadrinhos homônima, escrita por Alan Moore e desenhado por David Lloyd, no período de 1981 a 1988. Em 2006, o cineasta australiano James McTeigue marca o seu début como diretor. Os irmãos roteiristas Wachowski da trilogia Matrix (1999–2003), Speed Racer (2008), A Viagem (2012) também assinam o roteiro e produção de V de Vingança para a telona.

 

O longa-metragem começa com a seguinte narração: “Lembrai, lembrai o 5 de novembro. A pólvora, a traição e o ardil… Pedem que nos lembremos da ideia e não do homem, porque o homem pode falhar. Ele pode ser apanhado, morto e esquecido. Mais 400 anos depois, uma ideia ainda pode mudar o mundo. Eu testemunhei em primeira mão o poder das ideias. Vi pessoas matarem em nome delas e morrerem defendendo-as, mas não se pode beijar uma ideia, você não pode tocá-la ou abraçá-la. Ideias não sangram, elas não sentem dor, elas não amam.”

 

Manifestante carioca protesta por melhores serviços públicos e contra a pec 37, em junho de 2013 | Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP

 

Anonymous, uma legião surgida em 2003, representa o pensamento de muitos usuários de comunidades on-line existindo simultaneamente como um cérebro global. O termo anonymous também é comum entre os membros de subculturas da Internet como uma forma de se referir às ações de pessoas em um ambiente onde suas verdadeiras identidades são desconhecidas – é uma palavra de origem inglesa, que em português significa “anônimos”.

 

O conceito de ciberativismo adotado pelo grupo on-line descentralizado atua de forma anônima, de maneira coordenada, geralmente em torno de um objetivo livremente combinado entre si e voltado, principalmente, a favor dos direitos do povo perante seus governantes. A partir de 2008, o coletivo anonymous ficou cada vez mais associado ao hacktivismo colaborativo e internacional, realizando protestos e outras ações, muitas vezes com o objetivo de promover a liberdade de expressão na Internet e na vida em sociedade.

 

Depois de uma entrevista em vídeo com o ator e cientologista Tom Cruise, produzida pela Igreja da Cientologia que vazou para a Internet e enviada ao YouTube, a igreja emitiu uma reivindicação de violação de direitos autorais “a” rede social, solicitando a remoção do vídeo. Em resposta a essa atitude dos cientologistas, o Anonymous criou o vídeo Mensagem para a Cientologia em forma de protesto. Eles consideraram essa ação como censura na Internet. Esse vídeo teve repercussão mundial, após o grupo declarar guerra contra a Cientologia.

 

Manifestante mascarado protesta contra a corrupção em Blumenau, Santa Catarina | Foto: Jaime Batista da Silva

Em 2 de fevereiro de 2008, o movimento foi para as ruas. Cento e cinquenta pessoas se reuniram em frente de uma das igrejas da Cientologia dos EUA, em Orlando, no Estado da Flórida, para protestar contra as práticas da organização. Em 10 de fevereiro de 2008, cerca de 7 mil pessoas protestaram simultaneamente em mais de 93 cidades do mundo. Muitos manifestantes usavam máscaras popularizadas pelo personagem V do filme V de Vingança que, por sua vez, foi influenciado por Guy Fawkes. Os manifestantes disfarçaram suas identidades, principalmente para se protegerem de represálias por parte da Igreja. No caso, o motivo do anti-herói V adotar o uso da máscara foi para esconder suas cicatrizes físicas por ter o corpo inteiro queimado, quando explodiu um laboratório que realizava sórdidas experiências com pessoas, e ocultar sua identidade na trama cinematográfica.

 

O soldado inglês e católico Guy Fawkes (1570-1606) comandou uma tentativa de explodir o Parlamento e tomar o poder na Inglaterra. O episódio entrou para a história e ficou conhecido como Conspiração da Pólvora, mas o golpe fracassou e Guy Fawkes foi condenado à forca no dia 5 de novembro de 1605. O aniversário da Conspiração da Pólvora se tornou feriado no Reino Unido e é comemorado com festas e fogueiras.

 

Além da máscara com as feições de Guy Fawkes, bigode e barba pontuda, a influência de V de Vingança está intimamente ligada à ideologia do grupo Anonymous. Um dos princípios do discurso dos hacktivistas é buscar a igualdade e a justiça em uma sociedade, para que ela seja reestruturada. Justamente, uma das frases mais impactantes do filme é quando V esbraveja exaltadamente: “Igualdade, justiça e liberdade são mais do que palavras, são perspectivas.”

 

Guy Fawkes : Foto: Fotolibra

O diretor do longa-metragem, James McTeigue, por meio de um telão na rua e grandes televisores, cria uma atmosfera estética que amplia a força da poderosa mensagem de V. No momento que o mascarado invade a sede da televisão BTN, controlada pelo governo para fazer um pronunciamento, observamos a planejada oratória do personagem vestido todo de preto e uma exuberante cortina de tom vermelho-sangue ao fundo. Com uma incrível habilidade sobre o uso das palavras, como se deve fazer um bom jornalista, escritor ou advogado, observamos a reação perplexa das pessoas, assistindo ao seu discurso.

 

“Boa noite, Londres. Permitam que eu peça desculpas por esta interrupção. Eu, como muitos de vocês, aprecio o conforto da rotina diária, a segurança familiar, a tranquilidade da repetição. Eu gosto delas como qualquer outro. Mas, no espírito da comemoração, em que importantes eventos do passado, geralmente associados à morte de alguém ou ao fim de alguma guerra sangrenta, são comemorados com um belo feriado, eu pensei em marcar este 5 novembro, um dia que infelizmente não é mais lembrado, tomando um pouco do tempo de suas vidas diárias para sentar e conversar. Existem, é claro, aqueles que não querem que falemos. Suspeito que ordens estejam sendo dadas, e os homens com armas já se ponham a caminho. Por quê? Porque enquanto a violência for usada no lugar do diálogo, palavras sempre terão o seu poder. Palavras oferecem um meio para o significado, e para aqueles que escutam a anunciação da verdade. E a verdade é que existe uma situação totalmente errada neste país, não existe? Crueldade e injustiça, intolerância e opressão. Onde um dia houve o direito de discordar, de pensar e falar como se desejasse, agora temos censores e os sistemas de vigilâncias nos forçam a nos conformar, e solicitam nossa submissão. De quem é a culpa? Com certeza, existem aqueles que são mais responsáveis do que outros, eles vão ter que prestar contas, mas a verdade seja dita, se procuram os culpados, só precisam se olhar no espelho.”

 

R de Resistência

Atualmente, a resistência ocupa o espaço deixado anteriormente pela queda militante da revolução. O conceito de revolução, certamente, traz mudanças políticas radicais e súbitas transformações na sociedade. É possível que ainda possamos vivenciar um processo revolucionário que venha transformar o Brasil, porque esse país precisa de mudanças. Resistir é a forma de ação política hoje. Tanto o grupo Anonymous e o cidadão insatisfeito foram para as ruas como há muito tempo não acontecia.

 

Praticamente, não houve músicas de bandas ou cantores que embalaram as ações populares nas ruas, os manifestantes criaram cantos próprios que surgiram de forma espontânea. Mas a veterana banda de Brasília, Capital Inicial, compôs uma canção escrita após os protestos do dia 17 de junho. A letra é uma espécie de chamado para as pessoas saírem do conforto de suas casas e fazerem sua parte. A pergunta é: em 2014, as manifestações e a recusa à submissão como forma de protestos que presenciamos em junho irão continuar?

 

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Revista Leituras da História Ed. 68